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Terça-Feira 01.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Ecologia

Do patinete ao veículo voador: qual é o futuro dos transportes?

O futuro da mobilidade promete de veículos voadores a trens de altíssima velocidade. Estimamos quanto tempo e dinheiro você gastará em breve para se locomover

Postado em 03 de Março de 2020 - Jacqueline Lafloufa – Galileu

Ilustrações: Guilherme Henrique - Galileu Ilustrações: Guilherme Henrique - Galileu

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Se no início do século 20 o avião revolucionou ao encurtar distâncias, a novidade dos transportes agora não deve estar simbolizada em uma única invenção. A ideia hoje é flexibilizar e gerar muitas opções. Combinar diversos meios de transporte em uma única viagem — a chamada mobilidade multimodal — já é uma realidade nos grandes centros, onde é possível mesclar patinete, bicicleta, ônibus, metrô e trem para chegar ao destino, conforme o gosto (e o bolso!).

Além de oferecer novas opções de mobilidade, a indústria dos transportes também está de olho na grana: até 2030, os serviços associados à mobilidade urbana devem gerar mais de US$ 1 trilhão em receita, segundo o ABI Research. Não à toa, mobilidade foi um dos temas mais discutidos na edição de 2019 do South by Southwest (SXSW), um dos maiores festivais de inovação do mundo, que acontece em Austin, nos EUA. Mas… o que exatamente vai mudar para os passageiros, como você e eu?

Nos pequenos trechos

Conheci os patinetes elétricos como meio de transporte no início de 2018, em uma viagem para Austin. Ao retornar à cidade para o SXSW 2019, eles estavam por todos os lados. Oferecidos como alternativa de transporte urbano pessoal para pequenos trechos — a tal micromobilidade —, os patinetes operam dentro da lógica dockless, sem ponto específico de partida ou de estacionamento, o que altera a paisagem urbana.

A cada esquina da capital do Texas, os pequenos veículos elétricos são enfileirados como dominós — há ao menos cinco empresas que operam os empréstimos. Acionados por meio de botões no guidão, eles são rápidos, práticos e quase não exigem esforço para o uso, e passaram a agilizar o trânsito ao transformar caminhadas em rápidas corridas sobre duas rodas.

A novidade não demorou para chegar ao Brasil: bicicletas e patinetes dockless já são realidade nas principais capitais brasileiras. Em um país tropical, um transporte que não exige esforço físico — portanto, não causa suor — tornou-se opção atraente para completar trajetos do transporte público, especialmente na capital paulista. “Entre agosto e dezembro de 2018, fizemos mais de 1 milhão de corridas na cidade de São Paulo, somando mais de 5 milhões de quilômetros percorridos por bikes e patinetes”, conta Marcel Bely, gerente de comunicação da empresa Yellow, que opera os dois modais no Brasil.

No entanto, nas situações em que a micromobilidade não dá conta de completar trechos — como nos dias de chuva, em que tendemos a evitar os veículos de duas rodas, ou quando estamos carregando malas — entram em cena os aplicativos de corrida sob demanda, como o Uber ou o 99.

Stella Brant e Pamela Vaiano, diretoras de marketing e relações públicas da 99, explicaram que uma considerável parte das corridas da 99 acontecem entre pontos focais do transporte público (como estações de trem e metrô ou terminais de ônibus) e a residência dos usuários. “Setenta por cento das nossas corridas começam ou terminam na periferia”, destacou Brant.

Em breve

Mas então quer dizer que carros também fazem parte das opções modernas de mobilidade? Sim, não e talvez. O carro com um único passageiro continua muito mal visto, pelo alto custo e pela poluição causada. Há quem aposte em usos mais eficientes pelo compartilhamento, ao facilitar o aluguel do veículo (em serviços como Zipcar nos EUA, Zazcar ou Urbano no Brasil) ou as caronas  (o que é proposto por serviços como Waze Ride, Uber Juntos e BlaBlaCar). Outra estratégia possível seria liberar o assento do motorista, adicionando mais um passageiro ao mesmo trajeto. Fabricantes de automóveis e até mesmo a Google estão de olho nos carros autônomos, que se dirigem sozinhos.

Mas será que colocar carros autônomos nas ruas vai melhorar o trânsito? “Ao não precisar se concentrar na direção, o ‘custo’ de estar em um carro cai”, instigou Malcolm Gladwell, coprodutor do documentário Autonomy, durante um painel no SXSW. Para ele, se pudéssemos ver um filme no engarrafamento, estar no trânsito seria bem menos incômodo. “Esses pequenos incentivos perversos dos carros autônomos podem reduzir a penalidade de dirigir em engarrafamentos”, especulou Gladwell.

Há também no horizonte a chegada dos carros que voam, conhecidos tecnicamente como eVTOLs (veículos elétricos de pouso e decolagem verticais, na sigla em inglês). Mais silenciosos do que helicópteros, eles prometem ser uma inovadora forma de transporte urbano, além de um novo flanco de atuação para a aviação.

Essa potencialidade de acrescentar eVTOLs como alternativa de transporte nas cidades movimenta o mercado, interessando até mesmo à Uber. Em parceria com cinco fabricantes de aeronaves, inclusive a brasileira EmbraerX, a empresa criou em 2016 o Uber Elevate, projeto que promete para 2023 os primeiros voos comerciais com eVTOLs. A mudança no cenário urbano seria tamanha que até mesmo arquitetos e urbanistas foram envolvidos — para pensar conceitos de estações de embarque e desembarque, que têm sido chamadas de skyports.

Com que modais eu vou?

Decidir como circular em grandes centros urbanos já é complicado. A adição de novos modais de transporte — como o patinete, o carro autônomo ou o carro que voa — vai transformar apps agregadores de opções, como funcionam hoje o CityMapper e o Moovit, em ferramentas essenciais para encontrar os caminhos mais rápidos, mais baratos ou mais convenientes, conforme o interesse do passageiro. “Não importa mais ser o líder de bikes, de patinetes ou de carros: é preciso ser o líder da fluidez e do movimento de pessoas”, explica Arthur Igreja, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em tecnologia e inovação.

Para ele, apps capazes de integrar vários modais em uma única tela são uma tendência que pode ser percebida em decisões de negócios como a fusão da Yellow com a Grin, aqui no Brasil, e a aquisição da operadora de patinetes e bikes Jump pela Uber, no exterior. “A ideia é exatamente essa”, corrobora Fabio Sabba, diretor de comunicação da Uber no Brasil. “[Queremos] colocar todas essas soluções dentro de um único aplicativo. No futuro, o usuário colocará seu destino e o app dará um percurso completo.”

Mais rápido que um avião

Mas quando carros que se dirigem sozinhos ou que voam não forem mais novidades, qual será a próxima fronteira do transporte? Se depender da criatividade da ficção científica ou da liderança do visionário Elon Musk, nem mesmo o espaço é o limite.

Instigando o desenvolvimento de alternativas de transporte ainda mais velozes, Musk lançou o desafio de criar um Hyperloop, conceito de transporte em massa de alta velocidade. A proposta é transportar pessoas ou produtos em “cápsulas” parecidas com vagões de trem que circulam por tubos a vácuo. Por meio dessa tecnologia, que evita a resistência do ar ou da fricção, os vagões poderiam circular a uma velocidade de 1.200 km/h, bem mais rápido do que aviões. Para ter uma ideia, uma viagem entre Rio e São Paulo via Hyperloop poderia ser completada em menos de 30 minutos (!).

A tecnologia, no entanto, ainda está sendo aprimorada e testada em competições propostas por Musk, realizadas pela SpaceX. Competidores do mundo todo buscam melhorar não apenas a funcionalidade mas também a segurança e o conforto dos usuários, já que o barulho da viagem e o mal-estar de circular a uma velocidade tão alta ainda são imensos desafios.

Passar de um ponto a outro em meia hora parece ser mesmo uma espécie de obsessão de Musk. Uma das suas visões de futuro é a realização de “viagens espaciais” usando foguetes que conectem pontos opostos do planeta em velocidades surpreendentes, chamados de BRF (sigla em inglês para “big fucking rocket”). Com a possibilidade de decolagem e pouso seguros, os BRFs despachariam passageiros de Nova York até Tóquio em apenas 35 minutos, com uma escala básica na estratosfera. Mas se pensamos em mal-estar na viagem a 1.200 km/h, imagine em uma a 29.000 km/h.

Mais do que ajudar os passageiros a escolher a melhor forma de viajar, a indústria da mobilidade tem grandes desafios. Um dos mais atuais é conquistar infraestrutura urbana e regulamentação que permitam aumentar a malha de modais disponíveis. Patinetes, por exemplo, precisam de calçadas lisas ou ciclofaixas para circularem com segurança. Os carros voadores necessitarão de mais clareza na sua regulação, e quem sabe até o estabelecimento de controle de voo específico para a categoria de eVTOLs. E, para os hyperloops e foguetes, o desafio técnico é o mais chamativo, mas há também a questão de em que locais tais transportes serão instalados ou oferecidos. Haja o que houver, uma coisa é certa: sair de casa vai se tornar uma decisão que exige mais planejamento.

SUPERTRUNFO DA MOBILIDADE

Patinete elétrico

• Custo de uso: R$ 3 para desbloqueio + R$ 0,50/minuto
• Ideal para pequenos percursos
• Circula por calçadas (6 km/h) ou ciclovias (20 km/h)
• Por ser elétrico, causa pouco suor no usuário, o que o torna uma opção de micromobilidade mais bem quista para quem vai ao trabalho

eVTOL

• Elétrico e mais silencioso, pode ser integrado à paisagem urbana como opção de transporte veloz
• Decola verticalmente, como um helicóptero
• Voa horizontalmente,como um avião
• Velocidade médiade 300 km/h

Hyperloop

• A velocidade mais alta é possível devido à ausência de atrito, pois os vagões se movem por levitação aérea ou magnética
• Vagões transitam dentro de tubos a vácuo
• Sem resistência do ar ou atrito,  chega a 1.200 km/h
• Promessa de transporte superveloz para pessoas e mercadorias


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