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Sábado 28.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Coluna

Quando o cinema saboreia a riqueza de H.G. Wells

A ficção científica precisa da perplexidade. Wells a forneceu, e o cinema a projetou

Postado em 26 de Fevereiro de 2020 - Clayton Sales

Orson Welles em sua apoteótica transmissão de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, em 1938. Orson Welles em sua apoteótica transmissão de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, em 1938.

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Véspera do Halloween de 1938. A programação da rádio que tocava músicas dançantes era interrompida bruscamente. A voz solene e soturna do noticiarista estremece a América. O planeta era invadido por seres alienígenas gigantescos que aniquilavam os humanos como moscas. Durante uma hora, ouvintes se desesperaram com a narração assustadoramente realista para a época, acreditando que estavam prestes a ser exterminados. Tratava-se da encenação radiofônica de "Guerra dos Mundos", veiculada no The Mercury Theatre on the Air, programa comandado por um radioator chamado Orson Welles. O episódio se transformou em caso para estudos sobre a força sugestiva do rádio naquele tempo e sua capacidade de estimulação do imaginário. 

Mais tarde, "Guerra dos Mundos" ganhou versões cinematográficas, como a de Steven Spielberg, lançada em 2005. Além disso, ampliou o alcance da reflexão que a obra provoca, principalmente na referência aos processos colonizatórios que dizimam populações nativas mais vulneráveis. A espécie dominante na Terra, que tanto exterminou impiedosamente etnias humanas, animais e vegetação, experimentava a violência letal de criaturas "superiores", que a devoram para absorver seu sangue. Devoram sua maior riqueza, a vida. Invadir, exterminar e saquear. Felizmente, para os humanos, a natureza derrotou as coisas assassinas no livro. 

"Guerra dos Mundos" e suas criaturas marcianas compõem o repertório de um mestre da literatura de ficção científica: Herbert George Wells ou H.G. Wells (1866-1946). Da mesma fonte rica em saborosos delírios que alimentam rádio, cinema e televisão, vem uma das estreias nos cinemas. Com roteiro e direção de Leigh Whannell, o filme "O Homem Invisível" narra a história de Cecillia (Elisabeth Moss), que conseguiu fugir do casamento abusivo a que estava presa. Então, ela recebe a notícia que o marido, um gênio do ramo da Ótica, cometeu suicídio mas a mulher não acredita. O motivo é a estranha sensação de que alguém invisível a persegue e que pode ser seu esposo ainda vivo. A marca de H.G. Wells está presente no filme, mesmo sem um oportuno detalhamento, na ideia da invisibilidade da matéria. No livro de 1897, um cientista descobre como alterar a refração da luz sobre seu corpo e, assim, impedir as pessoas de o enxergarem.

Embora explorado pelo cinema e TV em várias ocasiões desde os anos 1930, desta vez, "O Homem Invisível" ganhou linguagem do suspense atrelada a uma trama que trabalha os efeitos psíquicos dos relacionamentos tóxicos. O agressor arquiteta meios de recuperar seu poder controlador e misógino sobre a mulher. Poder espectral, cuja ausência física, em vez de alívio, converte-se em motivo de corrosiva agonia. Quantas mulheres devem "sentir" a presença do ex-companheiro agressor mesmo com medidas judiciais protetivas. No filme, a invisibilidade de H.G. Wells é inserida em um enredo contemporâneo, provando que suas ideias são abertas a possibilidades muito frutíferas. 

O flerte do cinema com o universo fabuloso de H.G. Wells é antigo. O livro "Os Primeiros Homens na Lua" (1901) foi um dos referenciais para o clássico francês "Viagem à Lua" (1902) de George Meliès, considerado o primeiro filme de ficção científica da História. Nele, exploradores viajam numa cápsula rumo ao satélite natural da Terra e se deparam com a hostilidade da população lunar que os captura. Mais quatro adaptações foram produzidas pelo cinema e TV. Neil Armstrong pode ter dado o grande passo para a humanidade, mas na literatura e cinema de ficção científica, muita gente saltitou, perambulou e se meteu em encrenca sobre o astro que ilumina as noites e inspira o uivo dos lobos graças a H.G. Wells. A velha ambição do homem em conquistar territórios e subjugá-los como suas propriedades é o tema desse enredo.

A obra de H.G. Wells encanta os realizadores da sétima arte desde os primórdios por várias razões. Além de fontes abundantes de ideias para roteiros, suas narrativas desencadeiam reflexões sobre a condição humana diante de acontecimentos que desafiam a compreensão, sobre o desejo impetuoso de romper limites físicos e intelectuais, e sobre as formas contraditórias como o homem reage frente a forças maiores, como em "A Máquina do Tempo" (1895). No livro, um cientista usa conceitos matemáticos para desenvolver um dispositivo capaz de atravessar as épocas. O tempo é incontrolável mas não para H.G. Wells, nem para os cineastas George Pal e Simon Wells, neto de H.G. Wells, que realizaram suas versões cinematográficas da obra. Nem para Dr. Emmett Brown e seu endiabrado DeLorean em "De Volta para o Futuro" (1985). 

As relações de poder são quase uma constante na bibliografia de H.G. Wells, o que também atraiu o interesse dos produtores de cinema. Em alguns casos, seus livros escritos entre o fim do século XIX e começo do XX são vistos hoje como proféticos. "A Ilha do Dr. Moreau" (1896), por exemplo, aborda a obsessão de um médico por transformar animais em humanos através da dissecação de cobaias vivas. A história levanta a questão da ética nos experimentos com animais mas é possível chegar às experiências nazistas, motivadas pela noção de que a "inferioridade" de certos grupos justificava seu uso como ratos de laboratório. Judeus, comunistas, negros, ciganos, gays, eram "animais" à disposição dos doutores da carnificina. O cinema realizou oito adaptações, entre elas, as de 1977, dirigida por Don Taylor, e a de 1996, de John Frankenheimer. E foi a inspiração para um adolescente de 13 anos chamado Tim Burton criar uma de suas primeiras animações, um curta-metragem amador chamado "A Ilha do Doutor Agor". 

Se o cinema ajudou a popularizar ainda mais a obra de H.G. Wells ao longo de todo o século passado e nos dias atuais, é porque a sétima arte deve muito à fartura do escritor inglês. Desde os primeiros respiros, o cinema buscou alimento nesse universo caracterizado pelo extraordinário como gatilho para as inquietações humanas e as reverberando em diversos contextos. H.G. Wells é como oceano: imenso, intrigante e com bastante a ser descoberto e redescoberto. A sétima arte colocou seus navegantes para percorrer cada quadrante desse oceano. Dessa forma, o cinema presta a justa reverência ao mestre da literatura de ficção científica, gênero que traduz o anseio ancestral do homem em desvendar e inventar formas de responder a sua perplexidade. A ficção científica precisa da perplexidade. H.G. Wells forneceu perplexidade. E o cinema projetou a perplexidade para o mundo. 


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