Semana On

Terça-Feira 31.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Brasil

Amazônia pode entrar em colapso em 50 anos, diz estudo

Brigadistas enfrentam florestas em chamas

Postado em 12 de Março de 2020 - DW, Vice Brasil - Edição Semana On

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É possível que a Amazônia e outros grandes ecossistemas do mundo entrem em colapso mais rápido do que os cientistas previram anteriormente. A Floresta Amazônica está se aproximando de um ponto sem retorno, que, se ultrapassado, pode transformá-la numa savana dentro de 50 anos, aponta um estudo divulgado no último dia 10.

Outro grande ecossistema, os recifes de corais do Caribe, pode vir a desaparecer em apenas 15 anos se passar de seu próprio ponto sem retorno, ou seja, se sofrer mudanças irreversíveis, alertaram cientistas na revista científica Nature Communications.

O colapso desses ecossistemas teria graves consequências para a humanidade e outras espécies. Tanto para a Amazônia quanto para os corais, a projeção para o ponto sem retorno foi feita com base no aquecimento global e em danos ao meio ambiente – desmatamento, no caso da floresta, e poluição e acidificação, no caso dos corais.

"As mensagens aqui são duras. Precisamos nos preparar para mudanças dos ecossistemas do nosso planeta que são mais rápidas do que previmos anteriormente", afirmou um dos autores do estudo, John Dearing, professor da Universidade de Southampton, no Reino Unido.

Para outro dos autores, Simon Willcock, professor da Escola de Ciências Naturais da Universidade Bangor, também no Reino Unido, incêndios de grandes proporções recentes na Amazônia e na Austrália – que seriam mais prováveis de ocorrer devido às mudanças climáticas – sugerem que muitos ecossistemas estão "à beira do precipício".

Segundo os cientistas, o ecossistema amazônico poderia ultrapassar o ponto sem volta já a partir de 2021. A equipe de pesquisadores conclui que, enquanto grandes ecossistemas levam mais tempo para chegar ao chamado ponto sem retorno, uma vez que ele é alcançado, o ritmo em que a degradação ocorre é significativamente mais rápido do que o verificado em ecossistemas menores.

Os pesquisadores atribuem isso ao fato de ecossistemas maiores serem compostos por mais subsistemas de espécies e habitats. Esse conjunto inicialmente fornece resiliência, mas uma vez passado certo limite, faz se acelere o ritmo em que os ecossistemas se degradam. Isso significaria que ecossistemas que existem há milhares de anos podem entrar em colapso em menos de 50.

Um total de 42 ecossistemas de vários tamanhos foi analisado no estudo – quatro terrestres, 25 marinhos e 13 de água doce. Apesar de uma série de cientistas não envolvidos na pesquisa endossar sua metodologia e reforçar a urgência de proteger ecossistemas mundo afora, alguns questionaram se as conclusões podem ser aplicadas à Amazônia.

Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, disse que o estudo foi prejudicado pelo fato de os autores incluírem apenas quatro ecossistemas terrestres, nenhum deles uma floresta tropical.

"É muito improvável, se não até distópico, esperar que uma área com metade do tamanho da Europa passe por uma mudança completa de vegetação em apenas 50 anos", disse Berenguer. "Não há dúvida de que a Amazônia está muito ameaçada e que um ponto sem retorno é provável, mas alegações infladas como esta não ajudam nem a ciência nem a política."

Alexandre Antonelli, diretor científico do Royal Botanic Gardens (Kew Gardens) de Londres, classificou como assustadoras as conclusões do estudo: "A menos que se adotem ações urgentes, podemos estar prestes a perder a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, que evoluiu ao longo de pelo menos 58 milhões de anos e sustenta a vida de dezenas de milhares de seres humanos."

"Estas descobertas são mais um alerta para conter os danos impostos aos nossos ambientes naturais, e que empurram os ecossistemas a os seus limites", conclui Dearing.

Os brigadistas que enfrentam florestas em chamas

Esmeraldo Alves Sena Júnior está sempre pensando em fogo. Durante a temporada de seca no Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia, de setembro a dezembro, ele acorda todo dia e automaticamente olha para o céu. Se vê fumaça, ele pula da cama e prepara uma mochila com o essencial – água e comida para alguns dias, roupas básicas resistentes ao fogo, grandes pás e bombas. Aí ele manda uma mensagem no WhatsApp, avisando os outros que ele vai sair naquela tarde. Geralmente, ele é acompanhado por quatro ou cinco pessoas, muitas vezes viajando a pé para áreas inacessíveis de carro, para combater os “dragões flamejantes”.

Sena, 37 anos, é guia turístico de dia e brigadista, um bombeiro voluntário que trava uma guerra contra as queimadas no parque, à noite. Ele, com ajuda de outros homens e mulheres, aprendeu a combater as queimadas na região e em terrenos que ele conhece intimamente, colocando a vida em risco sem receber nenhum dinheiro, com pouco reconhecimento e ainda menos apoio do governo.

Muitos turistas insistem em tirar fotos nas paisagens primitivas, disse Sena, mas eles não entendem o que acontece nos bastidores, ou o que é preciso para preservar a natureza ali.

Nas temporadas de seca, os brigadistas podem combater queimadas por quatro ou cinco dias seguidos, voltando pra casa para descansar alguns dias antes de fazer outro turno. Mas nos anos de seca recorde, como 2008, 2009 e 2015, eles podem combater o fogo por semanas e até meses, deixando seu trabalho pago de lado.

Sena, ou Mel, como ele é conhecido localmente, é presidente da Brigada Voluntária de Lençóis, uma associação de bombeiros voluntários na cidade, fundada pelo pai dele 27 anos atrás. Com uma população de 11.445 pessoas, todo mundo na antiga cidade de mineração de diamante se conhece.

Apesar das queimadas não terem sido tão ruins nos últimos anos devido a mais chuvas durante o ano, se não fosse pelo tempo, energia e recursos dos brigadistas o ano todo para preservar e proteger o parque, ele já teria queimado totalmente, disse Sena.

Em setembro de 2015, as queimadas no parque se estenderam por cerca de três semanas até o governo estadual intervir, consumindo áreas grandes e eventualmente afetando metade do parque. Nas semanas e meses que se seguiram, os brigadistas passaram longas horas em trilhas difíceis, carregando equipamento e usando roupas antifogo (muito disso doado ou fornecido por programas do governo local), passando sem comida por horas e às vezes até sem água, para evitar que o fogo consumisse tudo que eles conhecem e dependem para viver.

Quando o governo finalmente respondeu, eles mandaram um helicóptero para jogar água e mandar e buscar bombeiros de Salvador, a cidade grande mais próxima. Mas os brigadistas geralmente chegam até as queimadas a pé, disse Sena.

“Conhecemos as trilhas. Somos mais resistentes”, ele disse. “Se alguém vai até lá sozinho, você sabe que a pessoa é boa.”

Muitos dos pais dos brigadistas trabalhavam nas minas de ouro e diamante na Chapada Diamantina, incluindo o pai de Sena. Apesar de a Chapada ter se tornado protegida como parque nacional em 1985, o lugar era muito desmatado e minerado até a época e ainda está se recuperando.

Os pais de Sena se mudaram para Lençóis procurando trabalho, e seu pai se tornou garimpeiro, enquanto a mãe trabalhava com agricultura. Sena disse que o pai passava mais tempo na mata que na cidade, até fazendo o parto de um de seus cinco filhos em uma das trilhas mais famosas. Todos os cinco filhos são guias turísticos e brigadistas.

“Ele me ensinou como cuidar do meio ambiente, um trabalho que não acaba”, Sena me disse em seu escritório humilde em Lençóis. “A Chapada já sofreu demais, por causa da mineração de ouro e diamante. O parque todo foi explorado… e aí tem o impacto das queimadas.”

Sena diz que o trabalho dos brigadistas é “transformar água em vinho”, transformar a cultura de destruição da era dos pais em uma de preservação para seus filhos (ele tem três filhas) e para as próximas gerações.

Numa vida inteira como guia turístico, e mais tarde como brigadista, Sena já viu pessoas, principalmente turistas, se ferirem gravemente, e até morrerem ali. “Quando você está na mata, com queimadas ou não, tem cobras por todo lado. Tem uma chance alta de alguém se machucar; muitas coisas podem dar errado”, ele disse.

Sena disse que ainda não houve nenhuma fatalidade entre os brigadistas, apesar de admitir que não sabe se há efeitos de longo prazo por inalar fumaça.

Apesar dos riscos, Sena não pretende se aposentar tão cedo. “Nasci aqui. Cresci aqui, vou morrer aqui”, ele disse.

Cortando a cabeça do dragão

Açony Santos cresceu em Lençóis também, mas ficou fora por vários anos para estudar design gráfico em São Paulo. Ele também é fotógrafo – muitas das fotos incríveis desta matéria são dele.

Santos voltou em 2015, quando as queimadas foram particularmente ruins. “2015 foi um ano memorável pra nós, porque levou muito tempo para o governo responder”, disse Santos.

Aquele também foi o ano em que os brigadistas aprenderam como “cortar a cabeça do dragão”, disse Sena.

As queimadas na Chapada correm num triângulo. Se consegue controlar uma ponta do triângulo, você pode dispersar os grupos e lidar com uma linha de cada vez, explicou Sena. Essa é uma técnica que eles aprenderam com a experiência.

Se e quando os bombeiros são trazidos de Salvador ou outra cidade grande próxima, eles geralmente não conhecem bem o terreno. Eles dependem dos brigadistas para mostrar para onde ir, como lidar com cobras venenosas e como trabalhar com o tipo de queimada que começa numa montanha alta, uma mata densa ou no terreno difícil do cerrado.

Os bombeiros também não sabem muito sobre uma qualidade especial dos brigadistas: combate noturno.

“Aqui, combatemos o fogo à noite”, disse Santos. “À noite, você tem uma chance melhor de controlar o fogo porque a temperatura é mais baixa.”

Os brigadistas da Chapada se tornaram especialmente conhecidos alguns meses atrás, quando foram chamados para ajudar a controlar as queimadas na Amazônia, ensinar militares e agências do governo suas técnicas de combates a incêndio duramente desenvolvidas – e até apagaram 10 quilômetros de queimada em uma noite, um brigadista me contou.

Os brigadistas dizem que não poderiam fazer seu trabalho sem o apoio da comunidade. Quando as queimadas são realmente ruins, toda a comunidade de Lençóis se mobiliza para ajudar, e as pessoas doam frutas, vegetais e outros itens para os brigadistas.

Marta Érica Oliveira Ferrera é conhecida como uma “guerreira” no coração da operação comunitária. “Ela trabalha 24 horas quando há queimadas”, disse Santos. “Ela cozinha, traz a comida, faz trabalho de administração, e organiza reuniões e grupos.”

Quando não está ajudando os brigadistas, ela comanda seu restaurante Feijão da Chapa, e acabou de começar um projeto voluntário para conseguir ração e lares para dezenas de cães de rua.

“Eu sempre defendo a vida”, disse Ferrera, quando passei no restaurante dela, que só abre aos domingos.

Ela cresceu numa família que colocava muita ênfase em cuidar dos outros. “Aprendi que não podemos esperar outra pessoa para fazer a mudança. Temos uma obrigação pessoal de ajudar”, ela disse.

Nem sempre é fácil, ela admite – especialmente sendo mulher. “Mas com nossa força, coragem e determinação, as coisas estão dando certo para nós. Estamos ganhando mais respeito”, ela disse.

“Tenho o maior respeito pela Marta”, disse Sena. “Não conseguiríamos fazer o que fazemos sem ela, e muitas outras mulheres.”

Ano passado, a Amazônia queimou por semanas e gerou preocupações internacionais. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do meio ambiente Ricardo Sales tentaram minimizar o papel das mudanças climáticas causadas pelo homem e desmatamento, e acabaram demitindo o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), criticando a precisão dos dados do instituto que enfatizavam o aumento dramático do desmatamento que levou a queimadas sem precedentes na Amazônia.

No clima político atual, os brigadistas estão conformados. “O Brasil é um banco de recursos naturais, e hoje temos um governo que quer vender tudo”, disse Santos. “Os incêndios na Amazônia foram principalmente criminosos, e o governo não estava indo atrás das pessoas que os começaram, porque as queimadas foram usadas para plantar soja e expandir o agronegócio.”

Açony e Sena apontaram os cortes no financiamento de preservação ambiental desde que Bolsonaro se tornou presidente. Ele também vem sendo muito criticado por comentários sobre “integrar” comunidades indígenas com o resto da população, e recentemente colocar um ex-missionário evangélico no comando do trabalho com tribos isoladas.

Sena gostaria de ver mais apoio econômico para os brigadistas da Chapada Diamantina. Enquanto Sena e Ferrera dizem que os brigadistas têm uma boa relação com a prefeitura de Lençóis, eles precisam de apoio de todos os níveis do governo. (Oficiais de lençóis não responderam nossos pedidos de entrevista.) Todo mundo na cidade tem seu próprio grupo, sua própria linha de frente e sua própria história. Com mais apoio, eles poderiam investir mais tempo e energia na preservação, disse Santos, usando um sistema mais forte de comunicação, como rádios e drones, para vigiar as montanhas onde não há sinal de celular.

“Bolsonaro é um lobo em pele de cordeiro”, disse Sena. “O governo faz promessas, mas estamos acostumados com eles não aparecerem. Não esperamos o governo; só fazemos nosso trabalho”, ele disse.

Mas por quê? Por que lutar tanto por tanto tempo, respirando fumaça e colocando a vida em risco sem receber nada?

Dançar com o dragão é um jogo, disse Sena. O fogo traz à tona tudo de você – momentos de raiva, medo, companheirismo e uma alegria inexplicável.

“Faço isso porque amo essa terra”, disse Sena. “Amo morar num lugar limpo, verde e preservado, como qualquer um gosta. É fácil destruir; é rápido. Vemos isso com as queimadas.”

Ele não se importa em não ser pago. O pagamento dele é poder tomar banho numa piscina natural preservada num dia quente, ele disse. E ele quer que suas filhas conheçam o prazer, liberdade e poder dessa terra.

Nem todo mundo entende essa conexão, ele disse. Nem todo mundo “ouviu a voz da cachoeira”, mas alguns entendem.

Às vezes, quando os bombeiros, que estão acostumados a trabalhar em horário comercial, vêm conhecer os brigadistas, há um choque de cultura. Às vezes é difícil, admite Sena, ver as pessoas chegarem e fazerem um trabalho pelo qual são pagas, e ir embora sem entender ou experimentar a pressão imensa sentida pelos brigadistas que estão tão conectados com a terra.

Mas alguns entendem, disse Sena.

“Respeitamos alguns deles, porque eles conseguem sentir. Eles veem a terra e veem a fumaça, eles veem a devastação, ou veem a beleza de tudo isso, e eles choram”, ele disse. “Eu digo a eles ‘É foda, cara. É foda’ E eles choram pela terra.”


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