Semana On

Quinta-Feira 09.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Poder

Militar que traficou 39 quilos de cocaína em comitiva de Bolsonaro aceita pena de prisão e multa de R$ 9,5 milhões

Caso intima o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, a se explicar

Postado em 28 de Fevereiro de 2020 - Fórum, Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O sargento Manoel Silva Rodrigues, da Força Aérea Brasileira (FAB), que foi detido com 39 quilos de cocaína na comitiva de Jair Bolsonaro durante escala na Espanha, aceitou no último dia 24 a pena de seis anos de prisão e pagamento de multa no valor de 2 milhões de euros – aproximadamente R$ 9,5 milhões – no julgamento ocorrido na cidade de Sevilha.

O Ministério Público de Sevilha inicialmente pediu uma pena de oito anos de prisão e 4 milhões de euros de multa, mas reduziu o pedido para seis anos e 2 milhões porque o militar admitiu os fatos e teria mostrado arrependimento.

As investigações da Guarda Civil apontaram que ele pretendia vender a droga a um intermediário em Sevilha, no sul da Espanha. “A pessoa que me entregou isso no Brasil me disse que seu destino era a Suíça e que eu devia trazê-la para a Europa (…). Eu estava passando por dificuldades econômicas. Estou há 20 anos na FAB e nunca tive nenhum processo, mas um militar no Brasil não tem um salário bom. Sempre compro coisas nas minhas viagens, como celulares, e as revendo para ganhar um extra”, alevou Rodrigues durante o julgamento.

O militar contou que entregaria a droga em um hipermercado de Sevilha na tarde de 25 de junho. “Tinha que ir com roupa de camuflagem, com uma camisa verde, e a outra pessoa me conheceria por uma foto. Marcaríamos no Burger King, e ele me faria um gesto (…). Foi a primeira e única vez em minha vida que fiz uma coisa errada dessas”, afirmou o militar, que se disse “profundamente arrependido”. “Peço perdão ao Estado e ao povo espanhol por colocar isto em seu país (…). O castigo é justo”, acrescentou, segundo a agência EFE

Desafio para Heleno

O nariz é uma parte multiuso do corpo humano. Além de levar ar para os pulmões, serve para brilhar, espirrar, coçar e se meter onde não é chamado. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, já não precisa desperdiçar o tempo do seu nariz com problemas alheios.

A condenação de Manoel Silva Rodrigues intima Heleno a se explicar. O sujeito era tripulante no avião de apoio da comitiva do presidente, que rumava para a reunião do G-20, no Japão. Confessou o crime num tribunal de Sevilha. Pegou seis anos de cana, mais multa equivalente a R$ 9,5 milhões.

O sargento alegou que foi sua primeira carga de cocaína. Reconheceu, entretanto, que aproveitava as viagens internacionais no jato presidencial para se abastecer de mercadorias que comercializava no Brasil. Quer dizer: o sujeito começou como uma espécie de muambeiro de farda e terminou como traficante.

Há oito meses, quando a cocaína ganhou as manchetes, Heleno atribuiu o fato a um sortilégio do azar: "Podia não ter acontecido, né? Foi uma falta de sorte acontecer exatamente na hora de um evento mundial. Acaba tendo uma repercussão mundial que poderia não ter tido. Foi um fato muito desagradável..."

De fato, a coisa foi desagradável. Tão desagradável que o general deveria explicar como, afinal, a cocaína subiu a bordo. Mais: responsável pela segurança do presidente da República, precisa informar que providências adotou para evitar que muambas e drogas voltem a entrar no avião presidencial.

Nada do que Heleno disser eliminará o vexame internacional. Mas pode evitar a reincidência do descalabro. Com uma vantagem adicional: ocupado com os afazeres próprios de sua pasta, o general talvez desobrigue o seu nariz da tarefa de farejar chantagistas no Congresso e atiçar as ruas contra o Legislativo.


Voltar


Comente sobre essa publicação...