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Sábado 24.out.2020

Ano IX - Nº 416

Brasil

Cristo da Mangueira: Quando absurdo é cotidiano, a verdade está no Carnaval

Homenagem da Águia de Ouro a Paulo Freire foi ato de resistência à burrice

Postado em 27 de Fevereiro de 2020 - Leonardo Sakamoto - UOL

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A Estação Primeira de Mangueira trouxe um dos mais contundentes carros alegóricos da história do Carnaval carioca, na noite do último dia 23. Um Jesus Cristo negro e jovem, com cabelo platinado, crucificado e crivado de balas. Ao seu lado, um negro, um indígena, uma mulher e um representante da população LGBTQI.

"A Verdade vos Fará Livres" foi o samba-enredo. A passagem do Novo Testamento, presente em João, capítulo 8, versículo 32, é a mesma citada - a torto e direito - por Jair Bolsonaro em sua campanha eleitoral de 2018. Contudo, ela rareou dos discursos presidenciais na mesma proporção que os nomes do faz-tudo da família, Fabrício Queiroz, e do miliciano recém-falecido, Adriano da Nóbrega, apareciam ao lado do de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, em denúncias e investigações.

O desfile trouxe críticas não apenas ao presidente, mas também ao naco fundamentalista cristão da sociedade, que não deve ser, em hipótese alguma, confundido com a maioria dos evangélicos. Maioria que não espera um "messias de arma na mão".

A Verdade é que Cristo morre, todos os dias, santos ou profanos, através do genocídio de jovens negros nas periferias das cidades. Mas também no assassinato de indígenas, camponeses e trabalhadores, no campo, e de mulheres e da população LGBTQI, em qualquer lugar. Para o conforto de muitos dos que se autointitulam "homens de bem".

Caso nascesse nos dias de hoje, Jesus seria qualquer um dos representados no carro alegórico acima. E o mundo o mataria em seu nome.

Quando defendi isso neste espaço pela primeira vez, há sete anos, quase apanhei na rua (expressão que deixou de ser figurativa neste Brasil em que a intolerância saiu do armário e foi eleita) por pessoas que estão tão dentro de suas caixinhas que não conseguem perceber a beleza presente nas palavras fundadoras de sua própria fé. Interpretam-nas usando a raiva e o rancor como decodificador, sendo que o próprio Cristo disse que a chave para entende-las seria amor.

Considerando que Jesus foi transgressor em sua época, se ele voltasse à Terra seria tudo aquilo que é considerado inferior, marginal, blasfêmico ou de segunda classe. Ou você acha que ele viria coberto de ouro e moraria nos Jardins ou na Barra da Tijuca?

Se houver um Deus, ele ou ela não morrerá de vergonha por causa daqueles que tocam a vida da forma que os faz mais felizes. Mas por conta dos que lançam preces e cantam musiquinhas para louvar seu nome - para, logo depois, censurar, ofender, cuspir, bater, esfolar e matar também em sua honra.

Esse Deus ou Deusa deve pensar que falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto. Pois está escrito no Evangelho de João, capítulo 3, versículo 17: "Deus enviou o seu filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele".

E como já disse aqui, se Jesus voltasse defendendo a mesma ideia central presente nas escrituras sagradas do cristianismo (e que, por serem tão simples, são descumpridas) e andando ao lado dos mesmos párias com os quais andou, seria humilhado, xingada, surrado, alfinetada e explodido. Ela seria chamada de mendiga e de sem-teto vagabundo, olhada como operária subversiva, alcunhado como agressor da família e dos bons costumes, violentada e estuprada, rechaçado na propaganda eleitoral obrigatória em rádio e TV, difamada nas redes sociais, censurado pela Justiça. Teria seu barraco queimado e toda sua vida transformada em cinzas em uma reintegração de posse. Seria finalizada como comunista, linchado num poste pela população em nome da fé e das tradições. Receberia socos e pontapés dos hoje autointitulados sacerdotes - uma parte dos supostos representantes dos interesses de Deus na Terra, que afirma lutar pelo direito de expressar suas crenças, quando quer o privilégio de vomitar seu ódio diante daquilo que acha que pode ameaçar seu controle sobre o povo.

E, ao final, alguém ainda tiraria uma selfie ao lado de seu corpo morto para postar no Instagram.

Estudei em escola adventista por nove anos e, ao mesmo tempo, participei ativamente da vida na igreja católica perto de casa. Carrego com carinho esses anos, pois ajudaram a formar minha visão de mundo e meu caráter. Hoje, não sou mais abençoado pelo dom da fé. Mas por conta do meu passado, sei razoavelmente bem o que está escrito nos evangelhos. E o discurso de intolerância que grassa na boca de muita gente não está na bíblia cristã, mas nas interpretações que tentam transformar nossa base da ideia da dignidade humana em submissão.

Perfis nas redes sociais que consideram um absurdo um messias negro (como se os judeus de dois mil anos atrás fossem brancos, de olhos claros e cabelo liso...) enchem a boca para falar que a solução para a criminalidade é "Bandido bom é bandido morto" e, diante do atendimento a uma pessoa em situação de rua, grita "Tá com dó? Leva para casa".

É, meu amigo, minha amiga. Se há um inferno, agindo assim, vocês vão me fazer companhia pela eternidade.

Como já disse aqui um rosário de vezes: se interpretássemos por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderíamos que toda essa violência é estúpida. O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Achei ótima a escolha do trecho do Evangelho pela Mangueira para o seu samba-enredo. Mas também poderia ser outro, presente no livro de Lucas, capítulo 23, versículo 34: "Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem".

"Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem Messias de arma na mão"

Nem desenhando fica tão claro.

Resistência à burrice

Quando historiadores forem estudar o nosso tempo no futuro (e espero que, no futuro, historiadores não tenham sido trocados por gestores de grupos de WhatsApp), irão descrever ações populares de resistência à burrice e à ignorância como fundamentais para impedir que a sociedade mergulhasse de cabeça nas trevas.

Isso foi visto pelo desfile da Estação Primeira de Mangueira e da São Clemente, no Rio de Janeiro, mas também no da Águia de Ouro, em São Paulo, que homenageou Paulo Freire, suscitando debates sobre o educador em pleno Carnaval. A escola de samba do glorioso bairro da Pompeia ganhou seu primeiro título do Grupo Especial.

Com o enredo "O Poder do Saber - Se saber é poder, quem sabe faz a hora, não espera acontecer", a Águia de Ouro trouxe a história do conhecimento para o Anhembi. Estampado em um livro à frente de um dos carros alegóricos, "Não se pode falar de educação sem amor. Viva Paulo Freire!". O suficiente para lembrar a importância do pernambucano, visto internacionalmente como um dos principais educadores do mundo, mas eleito pelo atual governo como um de seus piores inimigos.

Aliás, duas coisas no carro alegórico devem assustar gente no entorno de Jair Bolsonaro. Primeiro, o poder emancipador de uma educação lapidada com amor. E, claro, livros.

Em dezembro, o presidente da República chamou Paulo Freire de "energúmeno". Segundo o dicionário Houaiss, isso significa um ignorante, boçal, imbecil - o que faz da cena um poço amargo de ironia.

Cada vez que xinga Freire, o presidente provoca espasmos de prazer em sua militância que, como ele, não compreende a filosofia de ensino do educador. Como papagaios, repetem exaustivamente as críticas de militares da ditadura e de influenciadores da extrema direita sobre o pernambucano - esses sim compreendem o poder da concepção de Paulo Freire para que as pessoas formem-se nas letras e sejam cidadãs de fato. E, por isso, desejam enterrá-lo.

Como já expliquei aqui antes, a ideia do educador é tão simples quanto genial. Consiste - grosso modo - a usar a realidade dos alunos para ensina-los. Para aprender a palavra "tijolo", discute-se o que ela representa para todos - quem sabe fazer um tijolo, quem o compra, quem o vende, quem lucra com ele. Para entender a palavra "trabalho", pode-se incentivar o aluno a conhecer a CLT, seus direitos e deveres. Isso encara a educação não apenas como um processo técnico de passar dados, mas como um caminho para que todos possam exercer sua cidadania plena.

Por isso, é visto como subversivo por aqueles que preferem um povo que apenas diga amém.

Em Angicos, no Rio Grande do Norte, que contava com altas taxas de pobreza e de analfabetismo, um grupo de professores liderado por Paulo Freire ensinou 300 adultos a ler e a escrever e fomentou a percepção sobre os direitos trabalhistas e o direito ao voto em apenas 40 horas. Era o ano de 1963. Com o golpe no ano seguinte, os militares não deixaram que a ideia fosse implementada no plano nacional de alfabetização.

Ele é nosso acadêmico mais citado e nosso professor mais traduzido para outras línguas. Sua concepção de ensino é respeitada por professores em todo o mundo. Por aqui, apesar de criticado, ajudou a reduzir o analfabetismo após a redemocratização.

Como sempre digo, o Brasil conta com uma formação precária dos docentes e com alunos que saem do Ensino Médio analfabetos funcionais. Assiste a roubo, ausência e baixa qualidade da merenda escolar. Paga baixos salários aos professores e não fornece estrutura suficiente em todas as escolas, como esgoto e água potável.

Mas o governo resolveu travar uma batalha contra uma pessoa que dedicou sua vida a melhorar a educação e, nesse meio tempo, deixou o Ministério da Educação vazio. O Enem bichado que o diga. Os dois prepostos lá colocados serviram apenas desperdiçar tempo do país, substituindo a busca pela melhoria da educação básica e superior por debates que reescrevem o passado.

Como lembrou Águia de Ouro, conhecimento pode ser usado para a destruição ou a evolução da humanidade. A burrice, como manifestação da negação do conhecimento, avança enquanto governantes acham possível construir uma sociedade melhor e mais justa jogando na lata do lixo os instrumentos usados para refletirmos sobre nossos erros e acertos. Como uma educação emancipadora.

De longe, o futuro nos pede para que não deixemos isso acontecer.

Que as luzes do Carnaval sigam iluminando os demais dias do ano.


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