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Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Comportamento

Por que o orgasmo feminino ainda é considerado misterioso e complexo?

Somente 65% das mulheres chegam ao clímax durante a relação sexual, e não porque ter prazer é mais difícil para elas — a questão é mais social do que biológica

Postado em 10 de Março de 2020 - Marília Marasciulo – Galileu

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Do ponto de vista fisiológico, o orgasmo feminino não é algo complexo, misterioso e muito menos difícil de compreender. Pelo contrário, é algo bastante direto: quando diante de um estímulo sexual, o cérebro libera hormônios e neurotransmissores que sinalizam para o restante do corpo que ele deve se excitar. Em preparação para um possível ato sexual, a região genital produz lubrificação, a vascularização aumenta (permitindo maior sensibilidade) e fica levemente mais inchada. Se receber a estimulação correta, proporcionará a sensação de prazer máximo conhecida como orgasmo — contração muscular involuntária, relaxamento, queda da pressão arterial e até redução temporária das atividades do córtex cerebral.

Apesar disso, uma das pesquisas mais conhecidas sobre o tema, feita em 1999, revelou que 43% das mulheres nos Estados Unidos têm algum problema com a própria sexualidade. Outra, de 2017, mostrou que somente 65% das mulheres heterossexuais chegam ao clímax durante uma relação sexual. Para 85% dos homens, porém, suas parceiras costumam ter um orgasmo. Essa discrepância ajuda a compreender por que ainda hoje o prazer feminino é considerado pela maioria das pessoas um bicho de sete cabeças.

“Essa insatisfação das mulheres emerge em um panorama de falta de informação científica sólida”, diz Katherine Rowland, autora do livro The Pleasure Gap: American Women and the Unfinished Sexual Revolution (A Lacuna do Prazer: Mulheres Americanas e a Revolução Sexual Não Finalizada, em tradução livre, ainda sem edição no Brasil) lançado em fevereiro de 2020. “Uma das maiores ironias é que, mesmo que o prazer feminino esteja mais visível do que nunca e discutamos mais sobre a importância e a normalidade do orgasmo, nós não temos uma educação sexual compreensiva.”

E aí é que está o problema: sem uma educação sexual sólida, não há como ter um orgasmo. “Pense no seguinte: você não convidaria alguém para visitar sua casa se acha que ela não está em ordem, certo?”, compara a ginecologista Bárbara Murayama, diretora da Clínica Gergin Ginecologia, em São Paulo. “Por que você convidaria alguém para o seu corpo se não estiver bem com ele mesmo? A outra pessoa deve vir para ampliar o prazer e o bem-estar, não para resolver possíveis problemas ou traumas.” Na verdade, o risco de frustrações ou novos traumas nesses casos é grande.

O X da questão

Embora seja simples do ponto de vista fisiológico, o orgasmo feminino depende de variáveis que vão além do simples estímulo sexual mecânico. Não há como prever por A mais B que tocar em determinado ponto, usar o perfume x ou experimentar a posição y vá levar uma mulher ao clímax. “A sexualidade feminina não é linear, há muitas coisas envolvidas”, explica Murayama. “Temos muitas terminações nervosas ao redor do clitóris e do ponto G, se ficar mecanicamente estimulando, pode ser que role [o orgasmo], mas não sei o quão efetivo vai ser esse combo. O que nós queremos é oferecer mais qualidade de vida sexual para as mulheres, certo?”

Talvez de uns anos para cá a resposta para essa pergunta esteja se consolidando em um sim, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. “Não existe mulher bem resolvida com a própria sexualidade, porque a gente é oprimida, isso é regra”, diz Mariana Stock, fundadora da Prazerela, espaço em São Paulo dedicado a ajudar mulheres a descobrirem o próprio prazer.

Historicamente, as mulheres foram acostumadas desde cedo a acreditar que o desejo sexual é algo ruim ou perigoso. “Somos encorajadas a estar sexualmente disponíveis para satisfazer nossos parceiros, mas sem ter nenhum interesse ou desejo sexual próprio”, diz Rowland, que entrevistou 120 mulheres e conversou com dezenas de especialistas sobre o tema em sua pesquisa para o livro.

É o que o vídeo Be a Lady, They Said (Seja Uma Dama, Eles Disseram, em tradução livre), que viralizou no fim de fevereiro, mostra: o poema de Camille Rainville escancara as pressões e os estigmas vividos por uma mulher no dia a dia — “não mostre os ombros, se cubra, deixe algo para a imaginação, vista-se modestamente, não seja uma tentadora, homens não conseguem se controlar, homens têm necessidades, você está meio desleixada, relaxa, mostra um pouco de corpo, fique sexy, pareça gostosa…”. Enquanto isso, os homens são constantemente estimulados a pensar em sexo. “A sociedade contribui para a sexualidade masculina [heterossexual], veja a quantidade de propagandas que mostram mulheres seminuas, mas o mesmo não ocorre para a feminina”, diz Murayama.

“Se as mulheres socialmente são mais recatadas em sua própria sexualidade, mais reprimidas e menos interessadas sexualmente, você não pode atribuir isso à biologia”, afirma Rowland. “Você tem que olhar para o contexto social e cultural nos quais ocorrem a sexualidade e a expressão sexual.”

Sabedoria da natureza

Esse contexto ainda é o de muito preconceito e desinformação. “Nós continuamos com uma ideologia conservadora que influencia a educação e as políticas sociais, tratando o prazer como algo a ser temido. Há essa ideia de que se liberarmos a sexualidade, a sociedade vai entrar em colapso”, continua a autora do livro. Um exemplo gritante, na visão dela, é o de um representante do estado de Michigan que, em 2012, foi barrado da Câmara por ter usado a palavra vagina em um discurso. “Quer dizer, continuamos a estigmatizar não só a sexualidade, mas a anatomia básica.”

Nem a ciência se isenta disso, já que continua a tratar do tema como algo a ser desvendado, reproduzindo estereótipos e reforçando estigmas. Para ter ideia, no último dia 17 de fevereiro, um dos maiores sites de divulgação científica para leigos, o Live Science, publicou um artigo afirmando que as mulheres, ao contrário dos homens, não precisam de orgasmos para a reprodução. Não haveria, portanto, necessidade real para que existissem (adivinhem o sexo dos cientistas que conduziram os estudos?).

A realidade está longe disso, explica Bárbara Murayama. Instintivamente, o sexo serve para procriar, e justamente por isso o organismo cria mecanismos para aumentar as chances de que aquela relação dê frutos: a lubrificação ajuda os espermatozóides a “nadarem” em direção aos óvulos, a vascularização serve para levar mais oxigênio para a área. E, no ápice, o orgasmo, toda a região se movimenta e se contrai para facilitar que os espermatozóides cheguem mais rápido ao seu destino. “A natureza é tão sábia que faz a mulher ter mais prazer quando isso tudo está ativo, levando mais estímulos aos nervos de prazer”, ressalta a ginecologista. “Tanto que a primeira coisa que eu digo para as minhas pacientes que querem engravidar é: tenham orgasmos, aprendam a ter prazer.”

Em busca do prazer

Se, do ponto de vista evolutivo, faria mais sentido ajudar e incentivar as mulheres a terem orgasmos, por que isso ainda não acontece? Para a fundadora do Prazerela, não há um interesse real, especialmente dos homens, neste sentido. Isso porque o prazer mexeria nas bases da sociedade masculinizada, e colocaria em xeque os relacionamentos heterossexuais (estatisticamente, a falta de orgasmos não parece afetar tanto as lésbicas, que chegam ao clímax em 86% das relações). “Se as mulheres se derem conta da [própria] potência orgástica, não aceitariam mais o silenciamento”, diz Stock, citando o psicanalista ucraniano Wilhelm Reich, que desenvolveu teorias sobre a energia vital dos orgasmos.

Embora concorde em parte com Reich, a escritora acredita que o problema é muito mais profundo — e não pode ser resolvido apenas com promessas terapêuticas ou uma simples pílula para aumentar a libido, motivo pelo qual começou a pesquisa em 2014. “Não é só sobre reprodução, mas sobre relacionamentos humanos e conexão”, diz. “Eu honestamente acredito que também subestimamos as necessidades emocionais dos homens e do que eles são capazes sexualmente. Eles podem até ter vantagem na satisfação que conseguem com sua sexualidade, mas certamente não se sentem gratificados.”

O ponto, então, volta à já mencionada educação sexual para o prazer. A própria noção de que o orgasmo é o único indicador de uma relação bem-sucedida, na opinião de Rowland, é equivocada. “É um indicador de que finalmente estamos começando a reconhecer que o prazer feminino importa, mas taxar o orgasmo como o medidor principal da experiência sexual diminui a variedade de sensações disponíveis para as mulheres”, opina.

Seja na busca por sensações prazerosas, seja pelo orgasmo em si, mudar a maneira como tratamos do assunto é fundamental. “Acho que será necessária uma grande mudança de mentalidade para finalmente reconhecermos a integridade da sexualidade feminina e que não existem normas”, diz Rowland. “Acabar com a lacuna do prazer exige reconhecer a importância das mulheres para a humanidade, e elas próprias precisam reconhecer que merecem uma sexualidade em seu poder máximo.”


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