Semana On

Terça-Feira 31.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Poder

Bolsonaro ainda considera coronavírus fantasia agora que bateu à sua porta?

Secretário que foi aos EUA com o presidente testa positivo para coronavírus e mais três da comitiva têm sintomas

Postado em 13 de Março de 2020 - Rafael Moro Martins, Leandro Demori, Rafael Neves (The Intercept Brasil), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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O secretário de Comunicação do governo federal, Fábio Wajngarten, tem Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Outras três pessoas da comitiva de Jair Bolsonaro que visitou Donald Trump na Flórida já apresentavam sintomas da infecção nos EUA.

O evento em Mar-a-Lago reuniu Bolsonaro, o presidente americano, o chanceler Ernesto Araújo, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Os quatro brasileiros com suspeita de coronavírus não fizeram o teste em Miami. Em vez disso, optaram por retornar ao Brasil para fazer o teste em São Paulo, mesmo infringindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Foi o mesmo procedimento seguido por Wajngarten. A mulher dele, a publicitária Sophie Wajngarten, confirmou a infecção do marido num grupo de WhatsApp da escola dos filhos do casal. Recebemos o print da conversa de uma fonte que pediu para não ser identificada. Não publicaremos a imagem para preservar a fonte.

Segundo Sophie, Wajngarten “está tomando todos os cuidados em casa”, em São Paulo, e “foi isolado num quarto seguindo todo protocolo de quarentena”.

Wajngarten acompanhou Jair Bolsonaro ao estado de Flórida, onde o presidente se reuniu com Donald Trump no resort particular do republicano, em Mar-A-Lago. A comitiva presidencial retornou ao Brasil ontem, em voo que partiu de Miami.

A agenda do presidente brasileiro de extrema direita para hoje foi cancelada, assim como a de Wajngarten. No dia 11, o secretário fez troça no Twitter sobre o risco de ter contraído Covid-19 nos EUA.

O presidente, que tem 64 anos e passou por cirurgias nos últimos meses decorrentes do ataque a faca que sofreu, está sendo monitorado pelo serviço médico do Palácio do Planalto.

O Planalto confirmou que Wajngarten contraiu a doença. “O serviço médico da presidência da República adotou e está adotando todas as medidas preventivas necessárias para preservar a saúde do presidente e de toda comitiva presidencial que o acompanhou em recente viagem oficial aos Estados Unidos, bem como dos servidores do Palácio do Planalto”, comentou a assessoria, em nota.

A mulher do presidente, Michelle Bolsonaro, e outros ministros do governo também estiveram nos EUA – Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Marcos Pontes (Ciência, Tecnologia e Comunicações). Como todos tiveram contato com Wajngarten, devem ficar em quarentena de 14 dias para evitar a propagação do vírus, recomenda a OMS.

Fábio Wajngarten é pivô de um dos escândalos do governo Bolsonaro, revelado pela Folha de S.Paulo. Ele é dono de uma empresa que tem contratos com emissoras de televisão alinhadas a Bolsonaro e passaram a receber mais dinheiro da Secretaria de Comunicação, chefiada por ele mesmo. Apesar da suspeita, foi absolvido pelo conselho de ética da presidência da República e mantido no cargo por Bolsonaro.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, que antes de assumir o cargo chegou a dizer que integrantes do governo alvos de “denúncias consistentes” de corrupção deveriam ser afastados, tem se esquivado de perguntas sobre o caso Wajngarten desde que ele veio à tona.

Coronavírus receita quarentena à língua presidencial

A língua do presidente, como se sabe, possui vida própria. Fala aos borbotões. Num encontro com empresários americanos, disse que o coronavírus "não é isso tudo que a grande mídia propaga." Chamou de "fantasia" a doença que virou pandemia e dobrou os joelhos da economia mundial.

Com esses comentários, a língua empurrou o presidente para algum lugar situado entre a irresponsabilidade e a alienação. Em qualquer das duas hipóteses, Bolsonaro estará longe da Presidência séria e prudente que os mais de 57 milhões de brasileiros que votaram nele esperavam.

Sem que a língua suspeitasse, Bolsonaro perambulou com o vírus a tiracolo, tomou café com o vírus em saleta reservada, levou o vírus ao jantar oferecido por Trump... Os médicos do Planalto já submeteram o presidente ao teste do coronavírus. Nesta sexta (13), o próprio presidente anunciou que não contraiu a doença. Ainda assim, a língua precisa ser colocada imediatamente em quarentena.

Ainda não se descobriu uma vacina contra a patologia da verborragia presidencial. Mas convém monitorar a língua. Mal comparando, ela vem atuando como uma espécie de Id que mexe diariamente no Ego de Bolsonaro com a varinha da irresponsabilidade psicanalítica, trazendo à tona o lodo que deveria ficar no fundo da inconsciência.

Análise

Bolsonaro demonstra não ter condições de conduzir o país através da pandemia de coronavírus, que deve atingir seu pico por aqui nas próximas semanas. Pelo contrário, por conta de suas declarações despreparadas, ele atrapalha os esforços de enfrentamento da doença pelos serviços de saúde. Uma autoridade pública tem o dever de não estimular o pânico, mas também o de evitar o descaso - trilha equilibrada percorrida pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas não pelo presidente.

Bolsonaro menosprezou a pandemia, chamando a crise de "fantasia", ao tratar do tema no último dia 9. Afirmou que a Covid-19 não "é isso tudo que a grande mídia propaga", transformando uma situação de emergência global em uma batalha de sua guerra cultural. E, ao invés de passar recomendações à população, preferiu dizer que "outras gripes mataram mais do que esta".

Três dias depois, Fábio Wajngarten testou positivo para a doença.

Existe um local de racionalidade em crises de saúde pública que deve ser ocupado por autoridades - local distante da histeria do "vamos todos morrer!", mas também longe da irresponsabilidade do "isso não é nada, apenas fake news!" Bolsonaro chama o vírus de "superdimensionado". Não, "superdimensionado" é sua avaliação da estrutura que temos para enfrentá-lo.

O vírus é muito menos mortal do que o medo da população faz parecer crer, mas a pandemia vai lotar hospitais e postos de saúde, reduzindo a capacidade de atendimento aos casos mais graves da própria doença e a outras enfermidades. Vale lembrar que 95% dos leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Sistema Único de Saúde estão ocupados e que precisaríamos de mais para enfrentar o Covid-19. Até porque, sem isolamento adequado, hospitais tornam-se vetores de difusão da doença.

Por isso, ações de gestores de saúde têm ido no sentido de retardar a contaminação em massa de forma que o problema impacte a estrutura "em prestações", uma vez que não contamos com leitos e recursos humanos o suficiente. Até porque não somos a China para erguer um hospital em dez dias.

Mas apesar do gigante asiático ter registrado 3,4% de letalidade (mortos diante de infectados) para o coronavírus e a Itália também ostentar altas taxas, as estatísticas de outros países, como a Coreia do Sul, que estão acompanhando de perto a saúde dos pacientes que contraem a doença e não apresentam sintomas, mostram que esse número pode ser de 0,6% ou menor. Para efeito de comparação, a Sars fica em 9,6%, dengue hemorrágica e sarampo, em 2,5%, e a gripe comum, 0,1%. O que não significa que a doença não seja muito grave e tenha matado mais de 4 mil ao redor do mundo, infectando mais de 125 mil, principalmente quem tem mais de 60 anos.

Além de idosos e indivíduos com doenças pulmonares, quem tem que redobrar o cuidado por conta da taxa bem maior de letalidade são cardiopatas, hipertensos e diabéticos. Como preencho essa tríplice coroa, sei que estou em um grupo de risco aumentado e, portanto, tomo cuidado extra todos os anos com a gripe comum.

Cuidados básicos, que deveriam ser adotados por todos sempre, precisam estar no centro das atenções agora. Mas o presidente prefere usar seus potentes canais de comunicação nas redes para atacar aqueles que fazem esse serviço de informação pública, como Drauzio Varella.

Deve ser desesperador para o ministro da Saúde, que tem feito a lição de casa, ver o seu chefe agindo de forma destrambelhada e jocosa. Na quarta (11), em audiência com congressistas para pedir a liberação de R$ 5 bilhões a fim de preparar o país para o vírus, Mandetta afirmou que "nós ainda estamos achando graça, fazemos piadas, dizemos que isso não é conosco". Alertou que é conosco sim e o problema está em nossa antessala.

Não se sabe se as listas de WhatsApp que o presidente usa para se informar reproduziram a fala do ministro, mas seria bom Bolsonaro ter contato com a realidade periodicamente. Pelo menos, para ficar em silêncio.

O ministro afirmou que, ao contrário do que fez o governo do Distrito Federal, o melhor, por enquanto, não é interromper as aulas e mandar os estudantes para casa. A doença praticamente não causa sintomas nas crianças, mas, quando contaminadas, elas se tornam vetores de transmissão. Fora da escola, muitas ficarão sendo cuidados pelos avós, podendo passar a eles o coronavírus.

Isso é diferente de grandes eventos. Quanto menos aglomerações neste momento, melhor, para não acelerar o curso da doença e lotar hospitais. Mesmo assim, o presidente da República demorou a conclamou seus seguidores a suspenderem as manifestações contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal no próximo domingo (15).

Parte de seus fãs, aliás, afirma nas redes sociais que o Covid-19 faz parte de uma conspiração globalista contra o capitalismo. Alguns chegam a dizer que a doença não existe e é apenas gripe comum. Até Donald Trump abandonou o negacionismo, pois percebeu que isso poderá afetá-lo nas eleições presidenciais de novembro.

O mais irônico é que o presidente cancelou uma viagem a Mossoró por conta da avaliação de seus assessores de que é necessário evitar exposição com risco de contaminação do coronavírus. "Infelizmente tivemos que adiar este nosso encontro em função de razões de segurança sanitária. A decretação ontem pela OMS de uma pandemia mundial nos obriga a ter uma maior segurança com a figura do presidente da República", afirmou o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.

Ou seja, quando é a saúde do povaréu que está em jogo, coronavírus é "fantasia". Quando é a do presidente da República, é questão de "segurança".


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