Semana On

Sexta-Feira 30.out.2020

Ano IX - Nº 416

Especial

A verdade sobre a Amazônia

Como a sua destruição vai além do desmatamento

Postado em 02 de Março de 2020 - Camilla Costa e Carol Olona (Texto), Cecilia Tombesi (Design e gráficos) – BBC News

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O tamanho da destruição atual da Amazônia é bem maior do que se acredita. Atualmente, o bioma contém a maior e mais diversa floresta tropical do mundo, ocupa mais de 6,8 milhões de km2 e abriga 33 milhões de pessoas em nove países.

Em 2018, Brasil e Bolívia estiveram entre os cinco países que mais perderam florestas primárias, as matas virgens, no mundo, de acordo com a organização internacional Global Forest Watch.

A grilagem de terras, a expansão de fronteiras agropecuárias, a mineração e a exploração econômica descontrolada, entre outros fatores, são consideradas as principais atividades responsáveis pela perda de floresta.

Mas o desmatamento é só uma parte do problema.

“Falar só de desmatamento quando falamos da destruição da Amazônia é o que eu chamo de a grande mentira verde”, diz o climatologista Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “A perda de floresta amazônica até hoje é muito maior do que os quase 20% de desmatamento dos quais se fala nos meios de comunicação.

Nobre e outros pesquisadores acreditam que, para ter um panorama mais completo da destruição da floresta, é preciso considerar também a degradação.

Degradação é o fenômeno que acontece quando o acúmulo de perturbações em um trecho de floresta (incêndios, extração de madeira e caça descontrolada, por exemplo) retira daquele ecossistema sua capacidade de funcionar normalmente.

Em 2019, por exemplo, Brasil e Bolívia também viram aumentar dramaticamente o número de incêndios na região amazônica.

“A questão é que a degradação tem um papel importante na maneira como a floresta muda, e nós não estamos vendo. Não há nenhum tipo de política para evitar a degradação”, diz à BBC News Brasil o botânico Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e pesquisador da Rede Amazônia Sustentável (RAS).

“Assim como uma pessoa saudável tem menos chances de pegar uma gripe, uma floresta saudável tem menos chance de queimar e de sucumbir às mudanças climáticas. O que a degradação faz é deixar a floresta cada vez mais vulnerável”, explica.

Entre as muitas funções da Amazônia está ajudar a América do Sul — e todo o planeta — a equilibrar o clima, distribuir as chuvas pela região e capturar quantidades enormes de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases causadores do efeito estufa.

São papéis fundamentais para mitigar os efeitos da mudança climática. “Podemos ver essas árvores nas fotos de satélite, mas para a função climática essas florestas degradadas já não existem mais”, diz Antonio Nobre.

O avanço da degradação e o desmatamento estão empurrando o ecossistema para um “ponto de não retorno” no qual ele perderia sua capacidade de funcionar, de acordo com os cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, dois dos principais especialistas em Amazônia no mundo.

Se a situação não for revertida, dizem eles, os impactos dessas mudanças poderiam se acelerar, com consequências catastróficas.

Nem toda perda de floresta é igual

Quando falamos em dados de desmatamento, nem sempre falamos da mesma coisa.

Uma maneira de medir o desmatamento é levando em conta todas as áreas da floresta em que a vegetação foi completamente eliminada. É o que se chama perda de cobertura florestal.

Só em 2018, a perda de cobertura florestal em toda a Amazônia chegou a 4 milhões de hectares (40 mil km2), segundo dados da Global Forest Watch.

Mas algumas destas áreas desmatadas são de florestas primárias, aquelas que se encontram em seu estado original — não afetadas, ou afetadas o mínimo possível, pela ação humana. Por serem mais antigas, elas têm mais diversidade de espécies e guardam mais carbono.

As florestas secundárias, por sua vez, são todas as que estão em recuperação de processos de desmatamento ou de degradação grave. Mas elas podem levar décadas e, em alguns casos, séculos, para voltarem a ter as características que tinham quando primárias se forem mantidas intocadas, o que também é raro.

Em 2018, a Pan-Amazônia, como é chamado o conjunto do bioma em todos os países, perdeu cerca de 1,7 milhão de hectares de floresta primária, segundo os dados produzidos pelo sistema de monitoramento da Universidade de Maryland, nos EUA, e publicados pelo Global Forest Watch.

Isso significa que pouco mais de três campos de futebol de mata virgem foram desmatados a cada minuto em 2018.

A perda pode parecer insignificante perto da imensidão da floresta (representa cerca de 0,32% do total), mas não é uma questão só quantitativa e, sim, qualitativa.

“Essa forma de medir o desmatamento é importante porque as florestas primárias são muito mais ricas e diversas em biodiversidade”, explica Jos Barlow, da Universidade de Lancaster.

Uma floresta é muito mais do que suas árvores. É o produto de todos os processos e interações entre milhares de espécies de plantas e animais que coexistem ali. Por isso a floresta amazônica é insubstituível.

“Cada hectare desmatado significa que uma parte do ecossistema deixa de funcionar, e isso afeta todo o resto”, diz à BBC News Brasil a pesquisadora Erika Berenguer, especialista em florestas tropicais da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da RAS.

Nos últimos dez anos, as taxas de perda de florestas primárias se mantiveram altas ou voltaram a aumentar na maioria dos países amazônicos, como apontam a Global Forest Watch e dados oficiais.

Nas florestas primárias vivem árvores que podem ter centenas ou até mesmo milhares de anos de idade. Elas cumprem um papel essencial na batalha contra as mudanças climáticas, já que agem como um enorme armazém de dióxido de carbono.

Uma pequena parte do CO2 que as árvores absorvem no processo de fotossíntese é emitida de volta para a atmosfera durante sua respiração. A outra parte é transformada em carbono e usada na produção dos açúcares que a planta necessita para seu metabolismo. “Medimos a quantidade de carbono em uma árvore pela espessura do tronco. O carbono é armazenado ali, em forma de biomassa”, explica Erika Berenguer.

Por isso, quanto maior e mais antiga a árvore, mais carbono ela costuma armazenar.

Segundo Berenguer, uma árvore grande (com pelo menos três metros de circunferência) pode armazenar cerca de 3 a 4 toneladas de carbono.

Isso equivaleria a cerca de 10 a 12 toneladas de dióxido de carbono — ou a média que um carro de passeio emite durante quatro anos.

Um dos efeitos do desmatamento é liberar o CO2 guardado na floresta de volta na atmosfera — seja pela queimada ou pela decomposição da madeira cortada, processos que transformam o carbono das árvores novamente em gás.

Por este motivo, os cientistas temem que a região deixe de ser um armazém de carbono e se transforme em um importante emissor de CO2, acelerando os efeitos da mudança climática. Um estudo recente mostra que cerca de 20% do total da Amazônia já emite mais dióxido de carbono do que absorve.

A destruição (in)visível da floresta

Os sistemas que produzem imagens do desmatamento consideram geralmente o corte raso de árvores, ou seja, áreas em que a vegetação original foi totalmente removida.

No entanto, cientistas como Antonio Nobre acreditam que só o desmatamento não dá corretamente a dimensão da perda. Para isso, seria preciso ter também dados sobre a degradação.

Esse fenômeno é um produto dos eventos climáticos — como as secas — e da ação humana que deixam a floresta mais pobre e vulnerável. Mesmo quando, vista de cima, ela ainda parece seguir em pé.

Atividades como o corte de madeira ilegal e eventos recentes como os incêndios de 2019 fazem parte do problema.

“O solo fica mais frágil e mais seco por causa da remoção da vegetação, ainda que não seja total. Isso muda o microclima da floresta. Fica mais fácil incêndios se espalharem, por exemplo, porque o chão esquenta mais rápido”, explica Alexander Lees, professor de Ecologia Tropical na Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido.

No Brasil, entre os meses de janeiro e novembro, o fogo arrasou 70.698 km² (mais de 7 milhões de hectares) de Amazônia. Na Bolívia, o incêndio atingiu mais de 2 milhões de hectares do bioma.

Uma área de floresta degradada também perde, por exemplo, a capacidade de reciclar água da chuva. “Somando o corte raso e a degradação, mais da metade da Amazônia já tem seus serviços ambientais ao clima da região comprometidos”, afirma Antonio Nobre.

Cientistas já comprovaram que a degradação é um importante fator na emissão do CO2 armazenado na floresta. Um novo estudo do Raisg afirma que 47% de todas as emissões na Amazônia vem da degradação. E diz ainda que, em sete dos nove países amazônicos, esse fenômeno é o principal responsável pelas emissões do gás.

Segundo o climatologista, as áreas degradadas da Amazônia chegam a ser até duas vezes maiores que as desmatadas.

Para fazer essa afirmação, ele se baseia no fato de que, só no Brasil, entre 2007 e 2016, foram contabilizados 14,6 milhões de hectares (146 mil km2) degradados na Amazônia brasileira.

Isso é quase o dobro da área desmatada no mesmo período, que foi de 7,5 milhões de hectares (75 mil km2), de acordo com dados do Inpe.

Um relatório recente do governo da Colômbia afirma que entre 2012 e 2015, a região amazônica no país perdeu 187.955 hectares por desmatamento e 414.605 hectares por degradação ​​— mais que o dobro.

Os dados disponíveis, segundo Antonio Nobre, fazem pensar que a área da Amazônia destruída pela ação humana é muito maior do que se acredita.

Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, concorda. “Sabemos que até os números oficiais que temos são subestimados, porque geralmente só se mede a degradação mais grave.”

Mas por que não se fala mais a respeito disso?

“É um fenômeno mais difícil de medir. Mesmo quando é possível enxergar a degradação por imagens de satélite, você precisa ter dados sobre o que está acontecendo no solo para entender se aquela área está mais ou menos degradada, se está se recuperando”, explica o pesquisador Alexander Lees.

Entre os países amazônicos, só o Brasil publica sistematicamente dados anuais de degradação.

No entanto, cientistas de toda a região estão tentando medir o fenômeno, para fazer um retrato mais amplo do estado atual do bioma.

E se perdermos a Amazônia?

Se o desmatamento e a degradação continuarem nos ritmos atuais, a Amazônia pode deixar de funcionar como um ecossistema tropical em breve, mesmo que parte dela continue de pé.

Atualmente, pouco mais de 18% de toda a floresta original foi desmatada, de acordo com dados do projeto de monitoramento Mapbiomas, parceria entre universidades, ONGs, institutos de todos os territórios amazônicos e o Google.

O número é perigosamente próximo do que o biólogo americano Thomas Lovejoy e o climatologista brasileiro Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP, chamam de tipping point (ponto de não retorno, em inglês).

Eles se referem ao momento em que o desmatamento, em conjunto com as mudanças climáticas e a vulnerabilidade a incêndios mudarão completamente a Amazônia.

Esse ponto ocorrerá, segundo eles, quando entre 20% e 25% da floresta original estiverem destruídos.

De acordo com os cálculos de Nobre e Lovejoy, o tipping point pode acontecer nos próximos 20 a 30 anos, mantida a taxa atual de cerca de 1,5 milhão de hectares (15 mil km2) desmatados em média por ano em toda a região.

“Se chegarmos a esse ponto, aumentará a duração da estação seca e a temperatura da floresta. A partir daí, as árvores começarão a morrer de maneira acelerada, e isso criará um ciclo vicioso. O que era floresta tropical ficará parecido com o cerrado brasileiro, mas como uma espécie de savana pobre, sem a rica biodiversidade do cerrado”, diz Carlos Nobre.

No estudo, os cientistas projetam um cenário para 2050 (confira na imagem acima) no qual a Amazônia perdeu 20% de floresta e está mais vulnerável a incêndios, em que a temperatura da região aumentou 3°C e em que aumentou cerca de 30% a concentração de CO2 na atmosfera.

“Neste cenário, teríamos até 60% da floresta transformada nesta savana pobre”, afirma o pesquisador.

A projeção, no entanto, ainda não inclui detalhadamente a degradação, pela dificuldade de conseguir dados da Pan-Amazônia.

Isso significa que a floresta poderia estar ainda mais próxima do ponto de não retorno. Segundo Nobre, há planos de incluir o fenômeno em uma próxima análise.

Mas o que acontece após o ponto de não retorno?

Menos chuva

Os cientistas ainda não sabem com precisão todos os possíveis efeitos de uma transformação brusca da floresta amazônica.

Mas, segundo as estimativas de Carlos Nobre, a temperatura na região poderia aumentar de 1,5°C a 3°C nas regiões que se tornarem savanas pobres. Isso sem contar o aumento já esperado com o aquecimento global.

Em 2012, um estudo da Universidade de Leeds afirmou que o desmatamento pode fazer com que as chuvas na Amazônia diminuam cerca de 12% durante a estação chuvosa e 21% na estação seca até 2050.

Com menos evapotranspiração na floresta, diminuiríam também as chuvas na bacia do rio da Prata, e a temperatura no Centro-Oeste brasileiro poderia aumentar em até 2°C.

Isso teria um efeito catastrófico para a economia regional. Menos chuva e mais calor significaria menos água para a pecuária e para cultivos como a soja. “Certamente, haveria diminuição da produtividade da agropecuária nas partes da região que são mais importantes para essas atividades”, diz Carlos Nobre.

Mais doenças

Estudos feitos na Amazônia brasileira e em outras florestas tropicais do mundo relacionam o desmatamento a um aumento na incidência de doenças transmitidas por mosquitos, como a malária e a leishmaniose.

“Em um ambiente rico em biodiversidade, a proliferação do vírus se dilui, porque há mais espécies que podem ser incubadoras. Vetores como os mosquitos têm uma oferta de alimento grande”, disse a bióloga Márcia Chame, pesquisadora da Fiocruz.

O processo de queimadas e degradação faz com que os bichos busquem outras fontes alimentares, explica Chame. Isso normalmente aproxima o ciclo de algumas doenças das cidades.

“Não sabemos ainda o que vai acontecer, mas temos elementos para dizer que, com menos floresta, há um risco alto de termos mais transmissão em humanos”, alerta a bióloga.

O aumento da temperatura causado pelas mudanças na floresta também pode provocar mais mortes e internações por doenças cardiovasculares e respiratórias relacionadas ao calor, segundo a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Rede Brasileira de Pesquisas em Mudanças Climáticas.

“Mesmo mantendo as condições que temos hoje, a temperatura na região amazônica poderia aumentar até 8°C, somando o desmatamento e o aquecimento global, a partir de 2070. Com a substituição da floresta por outro ecossistema, esse incremento poderia ser maior ou acontecer bem antes”, adverte.

É possível evitar o ‘tipping point’?

De acordo com Carlos Nobre, há uma maneira de prevenir a transformação da floresta em savana:

“O que precisamos fazer imediatamente é adotar uma política de desmatamento zero na Pan-Amazônia e, junto com ela, um grande programa de restauração florestal no sul, no sudeste e no leste da Amazônia, que são os trechos mais vulneráveis”, afirma.

“Se conseguíssemos reflorestar 60 ou 70 mil km2 dessa grande área, onde a estação seca já está mais longa, poderíamos fazer a floresta voltar a funcionar melhor ali, ela ficaria mais resiliente.”

O objetivo não parece fácil de ser atingido no futuro próximo.

Em setembro de 2019, representantes de sete países amazônicos — sem a presença de Venezuela e Guiana Francesa — se reuniram em Leticia, na Colômbia, com um objetivo de criar uma agenda de prevenção de crises ambientais como os incêndios recentes.

O resultado foi o Pacto pela Amazônia, um acordo de 16 medidas não obrigatórias, mas que indicam um compromisso dos países contra o avanço da destruição da floresta. No entanto, o texto não coloca metas específicas para a redução do desmatamento, nem para um plano de reflorestamento.

O que ameaça a floresta em cada um de seus 9 países?

Em agosto de 2019, o aumento dos focos de incêndio no Brasil e na Bolívia chamou a atenção do mundo novamente para a pressão sobre a Floresta Amazônica. Segundo pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o fogo estava diretamente ligado ao desmatamento.

Nos dois países, a grilagem de terras e a expansão da fronteira agropecuária são apontadas por especialistas como as principais causas do aumento da destruição da floresta, algo que os governos negam.

Juntamente com a mineração, a retirada de madeira e a exploração econômica descontrolada, essas atividades estão por trás das taxas de desmatamento crescentes em todos os nove países amazônicos (contando com a Guiana Francesa, território ultramarino da França).

Aqui se encontra a principal questão que opõe governos, ambientalistas, empresas e indígenas: os planos de desenvolver atividades econômicas na região se chocam, muitas vezes, com a preservação do ecossistema e de seus povos nativos - Na Amazônia vivem cerca de 8% da população da América do Sul, entre cidades, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. Há pelo menos 100 tribos com as quais se tem pouco ou nenhum contato.

“Não podemos vilanizar as atividades econômicas na floresta. Se tivermos clareza do que queremos fazer com essa região, podemos buscar empreendimentos que façam sentido ali, com a melhor tecnologia possível, que gerem cadeias produtivas envolvendo a população e ajudando na conservação”, diz  Natalia Hernández, especialista da Fundação Gaia Amazonas e da Raisg.

“Mas o que temos hoje são discursos contraditórios dos governos e obras que contribuem com o desmatamento, mas não resolvem os problemas reais das pessoas que vivem na Amazônia.”

Os processos de desmatamento que acontecem nesses países, independentemente das políticas de cada governo, afetam o ecossistema de toda a região, inclusive dos países que não têm Amazônia.

Isso acontece por causa do papel essencial que a floresta desempenha: distribuir a umidade que vem do Oceano Atlântico por toda a América do Sul, regular o clima da região e capturar grandes quantidades de dióxido de carbono, o principal gás causador do efeito estufa.

“Essa espécie de quadrilátero formado entre o centro-sul do Brasil e a bacia do Rio da Prata seria desértica se não fosse a Amazônia”, diz o climatologista Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“É assim que funcionam outros locais do mundo que ficam nestas latitudes. As pessoas não fazem ideia do que significaria perder esse magnífico sistema hidrológico.”

Se essas taxas de desmatamento e degradação da floresta não forem revertidas, dizem os cientistas, as consequências da mudança climática podem ser aceleradas em todo o planeta. Que atividades provocam esse desmatamento? Quanto da floresta original foi perdida em cada país? E o que os governos estão fazendo?

QUAL É A MAIOR AMEAÇA EM CADA PAÍS?

Bolívia - Área de Amazônia: 48.004.900 hectares

Os incêndios na Bolívia, que começaram em maio de 2019, destruíram quase 2 milhões de hectares de Floresta Amazônica (o equivalente a 17 vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro), segundo a ONG de monitoramento Fundación Amigos de la Naturaleza.

E quase a metade disso aconteceu em áreas protegidas, conhecidas pelo alto índice de biodiversidade.

O governo do então presidente Evo Morales autorizou, por decreto, o corte de árvores e as queimadas para atividades agrícolas na região amazônica, o que provocou protestos de grupos indígenas.

Morales também foi acusado por ambientalistas de estimular o desmatamento com uma política de venda de terras a fazendeiros e distribuição a camponeses.

A expansão acelerada da fronteira agropecuária ocorre principalmente para o plantio de soja e pecuária, atividades cada vez mais importantes na economia do país, com a expectativa de abertura do mercado chinês a estes produtos.

Em agosto de 2019, Morales celebrou, em Santa Cruz, a exportação do primeiro lote de carne bovina à China. A região também foi a mais afetada pelos incêndios no mesmo período, e já havia sido a responsável por quase metade da produção de soja da Bolívia em 2018.

Em resposta às críticas que recebeu durante a crise dos incêndios, Morales interrompeu a venda de terras a fazendeiros em Chiquitanía, decretando o que chamou de “pausa ecológica”.

O Ministério de Meio Ambiente e Água da Bolívia foi questionado sobre a atual estratégia para controlar os incêndios e reduzir o desmatamento no país, mas não respondeu até a publicação dessa reportagem.

A Bolívia já perdeu cerca de 8% da sua Floresta Amazônica original.

Brasil - Área de Amazônia: 421.335.900 hectares

O Brasil, que abriga a maior parte da Floresta Amazônica, ganhou elogios internacionais por causa da queda drástica no desmatamento entre 2004 e 2012. Em quase 10 anos, a redução acumulada chegou a 80%.

Mas, desde então, a perda de floresta voltou a crescer.

Em novembro de 2019, o governo apresentou dados que confirmavam as previsões dos especialistas: entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento na região amazônica aumentou quase 30% em relação ao ano anterior.

Quase 9,8 mil km2 (980 mil hectares) foram perdidos, a maior área desmatada desde 2008.

Mas, esses números não incluem o mês de agosto de 2019, em que o crescimento do número de alertas de incêndio na região levou o tema para o topo da lista de polêmicas do governo de Jair Bolsonaro.

Em agosto, o Inpe registrou 30.901 focos de incêndio no bioma amazônico, um número acima da média histórica para o período entre 1998 e 2018.

Fogo, desmatamento e gado: Inicialmente, o presidente chegou a dizer que os dados do Inpe eram “mentirosos” e acusou o então diretor Ricardo Galvão de estar “a serviço de alguma ONG”. Galvão respondeu às críticas dizendo que os comentários do presidente eram "impróprios" e foi exonerado do cargo dias depois.

A reação do presidente provovou reações negativas dentro e fora do país.

Apesar de o governo ter afirmado que o número maior de queimadas era consequência da estação seca, uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e da Universidade Federal do Acre afirmou que a alta nos incêndios está diretamente relacionada ao desmatamento.

“Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento. Estes municípios são responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho”, diz a nota.

A prática das queimadas funciona como uma espécie de consolidação do desmatamento de uma área para atividades econômicas, segundo Erika Berenguer, especialista em florestas tropicais da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“A floresta derrubada fica um tempo secando no chão, geralmente por meses, para perder umidade suficiente. Depois colocam fogo nela, para tirar a vegetação e plantar capim. Cerca de 70% da área já desmatada da Amazônia brasileira é usada para pastagem de gado”, afirma.

De acordo com a a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 80% da perda de floresta na Amazônia brasileira está direta ou indiretamente ligada à pecuária.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne Bovina (Abiec).

A pecuária é responsável por mais de 7% do PIB do país, e a carne corresponde a cerca de 4,6% das exportações brasileiras.

De fato, no último ano, os locais com as maiores taxas de desmatamento estão próximos às cidades onde ficam alguns dos maiores rebanhos do Brasil.

Atualmente, cerca de 40% do gado no país está nos Estados amazônicos.

No entanto, essa não é a história completa.

A Amazônia brasileira tem cerca de 60 milhões de hectares que são considerados áreas públicas, ou seja, não têm uso legal definido pelo governo. Não são áreas de conservação, nem reservas extrativistas, nem territórios indígenas, por exemplo.

“As pessoas grilam essas terras, desmatam e colocam algumas cabeças de gado, que é a maneira mais barata de ocupá-las”, disse o engenheiro agrônomo Marcelo Stabile, pesquisador do Ipam.

O próximo passo, segundo Stabile, é conseguir ilegalmente um título de propriedade da terra e vendê-la. Em seguida, os grileiros buscam outro trecho de floresta e, assim, sucessivamente. “Muitas vezes essas terras são vendidas a grandes pecuaristas, que podem ser pessoas de boa ou de má fé”, explica.

Esse processo é frequente no Brasil se repete, de maneira muito semelhante, em outros países amazônicos como Colômbia, Equador e Peru.

Os novos dados de desmatamento mostram que a proporção de áreas grandes (com mais de 500 hectares) desmatadas entre 2018 e 2019 foi a maior em dez anos. Isso, segundo os especialistas, indica que grandes produtores também podem estar diretamente envolvidos na grilagem de terras.

“Obviamente, o tamanho da área desmatada indica o poder de quem está desmatando. Não é uma tarefa barata derrubar 500 ou mil campos de futebol na Amazônia. É preciso ter máquinas, contratar gente”, diz o pesquisador do Ipam.

Pesquisadores estimam que para derrubar e limpar apenas um hectare de floresta são necessários cerca de R$ 1,2 mil.

Mas, de acordo com Stabile e outros pesquisadores, o Brasil poderia duplicar ou até triplicar seus rebanhos sem desmatar nem um hectare a mais.

“O que está acontecendo ali é especulação de terra, esse é o grande motor do desmatamento. Se o governo desse um destino a essas terras públicas, a grilagem deixaria de ser lucrativa”, afirma.

Em janeiro de 2020, o presidente Bolsonaro assinou uma Medida Provisória que abre caminho para que parte das áreas públicas desmatadas ilegalmente até dezembro de 2018 passe para os desmatadores. Críticos dizem que a decisão estimula a destruição da floresta, mas o governo diz querer desburocratizar a concessão de títulos a agricultores “que ocupam terras da União de forma mansa”.

Acusações de estímulo ao desmatamento: Ambientalistas e pesquisadores afirmam que as declarações e políticas de Bolsonaro têm estimulado a grilagem e o desmatamento, algo que o presidente brasileiro nega.

Desde que assumiu, Bolsonaro afirmou que acabaria com o que chamou de “indústria de multas ambientais” e afirmou que o país tem áreas de conservação e territórios indígenas demais. O governo também quer abrir territórios indígenas à mineração.

Segundo dados do Inpe compilados pelo Instituto Socioambiental, entre agosto de 2018 e julho de 2019 o desmatamento dentro de terras indígenas foi o maior desde que a taxa começou a ser medida, em 2008.

Entre janeiro e setembro de 2019, os ataques e invasões a terras indígenas no Brasil subiram mais de 40% em relação ao ano anterior, segundo dados do Conselho Indigenista Missioneiro (Cimi). Os ataques são atribuídos a grileiros, garimpeiros e pessoas envolvidas com a extração ilegal de madeira.

O Ministério do Meio Ambiente foi questionado sobre a atual estratégia para reduzir o desmatamento, mas não respondeu até a publicação dessa reportagem.

No final de janeiro, por meio de uma rede do social, Bolsonaro anunciou a criação de um Conselho da Amazônia e de uma Força Nacional Ambiental, para atua na “proteção, defesa e desenvolvimento sustentável da Amazônia”, mas não deu detalhes de como estes órgãos funcionaríam.

O Brasil já perdeu aproximadamente 18% da sua Amazônia original.

Colômbia - Área de Amazônia: 48.529.100 hectares

Em 2017, o desmatamento na Amazônia colombiana foi um dos maiores entre os países amazônicos e o mais alto na história do país, com perda de 144 mil hectares de floresta — o dobro do ano anterior.

O pico é uma consequência do acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 2016, que deixou um vácuo de ocupação nas áreas de floresta.

Junto com o desarmamento, o acordo com o ex-presidente Juan Manuel Santos significou o abandono das áreas ocupadas pelas Farc no território nacional — boa parte delas dentro da Amazônia.

Líderes comunitários disseram à imprensa local que as Farc funcionavam como uma espécie de autoridade ambiental, impondo regras aos camponeses sobre quando era permitido desmatar ou queimar para agricultura e criação de gado.

“Antes, os agentes do governo não se aproximavam da região amazônica por causa da presença das Farc que, para sua proteção, tinham interesse em manter a floresta de pé. Por isso, eles impunham limites rígidos”, disse o colombiano Rodrigo Botero, diretor da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável.

Agora, segundo Botero, há na Colômbia uma corrida pela grilagem de terras amazônicas que envolve grandes empresários, políticos, narcotraficantes e outros grupos paramilitares como o Exército de Liberação Nacional (ELN).

“Na ponta do desmatamento estão pequenos agricultores, mas as terras são compradas por grupos com poder econômico, seja de traficantes ou empresários. Há um mercado de terra, e o governo não tem capacidade de frear isso”, afirma Botero.

Em resposta ao problema, o governo colombiano criou, em 2018, o Conselho Nacional de Luta contra o Desmatamento. Segundo o Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o grupo tem a função de identificar núcleos de desmatamento e suas causas, além de recomendar as ações necessárias.

Uma resolução de 2018 também passou a considerar que a proteção da água, da biodiversidade e do meio ambiente passam a ser prioridades na estratégia de segurança nacional do país, disse o Ministério, por e-mail, à BBC News Brasil.

Agora, por lei, a administração poderá intervir em parques nacionais amazônicos que sejam afetados por atividades ilegais.

Entre as ações do governo colombiano também estão operações militares contra a grilagem em parques nacionais e programas para gerar incentivos financeiros à conservação.

Em 2018, o desmatamento teve uma queda de apenas 4% em relação ao ano anterior. Segundo o próprio governo, quase metade da derrubada de florestas foi causada pela grilagem.

A região amazônica colombiana perdeu, até 2018, cerca de 11,7% de sua floresta original. Deste total, 14% foi desmatado nos últimos oito anos.

Equador - Área de Amazônia: 10.345.700 hectares

No norte do Equador, o cultivo de dendê é a principal ameaça às áreas de floresta, segundo especialistas.

O azeite de dendê, um importante produto na economia do país, é usado na produção de alimentos industrializados como chocolates e biscoitos, em maquiagens, em cosméticos e em combustíveis em todo o mundo.

O Equador é o segundo maior produtor de dendê na América Latina e o sexto no mundo. A produção na Amazônia equatoriana representa aproximadamente 13% do total.

A expansão das fronteiras dos cultivos de dendê e de cacau nos últimos 10 anos é apontada como o principal motor do desmatamento pela Global Forest Watch e pelo Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (Maap).

Isso é especialmente preocupante porque, apesar de ocupar somente cerca de 2% do bioma amazônico, é no Equador que estão as regiões com maior diversidade da floresta. Em um só hectare no Parque Nacional Yasuní, foram identificadas 670 espécies de árvores — mais do que em toda a América do Norte.

E, segundo um estudo do Instituto Nacional de Biodiversidade do país, cerca de 40% a 60% das espécies de árvores da Amazônia equatoriana ainda são desconhecidas.

Grandes projetos de mineração: Mirador, uma mina de cobre, ouro e prata a céu aberto que já está sendo instalada em duas províncias amazônicas, será o maior projeto de mineração industrial no país, mas não o único.

O governo afirma que a mineração industrial na região, administrada por uma empresa chinesa, será feita de maneira responsável e que os lucros com a atividade permitirão investir na infraestrutura local.

Mas pesquisadores e ambientalistas dizem que a atividade pode causar problemas graves à floresta e aos povos nativos.

“As minas estão em áreas onde podemos ter consequências muito ruins. Além do desmatamento, não sabemos exatamente onde vão colocar as barragens de rejeitos, nem como isso será monitorado”, disse a equatoriana Carmen Josse, diretora científica da Fundação EcoCiencia.

O governo do Equador foi questionado a respeito de sua estratégia para evitar que a mineração em grande escala contribua com o desmatamento na região, mas não respondeu até a publicação dessa reportagem.

Até hoje, o Equador perdeu cerca de 10% de sua Amazônia.

Guiana Francesa - Área de Amazônia: 8.063.000 hectares

A Floresta Amazônica cobre cerca de 95% da Guiana Francesa, um território ultramarino da França.

E cerca de 75% dessa cobertura é de floresta primária, aquela com pouca ou nenhuma intervenção humana, segundo dados da Global Forest Watch referentes a 2016, os mais recentes disponíveis.

Entre os territórios amazônicos, é um dos que tem o maior percentual da floresta em zonas protegidas por lei — mais de 50% — e o menor índice de desmatamento.

No entanto, representantes de povos nativos e ambientalistas têm expressado preocupação com o avanço da mineração legal e ilegal sobre a área preservada.

No início de 2019, o presidente francês Emanuel Macron suspendeu um megaprojeto de mineração de ouro dentro do parque nacional Parc Amazonien de Guyane.

Ele mesmo havia apoiado o projeto no início de seu governo, mas decidiu suspendê-lo após campanhas contrárias nacionais e internacionais.

O garimpo ilegal, porém, é considerado a principal ameaça à unidade. Forças de segurança detectaram um aumento no número de garimpos ilegais na área desde 2017.

Com uma população de menos de 300 mil pessoas, a Guiana Francesa tem entre 8 mil e 10 mil garimpeiros ilegais. O aumento no preço do ouro desde a crise de 2008 também provocou uma corrida pelo metal nas florestas do país.

“Na maioria das vezes, os garimpeiros são rapazes pobres do Brasil procurando dinheiro fácil. Eles vivem na floresta por meses e meses”, disse à BBC News o capitão Vianney, líder de operações da Legião Estrangeira contra o garimpo.

O Ministério da França de Além-Mar, responsável pelos territórios ultramarinos franceses, foi questionado sobre a estratégia para combater o desmatamento na Guiana, mas não respondeu até a publicação dessa reportagem.

A Guiana Francesa já perdeu cerca de 3% de sua floresta original.

Guiana - Área de Amazônia: 21.115.600 hectares

O bioma amazônico corresponde a cerca de 95% da Guiana, o que faz com que o país tente encontrar maneiras de explorar economicamente a floresta e, ao mesmo tempo, vender-se como um “Estado verde”, que a preserva.

A taxa anual de desmatamento da Guiana é uma das mais baixas da região: 0,051% em 2018, segundo o governo.

Parte do sucesso se deve a estratégias como a criação de uma comissão de manejo que decide quais são as árvores que podem ou não ser cortadas.

Mesmo administrada pelo governo, a derrubada legal de madeira é considerada um fator que facilita o desmatamento de maneira mais abrangente.

Segundo ambientalistas, concessões feitas a grandes madeireiras internacionais também contribuem para o garimpo ilegal, já que as empresas abrem estradas que dão acesso a áreas mais remotas da floresta.

A Comissão Florestal da Guiana disse à BBC News Brasil que, desde 2015, nenhuma nova área de floresta foi aberta para a extração de madeira.

O garimpo ilegal, principalmente de ouro, é responsável por cerca de 85% da perda de florestas, segundo Comissão Florestal da Guiana. O ouro é o principal produto de exportação do país.

O governo diz ter uma “estratégia de desenvolvimento de um Estado verde”, que prevê investimentos no ecoturismo, um teto para emissões de CO2 e o aumento da conservação da floresta.

Tudo isso será financiado por acordos internacionais para a preservação da Amazônia e pela descoberta de enormes reservas marinhas de petróleo.

Até agora, a Guiana perdeu 1% de sua Amazônia original.

Peru - Área de Amazônia: 78.899.500 hectares

A agricultura em pequena escala tem sido, tradicionalmente, a principal causa do desmatamento no Peru, que até hoje perdeu cerca de 8% de sua floresta original — cerca de um terço desta área foi desmatada desde 2001. Mas, nos últimos anos, os cultivo de dendê, de cacau e de coca estão ganhando terreno.

Em um estudo de 2018, pesquisadores mostraram que apesar de corresponder a apenas 4% dos cultivos na região amazônica, o dendê foi responsável por 11% do desmatamento entre 2007 e 2013. O azeite de dendê é usado mundialmente em alimentos, cosméticos e combustível.

“Depois que algumas empresas produtoras de azeite foram punidas por desmatamento, começaram a comprar as terras de pequenos agricultores que já abriram a floresta”, disse a engenheira geógrafa Sandra Ríos, do instituto de pesquisa IBC Perú.

O Ministério do Meio Ambiente peruano foi questionado sobre qual é sua estratégia para reduzir o desmatamento, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

O garimpo ilegal de ouro também é uma ameaça cada vez maior à Amazônia peruana.

O Peru é o maior exportador de ouro da América Latina e o sexto no mundo. No entanto, especialistas afirmam que mais de 25% da produção anual do país pode ter origem ilegal.

Desde 2006, os governos assistem a uma nova corrida pelo ouro na Reserva Natural Tambopata, uma das mais biodiversas da região, impulsionada pelo aumento no preço do metal e pela construção da Rodovia Interoceânica, que liga o Brasil ao Peru.

Além de facilitar o transporte de produtos, a estrada deu acesso a áreas antes pouco acessíveis da floresta. Ali, se formou um núcleo de garimpeiros conhecido como La Pampa, que chegou a ter mais de 5 mil pessoas.

Em busca de ouro, os garimpeiros removem a vegetação do solo e, para separar o metal de impurezas, usam o mercúrio, que contamina as fontes de água e os animais.

Em 2017, a perda de florestas causada pela mineração alcançou seu ponto mais alto desde 1985, segundo um estudo do Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia).

Em março de 2019, o governo declarou estado de emergência por 60 dias, durante uma operação contra o garimpo em La Pampa.

Até hoje, o Peru perdeu cerca de 8% da sua floresta original.

Suriname - Área de Amazônia: 14.652.300 hectares

Com cerca de 94% do território ocupado pela Amazônia, o Suriname era um dos países da região com o melhor desempenho na conservação do bioma.

No entanto, desde 2012, o país registra uma tendência de aumento da perda de cobertura florestal, estimulada principalmente pela mineração de ouro.

Entre 2000 e 2014, segundo um relatório da ONG Amazon Conservation Team (ACT), a extensão do território explorado pela mineração no Suriname — geralmente em pequena escala, seja industrial ou artesanal — cresceu 893%.

De acordo com a Fundação para o Manejo de Florestas e o Controle da Produção, órgão do governo surinamês, a mineração é responsável por 73% do desmatamento no país.

Apesar do tamanho diminuto, o Suriname ocupa o 10º lugar do mundo em produção de ouro proporcional ao território. Isso sem contar a produção do garimpo ilegal.

A maior parte do garimpo ilegal no país acontece em zonas remotas da floresta, longe da fiscalização. De acordo com a ACT, estima-se que até 60% dos garimpeiros no Suriname sejam brasileiros que cruzaram a fronteira irregularmente.

Em alguns dos maiores territórios quilombolas e indígenas do país, o garimpo também se tornou a principal fonte de renda das famílias.

O Suriname já perdeu aproximadamente 4% de sua Floresta Amazônica.

Venezuela - Área de Amazônia: 47.021.900 hectares

Não há dados oficiais disponíveis sobre o desmatamento atual na Venezuela, mas o monitoramento de organizações científicas locais e internacionais aponta que seu ritmo aumentou nos últimos anos, especialmente após a criação do Arco Mineiro do Orinoco, que fez explodir o garimpo nos Estados amazônicos.

Com a queda drástica do preço e da produção de petróleo venezuelano a partir de 2014, o governo de Nicolás Maduro voltou suas atenções para os Estados mais ricos em minerais.

A Venezuela tem a sexta maior reserva de ouro do mundo, com cerca de 7 mil toneladas.

Em 2016, o presidente criou o Arco Mineiro, que permite a concessão de licenças para mineração de metais como ouro, diamante e coltan (uma mistura de columbita e tantalita usada na indústria de smartphones) em uma área de 112 mil km², cerca de 12% do território da Venezuela.

A área também abarca monumentos naturais, reservas florestais, um parque nacional amazônico e ao menos quatro territórios indígenas reconhecidos.

“A zona do Orinoco é tradicionalmente mineira, até mesmo comunidades indígenas garimpavam. E havia muitos garimpeiros que vieram do Brasil”, disse o ecologista Carlos Pelaez, da ONG Provita.

“Mas o decreto, de certa forma, legalizou as formas de garimpo que já existiam ali e não fez diminuir essa atividade, que tem um impacto enorme no meio ambiente e nas populações locais.”

O plano de Maduro era dar concessões a empresas estrangeiras de mineração, que teriam que formar empresas mistas com as estatais para explorar a zona.

Na prática, segundo Pelaez, o que aconteceu foi um aumento exponencial da mineração em pequena escala.

Só em 2018, de acordo com o Banco Central da Venezuela, o Estado comprou 9,2 toneladas de ouro no mercado, equivalente à quantidade total que comprou entre 2011 e 2017.

A atividade tem um efeito devastador na região.

“O ouro que existe ali é de baixa qualidade, tem muitas impurezas. E a quantidade de ouro que se tira dessa região é muito pequena”, diz Peláez.

O garimpo tem produzido toneladas de sedimentos que se acumulam nos principais rios do país, segundo cientistas. E o uso de mercúrio tem contaminado rios e povos indígenas.

O país tem o maior número de garimpos ilegais na região, segundo um levantamento do Raisg. São 1.899 pontos, concentrados no Arco Mineiro do Orinoco.

Em meio à crise política no país, a Assembleia Nacional tentou revogar a lei que criava o Arco Mineiro do Orinoco e chegou a considerá-lo “ecocídio”, ou crime contra o meio ambiente.

A reportagem questionou três ministérios venezuelanos sobre a atual estratégia para reduzir o desmatamento na região, mas nenhum deles respondeu até a publicação dessa reportagem.

A Venezuela já perdeu cerca de 4% da sua floresta original.


Voltar


Comente sobre essa publicação...