Semana On

Quinta-Feira 09.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Poder

Funcionário de Eduardo Bolsonaro disseminava inverdades de dentro do gabinete

CPMI das Fake News aperta o certo contra o filho do presidente

Postado em 06 de Março de 2020 - Robson Bonin (Veja), RBA, Forum, Congresso em Foco - Edição Semana On

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Líder da tropa de choque que vem investigando, na CPMI das Fake News, o envolvimento do clã presidencial com o chamado gabinete do ódio do Palácio do Planalto, o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) procurou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na quarta (4), para avisar que já tem provas da atuação pessoal de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no esquema. Diz que é questão de tempo chegar ao Planalto.

Segundo o jornalista Robson Bonin (Radar-Veja), Frota conversou com Alcolumbre sobre os avanços da CPI e a importância dos trabalhos da comissão, que terminaria em abril, serem prorrogados. Diante do pedido do deputado, Davi prometeu apoio às investigações e telefonou a Frota para confirmar o que ele havia pedido: a CPI, ao contrário do que a turma de Eduardo Bolsonaro previa, será prorrogada por 90 dias. Os parlamentares terão até junho para avançar sobre o gabinete do ódio e seus rastros.

A CPMI das Fake News investiga o disparo em massa de mentiras e ataques nas campanhas eleitorais em 2018. Nesta semana, o destaque das reuniões foram as revelações – feitas por conta de uma quebra de sigilo fornecida pelo Facebook - sobre uma das páginas mais ativas neste contexto, chamada “Bolsofeios”. Por trás dela está um funcionário do gabinete de Eduardo Bolsonaro.

A página é voltada a promover ataques contra qualquer adversário da ideologia política radical de extrema-direita, liderada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). As informações do Facebook dão conta de que a página foi registrada a partir de um telefone do secretário parlamentar de Eduardo, chamado Eduardo Guimarães.

O número de registro na rede, o endereço IP, do computador utilizado para criar a página foi localizado na Câmara dos Deputados. O e-mail de registro da conta é: “eduardo.gabinetesp@gmail.com”. O endereço eletrônico é registrado oficialmente pela assessoria do filho do presidente na Casa.

Milícias virtuais

“Quem está falando não é o Frota. Não é o Psol, o PT ou o PSL que está perseguindo. Foi um requerimento oficial do deputado Túlio Gadelha (PDT-PE) que mostrou isso. Está comprovado pelo Facebook. Qual vai ser a desculpa? O Eduardo vai ligar para o papai para reclamar com o Facebook?”, arguiu o deputado Eduardo Frota durante a reunião do último dia 4 na CPMI.

O deputado Rui Falcão (PT-SP), muito ativo na Comissão, também comentou sobre o tema. “Se as pessoas acreditam que o Facebook é de esquerda, então, não tenho o que falar. Na minha campanha nada foi pago pelo Luciano Hang, por nenhum empresário desse conjunto que financia ida a Paulista, protesto contra o Congresso.”

No fim do ano passado, outro antigo afeto do bolsonarismo que se voltou contra o esquema, a agora líder dop PSL, Joice Hasselman (PSL-SP), já havia demonstrado o que fora provado agora pelo Facebook. Na ocasião, a deputada fez um extenso relato de como funcionava a propagação de ataques e disseminação de mentiras nas redes sociais. Tudo começa, de acordo com Joice, com a orientação de Eduardo. Então, uma série de grupos replica as informações e faz um processo de lapidação em cima das mentiras, que passam, inclusive, pelos chamados “robôs”, utilizados para atingir o maior público possível.

Joice e Frota descrevem a ação dos bolsonaristas como “milícias virtuais”. Além da máquina pública utilizada para disseminar ódio, empresas também foram contratadas para amplificar os ataques. Entre as empresas, a Yacows, que já teve executivos ouvidos pela CPMI, bem como o ex-funcionário Hans River, que mentiu durante a oitiva e atacou a jornalista Patrícia Campos Mello, uma das primeiras a revelar o esquema bolsonarista de disparos em massa de fake news.

Defesa pífia

O filho do presidente da República ironizou as denúncias e disse que vai dar aumento para o funcionário que criou a página. "Estou pensando o que eu vou fazer, estou pensando o que fazer. Olha, mas... qual infração foi cometida? Mandar esse pessoal catar coquinho. Eu vou dar um aumento para o meu funcionário se isso aí for verdade", disse o deputado em entrevista veiculada no Jornal Nacional, da Rede Globo.

Eduardo Bolsonaro também divulgou um vídeo dizendo que não vai demitir o funcionário. “O e-mail utilizado é pessoal dele. Mas, vamos dar uma olhadinha no tipo de postagem que sai no ‘Bolsofeios’? Porque, a propósito, Bolsofeios é uma espécie de humor conosco, com nossa figura. Então, as postagens ali, em sua esmagadoríssima maioria, são fotos nossas antigas, coisas relacionadas a nossa infância, nossa adolescência”, diz.

O deputado ainda cita o “departamemes do gabinete de Kim Kataguiri”, sobre o líder do MBL, dizendo que todo parlamentar tem hoje um assessor de internet. “Perfil individual de funcionário faz piada COMIGO: sai até no Jornal Nacional como sendo crime (não é)”, afirmou.

Apesar do tom irônico, a acusação que paira sob seu gabinete pode ter implicações judiciais. Halssemann pediu para que a Justiça investigue e puna os envolvidos. "Usar dinheiro público para criar uma máquina de fake news a fim denegrir pessoas e reputações é um ato covarde daqueles que foram eleitos para acabar com isso e hoje repetem atos da esquerda", disse Joice no Instagram. "Que a Justiça investigue e puna esses milicianos digitais", finalizou.

A líder do Psol, Fernanda Melchionna (RS), também acredita que as investigações devem gerar desdobramentos. “A CPMI pode fazer encaminhamento, mandar aos órgãos de Justiça e ao Ministério Público, mas nós podemos também entrar com processo no Conselho de Ética”, declarou ao site.

"Esta fábrica de Fake News, do escritório do ódio, permeia toda a extrema direita no Brasil está ligada à deputados aliados ao presidente Bolsonaro”, disse Melchionna. “É crime produzir e reproduzir fake news, se tem ligação do filho do presidente, deve chegar até o Palácio do Planalto”, concluiu.

Conselho de Ética

Eduardo também está pendurado no Consenlho de Ética. Das 14 representações contra deputados do PSL, a oposição quer investir forte numa só: na acusação de que Eduardo infringiu o decoro parlamentar ao fazer a defesa da volta do AI-5 se a esquerda radicalizar, declaração feita em 31 de outubro de 2019.

O PT irá acrescentar a essa denúncia, protocolada pela Rede, novos fatos, ou outras controversas declarações contra o Congresso Nacional.

O partido irá apresentar um adendo para que Eduardo responda também por ter dito, em tom de pergunta, se o povo choraria se caísse uma bomba de hidrogênio no Congresso. Foi um post que publicou no seu twitter há pouco mais de uma semana.

“Se houver uma bomba H (hidrogênio) no Congresso você realmente acha que o povo choraria?”, foi uma pergunta direcionada à jornalista Vera Magalhães, do “Estado de S. Paulo”, numa reação incomodada pela revelação da profissional de que o presidente Jair Bolsonaro distribuiu no grupo de zap de amigos vídeo convocando para a mobilização contra o Congresso e o STF que será realizada no próximo dia 15.

Nesse adento, os petistas pretendem inserir também o discurso de Eduardo na tribuna, em 18 de fevereiro, quando repetiu o gesto do pai para jornalistas no Alvorada e fez o sinal de “banana” para deputadas da oposição. Ele estava cercada por deputadas do PSL na tribuna.

No Conselho de Ética, Eduardo será defendido pela advogada Karina Kufa, tesoureira do Aliança pelo Brasil.


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