Semana On

Quarta-Feira 01.abr.2020

Ano VIII - Nº 386

Entrevista

Um bate papo com Aroeira

"É impossível ser imparcial diante do fascismo, do preconceito, do racismo, da perseguição as mulheres e aos homossexuais, do autoritarismo, da raiva ao diferente."

Postado em 19 de Fevereiro de 2020 - Victor Barone

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Um breve perfil profissional. Como você começou, por onde passou e onde está agora.

Sou Renato Luiz Campos Aroeira: chargista, desenhista, ilustrador, cartunista e músico desde jovem. Sou de uma família que tem muitos cartunistas e músicos, e essa cultura familiar acabou me influenciando. Me preparei para ser físico e matemático, mas acabei nestas áreas. Comecei aos 11 anos, como ilustrador da minha mãe, em BH. Ela era pedagoga. Depois, mais velho um pouco, ilustrei as apostilas do meu pai, que era professor de desenho geométrico e artístico. E, como ele era jornalista também, mais tarde estreei em uma coluna esportiva que ele escrevia. Depois, passei para a charge política em um jornal de Minas. Fui pro Diário da Tarde, jornais do movimento estudantil e vim pro Rio de Janeiro, onde comecei no O Globo, fui pro JB e, depois, O Dia, onde fiquei 20 anos. Hoje, estou no site 247, onde publica diariamente.

Se inspirou em algum chargista?

Minha primeira inspiração foi um desenhista da Disney chamado Carl Barks, que inventou o Tio Patinhas, os Sobrinhos do Capitão, Professor Pardal, etc. Era um cara muito culto, que viajava muito e fazia historias maravilhosas que se passavam em todo lugar, sempre com muito detalhe no desenho e no conceito, Foi minha primeira referência nos desenhos. Só depois de anos percebi que estas historias também distribuíam o capitalismo. A partir daí, Luluzinha, Charlie Brown e Mafalda foram grandes campeões na minha cabeça, na construção de uma concepção de mundo e uma maneira de pensar o desenho.  Outra influência importante foi uma coleção chamada Gênios da Pintura, que meu pai me deu quando menino. Essa viagem pela pintura do ocidente me influenciou muito. Depois, vim a descobrir Chico Caruso, que modifica o cenário da caricatura nacional. Foi muito importante para mim.

Qual o papel da charge em um jornalismo preocupado com a construção de uma sociedade mais plural?

A charge tem uma função importante. Faz a denúncia, mas faz também a catarse, de forma que aplaca um pouco a indignação. Por outro lado, o papel que ela tem como denuncia, é importante, o papel que ela tem para castigar o poder. Castigat ridendo mores (a frase em latim geralmente significa "alguém corrige costumes rindo deles" ou "ele corrige costumes ridicularizando"). É verdade, e a charge se baseia nisso. É uma catarse, uma denúncia, a ridicularização do poder. Ela lembra ao poderoso que ele é apenas um ser humano como outro qualquer. Então este é o papel. Mas é um papel acessório.

A charge é uma ferramenta carregada de “posicionamentos” que levam o leitor a refletir sobre determinado tema. Concorda com esta afirmação?

Sim, concordo, e acrescento: o chargista é um moralista, ele tem sua concepção de mundo. Ele tem uma visão e levanta o pano da realidade para mostrar o que está por trás dela, mas sob seu ponto de vista. A charge, como qualquer constructo da sociedade, depende de onde você está sentado, observando. Mesmo a ciência, tão absoluta nas suas verdades, compreende isso muito bem. É tudo uma questão de ponto de vista.

Como o “mito” da imparcialidade se coloca para a charge? É possível ser “imparcial” diante do fascismo, do totalitarismo, do preconceito por exemplo?

Não existe imparcialidade. É um mito. Tudo depende do ponto de vista. Simplesmente não é possível ficar ausente do que acontece. Você vai ser envolvido, de uma forma ou de outra. A charge se coloca diante das coisas e é absolutamente impossível ficar imparcial diante do fascismo, do preconceito, do racismo, da opressão. Se alguém pisa em alguém, você não pode ficar quieto. Como disse um filósofo e médico alemão do século 20: “Há que ter uma gentileza para com a vida”, é preciso compreender o quão valiosa é a vida humana como um todo. Portanto, em absoluto, é impossível ficar neutro diante do fascismo, do preconceito, do racismo, da opressão, da perseguição as mulheres e aos homossexuais, da raiva ao diferente.

Como se dá seu processo criativo?

No caso do desenho, é diferente de outras atividades. Se eu vou pintar um quadro, se vou desenhar ou pegar meu instrumento para tocar, é uma coisa. Mas a charge, ela te conecta com a parte analítica. Eu sento diante do computador para ler os jornais (não leio impresso há décadas). E, lendo os jornais, os blogs da esquerda e da direita, acabo tirando minha conclusão. Sempre por um viés de esquerda – tomei esta decisão há muitos décadas. Mas, não deixo de ouvir o que o outro lado diz. Os filósofos do campo da direita, os individualistas de direita (não confundir com os fascistas) levantam as vezes questões éticas interessantes sobre o respeito ao indivíduo e a liberdade. Mas, sou um homem de esquerda, e penso como Paulo Freire: ideologia está em todo o lugar, mas sua ideologia inclui ou exclui? Tento seguir o que inclui. Portanto, o primeiro passo é pensar. Geralmente eu tenho os assuntos sobre os quais quero dizer algo, vejo as imagens que envolvem aqueles assuntos, como aquilo vai se formando. Tem inspiração, sim, mas tem muita análise sobre o que quero dizer.

Qual o papel das redes sociais na disseminação da charge?

Há anos não publico em veículos impressos. As redes sociais passaram a ser o canal de disseminação da charge por excelência. Hoje, eu só publico nas redes. A única maneira de distribuição das charges, hoje, são as redes sociais. Mas, elas também já trazem o sucessor das charges, os memes.


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