Semana On

Terça-Feira 31.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Poder

Ao atender ‘facção’ olavista, Bolsonaro coloca mais uma ‘aliada’ na corda bamba

Regina Duarte tem dois caminhos: bater continência ao presidente ou pedir as contas

Postado em 13 de Março de 2020 - Ricardo Noblat (Veja), Eliane Cantanhêde (O Estado de S.Paulo) - Edição Semana On

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No dia em que tomou posse na Secretaria de Cultura do governo, a atriz Regina Duarte lembrou ao presidente Jair Bolsonaro que ele lhe prometera carta branca para trabalhar e porteira fechada – o que significa autonomia para escalar sua própria equipe.

Bolsonaro respondeu no ato: carta branca ela não teria. E por dispor de mais informações, ele poderia, quando quisesse, vetar um ou outro nome escolhido por Regina para ajudá-la na tarefa de tocar a área do governo mais sensível a turbulências.

Regina provou na pele o que disse Bolsonaro antes do seu primeiro dia de trabalho. Em entrevista à TV Globo, ela afirmou que estava sendo vítima de “uma facção” empenhada em derrubá-la mesmo antes de assumir o cargo.

Não se referiu a “facção do governo”. Referiu-se à facção comandada de fora do governo pelo filósofo Olavo de Carvalho que só faz ataca-la. Pois Bolsonaro mandou que o general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, corrigisse Regina.

E ele o fez em sua conta no Twitter. Não poderia ter sido mais explícito e duro:

“Todos os integrantes do governo devem seguir a orientação político-ideológica” [do presidente]. “São seus ministros e secretários que devem se moldar aos princípios publicamente defendidos pelo Presidente da República, não o contrário.”

Foi a primeira paulada, mas não foi a única do dia, nem a que mais doeu em Regina. Ela admitiu na entrevista que poderia demitir Sérgio Camargo da presidência da Fundação Palmares. Camargo respondeu nas redes sociais debochando dela.

Finalmente, no final da tarde, uma edição extra do Diário Oficial desfez a nomeação de Maria do Carmo Brant de Carvalho para o comando da Secretaria da Diversidade Cultural. Na edição que circulara de manhã, a nomeação saíra assinada por Regina.

Maria do Carmo é doutora pela PUC de São Paulo. Sua nomeação foi mal recebida pelos bolsonaristas só por ela ter sido secretária de Assistência Social do governo do presidente Michel Temer. Regina ficou inconsolável. E ainda está.

Só lhe restam dois caminhos: bater continência para Bolsonaro e ir em frente. Ou pedir as contas. Quem sabe não reata o contrato com a TV Globo que foi obrigada a rescindir por acreditar que pacificaria as relações do governo com os artistas?

Rei Sol e seus satélites

É só impressão ou os grandes nomes que se aproximaram do presidente Jair Bolsonaro e entraram no governo estão encolhendo? É uma espécie de maldição que agora se abate sobre Regina Duarte, eterna “namoradinha do Brasil”. 

Se havia um verdadeiro “mito” na posse do governo, era o juiz Sérgio Moro, cuja fama atravessou fronteiras e oceanos depois de comandar a maior operação de combate à corrupção do mundo. Não durou muito. Mito como juiz de Curitiba, Moro foi colocado no devido lugar pelo presidente, conhecido tanto pelo ciúme quanto pela mania de perseguição, o capitão do quem manda no governo sou eu, reforçado pelo “quem tem votos e popularidade sou eu”. 

O super-Moro foi diminuindo até que sua mulher, Rosângela Moro, admitiu: “não vejo o Bolsonaro, o Sérgio Moro, eu vejo o Sérgio Moro no governo Bolsonaro, eu vejo uma coisa só”. Quem engoliu quem? O presidente, que encolhe todos à sua volta, ou o ministro, que aguentou uma desautorização após a outra e não deu uma palavra contra o motim de PMs no Ceará?

O super-Guedes também não está mais essa Brastemp toda, depois de perder o embalo da reforma da Previdência e tratar como corriqueiro o PIB de 1,1%. Diz que “sem reforma não tem crescimento”, mas nada de enviá-las ao Congresso. Enquanto isso, o presidente se encarrega de convocar – agora à luz do dia – manifestações que são, sim, contra o Legislativo e o Judiciário. 

Guedes tem os predicados que opinião pública, empresários e mercado adoram – é liberal, privatista, cioso do ajuste fiscal, mas está mostrando ao longo dos meses que promete muito, entrega pouco. Quem jogou todas as suas fichas nele, fechando os olhos e os ouvidos para as patacoadas do chefe, começa a se perguntar: “qual é mesmo o plano da economia?” 

Para piorar, Guedes até aqui tinha carta-branca e apenas cedeu na Previdência diferenciada para os militares. Mas, nas reformas administrativa e previdenciária, quem manda é o Planalto. Ou melhor, o próprio Bolsonaro. Quanto mais o ministro se esgoela a favor das reformas, mais o presidente dá de ombros e vai adiando. 

Onyx Lorenzoni foi rebaixado e não se mais fala nele. Gustavo Bebianno empenhou tudo na campanha de Bolsonaro e não deu para o gasto. O general Santos Cruz agiu em legítima defesa contra o guru da Virgínia e foi parar no olho da rua. E não foi o único, apenas mais um na lista de generais defenestrados. Sai um, entra outro. 

Quem começa a causar dúvidas é o general Luiz Eduardo Ramos. Não pelos defeitos, mas pelas qualidades. Pela capacidade de diálogo, de aceitação no Congresso, de trabalhar por apoios e não pela guerra. Velho amigo de Jair Bolsonaro, ele que se cuide! 

Foi o general Ramos quem sugeriu Regina Duarte para a Cultura e é justamente ele quem agora critica publicamente a nova secretária, que acusou uma “facção” pelos ataques que vem recebendo, pelas redes sociais, do guru de sempre e dos saudosos do nazistoide demitido por pressão política e popular. Regina está sentindo na pele o que um punhado de jornalistas sofre todo dia. 

“É o sol!”, diz experiente político, confrontado com a lista de “satélites” chamuscados pelo presidente, que deveria começar a se preocupar com o que realmente interessa: não bastasse o coronavírus, a guerra do petróleo entre Arábia Saudita e Rússia explode a economia mundial. 

Real, Bolsas e PIB de 2020 derretem e já se fala em recessão. Não é com guerra ideológica, apagando o brilho dos seus quadros mais lustrosos e usando comediantes para dar bananas para repórteres que o presidente vai reduzir a tragédia. Ele tem é de liderar a superação da crise, mas talvez seja pedir demais. 


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