Semana On

Terça-Feira 02.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Coluna

O cabo de guerra da democracia no Brasil

Idelber Avelar fala sobre ataques a jornalistas e outros quetais

Postado em 26 de Fevereiro de 2020 - Idelber Avelar

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Quando um governo extremista ataca jornalistas, não há meio-termo! Não importa qual a sua crítica à matéria tal do jornalista tal. O aparato estatal está indo pra cima dele!

Por isso, reitero mais uma vez minha solidariedade a Patrícia Campos Mello. Minha solidariedade a Vera Magalhães. Minha solidariedade a todos os jornalistas de interior, Amazônia e cafundós do Brasil, que agora estão passando o pior.

O que eu puder fazer, por favor me avisem. Minha solidariedade às jornalistas.

RECUO SEM ALÍVIO

Bolsonaro recuou da convocação à manifestação golpista e orientou explicitamente os subordinados a não comparecerem e não divulgarem.

Isso não é "alívio" nenhum, evidentemente, apenas mais um testemunho do modo de funcionamento do bolsonarismo: tensionar o cabo de guerra contra a democracia o tempo todo, minar as instituições, ensaiar golpe, disseminar caos, dividir a sociedade, governar colocando um naco dela contra a outra e contra as instituições, MAS preservar a possibilidade de denegar, recuar sempre que necessário, desfazer, negar que fez, dizer que fez "só entre os amigos" e reiniciar todo o ciclo no dia seguinte, com outra estocada. É desmoralizante para a oposição, que fica correndo atrás, como no jogo chamado em quase todo o Brasil de "bobinho" ou "roda de bobo", mas que em Belo Horizonte preferimos chamar de "peru".

A oposição, o jornalismo e as agências de checagem são um peru com a cabeça decepada, correndo e zanzando atrás de uma bola. Como o bolsonarismo conseguiu isso?

O meme bolsonarista funciona suspendendo a distinção entre discurso constativo e discurso performativo. Em análises linguísticas tradicionais, estamos acostumados a diferenciar o que é o modo constativo do discurso, que tem lugar quando ele afirma algo sobre o mundo (“esta mesa é amarela”), e o modo performativo, que ocorre quando o discurso realiza uma ação sobre o mundo (“eu vos declaro marido e mulher” ou “Vai, Corinthians!”). Uma das chaves do bolsonarismo é a reiterada e deliberada confusão entre os planos constativo (no qual é possível dizer que uma afirmação é “falsa”) e performativo (no qual é inócuo fazer a distinção entre falso e verdadeiro), o que leva jornalistas, agências de checagem e profissionais das ciências sociais à estupefação e à impotência.

Claro que Jair, Carluxo, Weintraub et caterva jamais ouviram falar da distinção entre constativo e performativo. Mas isso não quer dizer que não saibam muito bem o que estão fazendo: dinamitar permanentemente a fronteira entre o que é afirmação sobre o mundo e o que é convocação a operar sobre o mundo. Se colar, colou. Se não colar, volta atrás e lança outra dinamite, reiniciando o ciclo.

ANTIDEMOCRÁTICOS

Dos ataques do bolsonarismo à democracia, acho que os dos últimos dias nos colocaram na situação mais perigosa até agora.

Uns dias atrás, Bolsonaro fez uma live que me pareceu a mais assustadora de todas: com a câmera mostrando-o de baixo para cima (magnificando, portanto, a imagem) e as veias do pescoço estufadas, Bolsonaro esbravejava contra a Rede Globo, a Folha de São Paulo e os jornalistas, com palavrões, xingamentos, impropérios e ameaças de não renovação de concessão. O sujeito falava com uma intensidade e desespero que sugeriam que ele ia chorar. Chegou a dizer "eu não tenho motivo para matar ninguém".

Hesitei entre circular ou não essa live aqui e decidi não fazê-lo, para não colocar Bolsonaro na minha página, mas a gravação é instrutiva. É um passo além nesse jogo bolsonarista de ataque incessante às instituições e subida de temperatura retórica.

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É muito grave o que General Augusto Heleno fez -- tagarelar sem cuidados sobre o Congresso como "chantagistas" e fazer chamadas a que Bolsonaro não fique "acuado" já é ruim o suficiente, mas pode acontecer com qualquer Ministro de qualquer governo.

Circular uma convocação contra o Congresso, com um vídeo que transforma o Presidente em uma espécie de mártir religioso, é coisa de canalha GOLPISTA (ah, se essa palavra tivesse em português a força que tinha 15 anos atrás!).

Não sei o que fazer, mas o mínimo é protestar, denunciar. Presidente e Ministro não podem convocar povo contra Congresso.

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Quem conhece a origem do bolsonarismo sabe que lá não se encontra o alto oficialato do Exército. Bolsonaro inspirou mobilizações de policiais, ex policiais, delegados, milicianos, soldados rasos, e até procuradores e juízes, mas não de oficiais do Exército.

Apesar das constantes referências ao Exército e da retórica militarista, Bolsonaro sempre foi desprezado por lá, como um "mau militar", como disse Geisel uma vez. É um cara que foi chutado pra fora pelo Exército!

Só quando já haviam se encontrado o Partido do Boi, o Partido Teocrata, o Partido da Polimilícia, o Partido da Lava Jato, o Partido do Mercado e o Partido dos Trolls Olavistas é que você vê algum movimento, discreto, de oficiais na direção do bolsonarismo.

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Bolsonaro trouxe-os para o governo e repetidamente HUMILHOU-OS, como fez com o General Santos Cruz, preterindo militares de alta patente por seguidores de um guru amalucado de internet. Depois tentou consertar trazendo o General Ramos. Manteve os olavistas malucos. Para piorar, o antigo decano da turma, General Augusto Heleno, assumiu-se conspiracionista aberto contra a democracia. Enquanto isso, o Presidente estimula motins de PMs Brasil afora e convoca manifestação contra o Congresso.

Mente quem disser que sabe o que vai acontecer, mas é um caldo desgraçado de feio e perigoso.

MUNDO DA LUA

Alô, conterrâneos! Alguém poderia ir ao Twitter e explicar ao Ministro da Educação em qual estado fica Belo Horizonte?

Grato.

MAPA DA SEMANA

Países em que é possível comprar uma arma de fogo legalmente sem licença.


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