Semana On

Quinta-Feira 09.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna

Medalhas no pijama

André Lucidi fala de sonhos, projetos de vida e do que está ocorrendo agora mesmo a nossa volta

Postado em 26 de Fevereiro de 2020 - André Lucidi

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Era um garoto diferente dos outros. Logo aos onze anos de idade, quando toda criança começa a sonhar com o que vai ser quando crescer, observava seus coleguinhas de turma que diziam para professora que desejavam ser jogadores de futebol ou vôlei, ecologistas, biólogos, cientistas, professores, escritores, cineastas, jornalistas, matemáticos, médicos. Mas ele não respondia, simplesmente saia pela tangente sorrindo com o canto dos lábios e mostrando os dentes quase rangendo. Dizia assim, despreocupado, que quando crescesse ele saberia.

Bom, os anos passaram, sua turma foi adiante em seus sonhos e ele, repetiu de ano 5 vezes. De saco cheio de sustenta-lo em casa – que nem lavava sua própria roupa, arrumava a própria cama ou fazia sua comida - os pais tomaram uma decisão. Para, pelo menos, botar ele uma pessoa organizada, resolveram terceirizar sua criação. Disseram que teria que ir para as forças armadas.   Sem opção, aceitou a hipótese, pois a sensação de pertencimento a algo era vista como uma boa coisa, uma vez que seus coleguinhas de turma já não o cumprimentavam pela rua.

Bom, ele foi para as forças armadas, onde conseguiu se organizar, e encontrou um monte de gente como ele. Seus superiores o olhavam atravessado, uma vez que no meio dos mal vistos pelos militares de careira, exercia alguma liderança. Não tardou para que tentasse fazer uma confusão no quartel onde trabalhava e foi reformado. Seus pais não digeriram essa execração e o mantiveram fora de casa. Sem ter para onde ir e onde trabalhar, já adulto, se juntou com um monte de gente como ele e começou a usar todo o seu conhecimento para fazer algo, e então se especializou em segurança e armas. Tentou organizar uma polícia de segurança para os menos favorecidos. Com o tempo, seu empreendimento virou exploração, e quiseram acabar com sua oportunidade, mas já era tarde. Já havia se tornado um homem com algum poder relativo, desses que tem que ser vistos de perto.

Resolveu, então, abrir um cabaré. Solitário, acabou envolvido com uma mulher e com ela se juntou. Juntos, tiveram quatro filhos: Glockson, Wesson Smith, Carla Espartilha e Maria João. Cada um dos filhos e filhas, segundo o pai dizia orgulhosamente, com a característica e assinatura dos pais estampada no nome. Porém, logo cedo, os filhos começaram a demonstrar que não seriam como o pai. Glockson, resolveu que seria botânico. O pai foi veementemente contra. Wesson Smith, resolveu ser estilista. Novamente o pai foi contra. Espartilha, resolveu ser jornalista e, o pai, avesso aos comentários que faziam dele na cidade, se opôs veementemente. Já Maria João, por último, com um sorriso no rosto, disse ao pai que seria lutadora de vale tudo. O pai, pensou em seus espermatozoides, pensou na mulher, pirou e saiu de casa, abandonando a família e mudando de estado.

Sumiu por 50 anos e permaneceria anônimo, se os filhos, tendo cada um seguido sua profissão de vocação, não resolvessem encontrá-lo para que conhecesse os netos. Chegaram todos juntos a uma casa erma, em um local do cerrado de Brasília, onde, ao longe, identificaram um homem sozinho, idoso, sentado na varanda, ouvindo hinos militares. Chegaram todos juntos e aproximaram-se dele sem dizer uma palavra, cada um carregando suas crianças, e puseram um pijama no colo do pai. Ele olhou para todos, não disse uma palavra ou esboçou um sorriso. Devolveu o presente e só disse a todos uma frase:

“Só voltem aqui quando tiverem conseguido medalhas para o meu pijama”.


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