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Terça-Feira 14.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

Cinema, substantivo feminino

A batalha constante por igualdade, oportunidades e condições de trabalho. A batalha sem trégua por respeito e dignidade. A batalha árdua para entregar um filme

Postado em 04 de Março de 2020 - Clayton Sales

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Bebês meninas são criaturas que nascem de rosas. Bebês meninos são seres que brotam de repolhos. Esse antigo conto fantástico europeu inspirou a realização do primeiro filme com estrutura narrativa, cenários, roteiro e personagens da história do cinema. Até então, os equipamentos de filmagem dos primórdios da sétima arte, no final do século XIX, apenas registravam coisas do dia a dia, como o movimento de trens e a saída de trabalhadores de uma fábrica. Façanha importante para a época. Entretanto, coube a uma mulher avançar nessa arte ainda rudimentar.

Nascida na França, Alice Guy Blaché realizou feitos decisivos como produzir e dirigir "A Fada do Repolho" (1896), com a duração de 60 segundos. Trata-se do primeiro filme ficcional narrativo do cinema, uma porteira aberta pelo seu espírito inquieto, possibilitando que a imaginação de cineastas se libertasse, criasse e adaptasse histórias, e construísse essa magia chamada cinema.

Durante duas décadas de carreira, Alice Guy Blaché realizou cerca de mil filmes, entre eles, "As Consequências do Feminismo" (1906) e "Folhas Caindo" (1912). Apesar de produzir obras de cinema mudo, ela também se notabilizou por fazer algumas das primeiras experiências com o cronofone, aparelho que sincroniza imagens do cinematógrafo com o som do gramofone, semeando bases artísticas para o cinema sonoro que se consolidaria anos depois. No entanto, não foi somente atrás das câmeras e experimentando tecnologias que Alice Guy Blaché se destacou. Ela foi administradora de um estúdio, a Solax Company, sendo a primeira executiva da indústria do cinema. A Solax é considerada a mais poderosa empresa do ramo do cinema pré-Hollywood. E foi comandada por uma mulher visionária.

Outra história. Uma esposa vive um casamento sem amor com um homem rico e opressor. Sentindo-se sufocada e violentada psicologicamente, ela toma uma atitude drástica para se libertar do matrimônio tóxico. Todo o desenvolvimento da história é aflitivo, caudaloso e culmina na empatia pela personagem principal. O filme é "A Sorridente Madame Beudet" (1923), impactante obra de outra mulher fundamental na trajetória do cinema: Germaine Dulac.

Nascida na França, começou a se envolver com o socialismo e o feminismo quando trabalhou como jornalista para revistas voltadas aos direitos da mulher. Depois, ela se interessou pela fotografia, o que a levou naturalmente ao cinema. Se as histórias que Alice Guy Blaché abordavam situações do dia a dia, especialmente o lado dourado e divertido dos casamentos, já que escreveu e dirigiu várias comédias e narrativas simples, pensadas para cativar plateias das primeiras salas de cinemas, Germaine Dulac penetrou em questões feministas de seu tempo, como relacionamentos abusivos, empoderamento feminino e liberdade de amar com roteiros complexos e profundos. Como diretora, ela também produziu "A Concha e o Clérigo" (1928), mordaz crítica ao patriarcalismo e à religião a partir das fantasias eróticas de um padre com a esposa de um general.

A cineasta dirigiu cerca de 30 filmes, todos mudos, mas com o advento do cinema falado, Germaine Dulac deixou a carreira de diretora para voltar ao jornalismo, que seguiu até sua morte em 1942. Embora seu legado seja pouco conhecido, o nome de Germaine Dulac é obrigatório quando o assunto é cinema feminista. Seu olhar provocador fixou raízes em gerações de realizadores e realizadoras. 

Mais uma história. O cadáver de uma jovem mulher fantasiada de peça de dominó repousava no armário do hotel em que dois amigos estavam hospedados durante o Carnaval. Com o avanço das investigações sobre o crime, descobre-se um enredo repleto de reviravoltas, chegando à revelação final de que a vítima fora envenenada pelo próprio irmão, que se suicidou. Essa trama policial trágica e sombria tem grande relevância para o desenvolvimento da sétima arte no Brasil. "O Mistério do Dominó Preto" (1930) tem a direção de Cleo de Verberena, a primeira mulher a dirigir um longa-metragem no país.

Nascida em Amparo (SP), seu nome de origem era Jacyra Martins da Silveira e começou a se apaixonar pelo cinema nos anos 1920, quando se mudou para a capital paulista. Além da atuação, Cleo de Verberena se interessou pelos elementos técnicos do cinema. Ela e o então marido fundaram a Épica Studios, que realizou apenas "O Mistério do Dominó Preto", obra infelizmente considerada perdida. A cineasta chegou a iniciar a produção de "Canção do Destino", mas não foi finalizada. Sua marca, todavia, está presente em "Casa de Caboclo", no qual assina o roteiro. Apesar de ter apenas um filme lançado em seu currículo de diretora, Cleo de Verberena clareou a rota para várias mulheres que ajudam a edificar o cinema brasileiro, desde Carmen Santos e Gilda Abreu, até cineastas como Anna Muylaert, Laís Bodansky e Lúcia Murat, além de Petra Costa, indicada ao Oscar de melhor documentário, e Caru Alves de Souza, vencedora da mostra Generation do Festival de Berlim deste ano. 

Brilhando nas grandes telas ou organizando o set de gravações. Compondo temas musicais para ilustrar as cenas ou maquiando, penteando, iluminando, providenciando. Escrevendo roteiros ou manuseando as ilhas, câmeras e programas de edição de imagens. Embrenhando-se em cálculos orçamentários, fechando negócios ou conquistando estatuetas. Impondo-se em uma indústria ainda dominada por homens, a mulher gravita entre numerosas lutas. A batalha constante por igualdade, oportunidades e condições de trabalho. A batalha sem trégua por respeito e dignidade. A batalha árdua para entregar um filme.

Enquanto existirem figuras como Harvey Weinstein, poderoso e influente produtor de Hollywood, agora condenado pela justiça dos Estados Unidos por estupro, será necessário que as mulheres do cinema lutem. Se o movimento Me Too nasceu do corpo feminino da indústria cinematográfica para denunciar homens que insistem em usar o poder nocivo legitimado pela cultura patriarcal e machista ainda vigente, que seu espírito se estenda a todos os segmentos econômicos, políticos, religiosos, familiares, esportivos e sociais.

Para que surjam novas Alices Guy-Blaché, novas Germaine Dulacs e novas Cleos de Verberena transformando suas imaginações em arte audiovisual. Para que as mulheres contem suas histórias. Para que mostrem ao mundo que o cinema também é substantivo feminino. 


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