Semana On

Terça-Feira 31.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Poder

Empresários bolsonaristas financiam ataques contra STF, revela inquérito

Boicote a empresas ligadas a Bolsonaro ganha as redes

Postado em 13 de Março de 2020 - Vera Rosa, Felipe Frazão, Patrik Camporez e Rafael Moraes Moura (Estadão), Ricardo Noblat (Veja), BR Político, Sylvio Costa (Congresso em Foco) - Edição Redação Semana On

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O inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) aberto para investigar fake news identificou empresários bolsonaristas que estariam financiando ataques contra ministros da Corte nas redes sociais. As investigações estão adiantadas e atingem até mesmo sócios de empresas do setor de comércio e serviços, todos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Embora o inquérito, que tramita sob sigilo, seja destinado a investigar ameaças, ofensas e calúnias dirigidas a ministros do STF e suas famílias, as informações são de que o mesmo grupo de empresários também ajudaram a convocar os atos do próximo domingo (15), tendo como alvo o Congresso e o Judiciário.

O custo dos ataques virtuais pode chegar a R$ 5 milhões por mês. As apurações indicam que esses empresários bancam despesas com robôs – programas de computador que podem ser usados para fazer postagens automáticas nas redes – e produção de material destinado a insultar e constranger opositores de Bolsonaro nas mídias digitais.

O inquérito também descobriu que os financiadores milionários bolsonaristas de milícias digitais contra os ministros da Corte também praticam evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.

Aberto em março do ano passado por determinação do presidente do Supremo, Dias Toffoli, o inquérito não identificou apenas fake news, mas também evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal por parte de alguns empresários bolsonaristas. A expectativa é de que o processo, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, seja concluído em maio e enviado ao Ministério Público.

Moraes já identificou o nome de empresários bolsonaristas que financiaram os mais duros ataques à Corte nas redes sociais. Ele e Toffoli avaliam qual será o melhor momento para tornar público o que apuraram. Toffoli pretende fazê-lo antes de transferir a presidência para o ministro Luiz Fux, que o sucederá a partir de setembro. O presidente Jair Bolsonaro está pronto para dizer que nunca soube de nada.

Em outra frente, a CPI das Fake News vai buscar reforços para a investigação que tramita no Congresso, mas está patinando porque virou uma disputa fratricida entre governo e oposição. Um dos primeiros movimentos da deputada Joice Hasselmann (SP), ao assumir a liderança do PSL, foi substituir quatro deputados bolsonaristas por outros quatro de seu grupo.

Pedido

A estratégia é lotear a CPI para tentar avançar nas apurações sobre o pagamento de robôs que propagam notícias falsas ou atacam políticos que batem de frente com Bolsonaro. Integrantes da CPI já solicitaram ao Supremo o compartilhamento de dados relativos ao inquérito das fake news, mas tiveram o pedido negado, sob o argumento de que o foco da Corte está apenas nos magistrados e suas famílias.

A CPI é mais abrangente e apura a ofensiva contra os parlamentares. Nas redes sociais, os principais alvos das agressões são os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ); do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); e a própria Joice. Uma das mensagens em poder da CPI traz ordem para disseminar críticas a Maia na internet, chamando-o de “filho da p...”.

O primeiro objetivo da CPI, após o troca-troca de cadeiras, será aprovar a convocação do vereador Carlos Bolsonaro (PSC), filho do presidente. Carlos é apontado como responsável pelo chamado “gabinete do ódio”. Como revelou o Estado, o grupo trabalha dentro do Palácio do Planalto e tem como missão disseminar ataques contra “inimigos” do governo

Até agora, a CPI já aprovou requerimentos de convocação ou convite de 153 pessoas. A falta de foco interessa a aliados de Bolsonaro e, por isso, a estratégia de mexer na composição do colegiado foi discutida com líderes de partidos. As trocas vão ocorrer nas legendas que compõem o Centrão.

A avaliação na cúpula do Congresso é de que, com o atual esquema milionário para manter a guerra virtual contra deputados e senadores, apenas a narrativa de Bolsonaro prevalecerá nas redes. No PSL, a dança das cadeiras levou os deputados Junior Bozzella (SP) e Nereu Crispim (RS) para duas vagas titulares, enquanto Delegado Waldir (GO) e Heitor Freire (CE) serão suplentes. Todos os quatro comandam diretórios regionais do PSL e são aliados do presidente do partido, deputado Luciano Bivar (PE), adversário de Bolsonaro.

Deixaram a CPI os deputados titulares Carlos Jordy (RJ) e Caroline de Toni (SC), além dos suplentes Filipe Barros (PR) e Carla Zambelli (SP), todos bolsonaristas. “Joice começou o festival de retaliações e movimentos para prejudicar o governo”, afirmou Jordy.

Prazo

Os integrantes da comissão já chegaram a um acordo com Alcolumbre para que a CPI seja prorrogada e funcione pelo menos até junho. Para tanto, porém, são necessárias 171 assinaturas de apoio na Câmara e 27 no Senado. Caso isso não ocorra, a CPI termina em 13 de abril. A renovação por 180 dias estenderia os trabalhos de apuração até outubro, mês de eleições.

O prazo maior é considerado essencial porque a CPI começou a receber somente agora informações das empresas de tecnologia. O deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) disse que obteve do Facebook a quebra do sigilo de 70 contas e perfis em redes suspeitos de serem usados para destruir reputações de adversários do governo. O documento identifica IPs e e-mails associados às contas, entre outros dados. “Imagine quantos computadores já não foram jogados fora e assessores, demitidos”, disse Frota.

Boicote

O que há em comum entre as redes de varejo Centauro, Havan e Riachuelo, as academias Bio Ritmo e Smart Fit e as cadeias de restaurantes Coco Bambu e Madero?

Todas essas empresas, assim como outras tantas (veja a lista no final do texto), têm como controladores ou sócios empresários que apoiam o presidente Jair Bolsonaro. Vários deles estão bastante engajados na convocação para as manifestações de 15 de março. A maioria pertence ao grupo Brasil 200, plataforma constituída por empresários e profissionais liberais que apoiaram Bolsonaro na eleição presidencial.

Alguns se tornaram influencers e colecionam seguidores na maior e mais poderosa mídia dos tempos atuais, que é aquela formada pelas redes sociais. Uns se tornaram até próximos da família Bolsonaro, que tende a ser fechada a recém-chegados.

Mas nem tudo são flores para quem se acercou do poder. As mesmas mídias sociais que deram visibilidade ao ex-deputado autodenominado “mito” e ao seu ideário de extrema-direita são usadas agora por consumidores que resolveram aderir ao boicote. A empresa Smart Fit foi uma das primeiras vítimas.

Sócio das academias Smart Fit e Bio Ritmo e um dos líderes do Brasil 200, o empresário paulista Edgard Corona paga o preço de ter compartilhado no WhatsApp vídeos de ataques ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Conforme revelou a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Corona, além de compartilhar, defendeu o impulsionamento dos vídeos.

Embora seja o maior responsável pela aprovação da reforma da Previdência e de outras pautas importantes para o governo, Maia é alvo constante da desconfiança dos bolsonaristas, talvez por ter se transformado no principal contrapeso às vociferações da família Bolsonaro contra princípios democráticos, jornalistas , ambientalistas , indígenas , juristas , para ficar apenas em alguns exemplos.

Como publicou o jornal inglês The Guardian, primeiro veículo jornalístico a noticiar o boicote, a coisa começou em um grupo fechado do Facebook, com 320 mil membros, voltado para a população LGBT. “Estou tentando combater um sentimento de impotência”, explicou ao jornal o autor da iniciativa, o professor de Jornalismo Edwin Carvalho. “Sou professor universitário, jornalista e gay. Sou tudo que Bolsonaro mais detesta no mundo”.

Perdendo clientes em razão do posicionamento político do seu fundador, a Smart Fit enviou ao jornal britânico mensagem na qual ressaltou que é favorável à causa LGBT+, não apoia políticos nem partidos e sua “missão é possibilitar o acesso democrático ao fitness de alto padrão”.

Quem também começou a colher críticas foi o paranaense Junior Durski. Dono da rede Madero, gravou um vídeo declarando apoio aos atos do dia 15: “Estou 100% com o presidente Jair Bolsonaro, em quem eu tenho muito orgulho de ter votado, de ter trabalhado na campanha, de ter ido para a rua todas as vezes em que tivemos que ir e que vamos de novo para as ruas neste 15 de março”. Veja o vídeo.

Resultado: no último dia 6, a hashtag #MaderoNuncaMais tornou-se um dos temas mais comentados do Twitter brasileiro. Mobilizações semelhantes têm sido feitas contra outras empresas cujos proprietários continuam a apoiar Bolsonaro, sobretudo aqueles engajados na organização das manifestações de 15 de março. Os atos e o envolvimento de membros do governo em sua preparação geraram grave crise política ainda durante o Carnaval, em razão da percepção geral de que o Palácio do Planalto incentiva uma articulação divulgada por ativistas que fazem defesa declarada do fechamento do Congresso Nacional e do STF e da volta da ditadura militar. Quase todas as forças políticas e até o habitualmente discreto ministro Celso de Mello condenaram o comportamento de Jair Bolsonaro. Apesar disso, no sábado (7), ele preferiu tornar público o apoio ao ato, também conhecido como “Dia do Foda-se”, que até então ele negava apoiar, alegando que a manifestação é a favor do governo, não contra o Parlamento e a democracia.

Boicotar empresas por razões políticas, disse o advogado Antônio Rodrigo Machado, é algo inteiramente de acordo com a legislação em vigor. “Todo o consumidor tem o direito de expressar sua opinião, assim como todas as empresas também podem, desde que fora do período eleitoral. São movimentações democráticas lícitas”.

Veja quais são as empresas ligadas a Bolsonaro

Ampla Projetos (consultoria financeira)

Bemisa (mineração)

Beauty’in (beleza)

Bio Ritmo (academia de ginástica)

Cae Fisio (fisioterapia)

Centauro (artigos esportivos)

Coco Bambu (restaurante)

FKO Empreendimentos (setor imobiliário)

Galápagos (setor financeiro)

Gazeta do Povo (mídia)

Gocil (segurança)

Havan (comércio de varejo)

Madero (restaurante)

Madetec (móveis)

Mauá Investimentos (setor financeiro)

Polishop (varejo, mídia e e-commerce)

Riachuelo (comércio de varejo)

Smart Fit (academia de ginástica)


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