Semana On

Segunda-Feira 26.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

A ditadura é mais letal que o Coronavírus

A verdadeira ameaça ao Brasil é a ruptura radical com as instituições que garantem o Estado Democrático de Direito

Postado em 26 de Fevereiro de 2020 - Ricardo Moebus

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Paira sobre nossas cabeças esta terrível ameaça do coronavírus que desembarcou nos últimos dias no Brasil.

Claro que isso preocupa todo mundo, uma virose altamente contagiosa e de alta letalidade, que já matou quase 3 mil pessoas, a imensa maioria na China, onde a pandemia começou.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já declarou emergência global, convocando todos os governos do mundo para um esforço internacional de controle da propagação da nova peste, que promote assolar a humanidade, como fazia muito tempo não acontecia.

A história da humanidade corre paralela e entrelaçada com a história das epidemias, sobretudo das viroses, que particularmente conseguem um poder maior de contágio, ao mesmo tempo que uma resistência maior aos tratamentos, se comparados às bactérias por exemplo.

Temos incontáveis exemplos, como a “gripe espanhola” de 1918, que teria sido possivelmente a maior pandemia da história da humanidade até o momento, tendo vitimado mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo.

No Brasil, desde o século XVI, repetidas epidemias, como o sarampo, tem vitimado de forma genocida os povos originários, configurando o que muitos historiadores consideram uma verdadeira “guerra biológica” contra os povos indígenas.

Ao mesmo tempo que pesa tal “sombra” da pandemia coronavírus sobre nossas cabeças, outra ameaça turva ainda mais o “céu azul anil” deste país.

A verdadeira e cada dia mais palpável e concreta ameaça de uma ruptura radical com as instituições que garantem o Estado Democrático de Direito.

Ou seja, a volta do Estado declarado de exceção, da ditadura escancarada.

A recente convocação de ato público contra alguns dos pilares da garantia dos direitos democráticos, a convocação de ato público contra o Congresso Nacional e contra as instâncias superiores ou máximas do judiciário, representa não apenas uma ameaça, mas uma atitude e uma ação pela implantação do autoritarismo obsceno, da nova versão requentada e mal passada de uma ditadura, supostamente em defesa da família e dos bons costumes.

Fato é que tal ameaça escancarada é mais aterrorizante que qualquer coronavírus.

Isto porque junto com o fim do Estado Democrático de Direito vai para o ralo os direitos sociais, a cidadania, a saúde pública, a educação pública, o respeito pelas diferenças, as políticas culturais plurais, a dignidade das minorias, o apreço pela sociobiodiversidade, a consideração decente pelos povos originários, as políticas públicas de preservação ambiental, as políticas sociais, a mínima distribuição de renda, a consideração da vida como direito de todos.

É desta maneira que a ditadura consegue ter uma “morbidade” e uma “letalidade” muito maior que qualquer coronavírus, não se trata apenas das terríveis perseguições políticas, da violência direta contra os cidadãos, na forma da repressão policial e militar a todas as formas de manifestação e/ou discordância. 

Sem contar que a “resistência ao tratamento” da ditadura é imensamente maior que a pior das viroses, da última vez ficamos adoecidos por mais de vinte anos.

Este ano de 2020 começou sob o signo infeliz da necropolítica que infecta e contamina o ar que respiramos, criando uma atmosfera mais sufocante que as piores doenças respiratórias. É uma nova modalidade de poluição do ar, a poluição necropolítica.

Possamos ter coletivamente a força, o discernimento, a clareza e a coragem de combater esta tragédia agora, o quanto antes.


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