Semana On

Segunda-Feira 28.set.2020

Ano IX - Nº 412

Coluna

Ou os guardiões da floresta ou a terra inabitável

Os modos indígenas de existência são a experiência prática e cotidiana da sustentabilidade e da possibilidade de frear a catástrofe climática

Postado em 19 de Fevereiro de 2020 - Ricardo Moebus

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“A Terra Inabitável – Uma história do futuro” é o contundente título do livro de David Wallace-Wells sobre o aquecimento global, fundamentado em uma infinidade de dados, boa parte deles do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em ingles.

Parte do livro é dedicada a entender como é possível continuarmos levando a nossa vida normalmente, a cada dia, como se nada estvesse acontecendo, como se não estivéssemos participando ativamente da gestação desta catástrofe climática global anunciada, constatada, confirmada, e já em muitas ocasiões sendo vivenciada.

Reconhecer, admitir, constatar a questão do aquecimento global, ou da “mudança climática”, tem sido um grande desafio para toda a humanidade, por incontáveis fatores. Um deles é a superação da evidência meramente cotidiana ou do senso comum.

Vamos imaginar o que era no século XVI para o cidadão comum, o homem mediano, a proposta do heliocentrismo de Copérnico. Ora, o cidadão via o sol nascer, singrar o céu e se pôr todos os dias, era uma constatacão cotidiana, era óbvio que o Sol estava rodando em volta da Terra, o geocentrismo era algo da evidência cotidiana, do sensível imediato.

Logo, para pensar o heliocentrismo era preciso superar o óbvio, o evidente, o sensível imediato, era preciso desconfiar dos próprios sentidos, das próprias tradições, da própria fé. O que decididamente não é pouco.

De certa maneira, é um pouco como vivemos hoje a ideia da “mudança climática”. No inverno, nas noites frias, sobretudo para quem mora nas zonas temperadas, para quem está sentindo muito frio, para quem está desejando se aquecer, como pode ser catastrófico se a Terra esquentar 3 graus célsius? Como pode ser terrível se este aquecimento chegar a 5 ou 6 ou até 8 graus acima do atual?

É difícil de lidar com todas as previsões catastróficas dos climatologistas e seus calorosos debates para manter o aquecimento em no máximo 2 graus, e seus modelos matemáticos mostrando o que pode acontecer se isto for meio grau a mais ou meio grau a menos, e quantos milhões a mais irão morrer se isto for 1 grau para mais.

Ora, na nossa evidência cotidiana, quando o dia está mais quente, quando a temperatura sobe mais dois graus nada de muito grave acontece. Ou quando você viaja, e vai visitar algum lugar que seja 3 graus mais quente, ou até muito mais que isto, dependendo do local onde você vive, nada de grave acontece. Pode até mesmo ser muitas vezes sentido como agradável poder visitar um lugar que seja 4 graus acima da temperatura onde você vive.

Mas, o que ocorre, assim como no caso do heliocentrismo, é que o “aquecimento global” não é nada disto. A “mudança climática” não tem relação ou equivalência com a nossa experiência cotidiana de um dia mais frio e outro mais quente.

Porém, a situacão é muito mais difícil agora do que nos tempos da novidade do heliocentrismo. Isto porque no caso do heliocentrismo, esta aceitação não significava uma mudança radical no estilo de vida, uma necessária reprogramação da vida como um todo, sobretudo da matriz energética que comanda nossa estrutura civilizacional.

No nosso caso, a compreensão plena da “mudança climática” repercute diretamente em nosso modo de viver.

É preciso superar esta referência do cotidiano, podemos por exemplo, usar como um modelo mais próximo e mais adequado, comparando o “aquecimento global” com o aquecimento de um ser vivo homeotérmico, um mamífero, nós mesmos por exemplo, pois a Terra funciona como um ser vivo, já vem demonstrando a “hipótese Gaia”.

Neste caso, vejamos, nossa temperatura habitual é aproximadamente 37 graus. O que acontece se sobe 2 graus? Estaremos com 39, é uma febre que nos fará sentir muito mal. Mas e se isto sobe 3 graus? Estaremos com 40 graus, um estado febril que nos deixará muito combalidos, abatidos; mas, e se isto for para mais 4 graus? Então estaremos com 41 graus, isto poderá fazer todo nosso “sistema vital” começar a entrar em colapso, porque o modo como nossos sistemas vitais funcionam depende de uma estabilidade térmica, de uma faixa de temperatura, na qual todos os processos bioquímicos, biofísicos e fisiológicos são viáveis.

Assim também são os sistemas de controle e auto-regulacão climática do organismo Terra, ou Gaia. Tão sensível a este aumento de 4 graus célsius como nós mesmos.

Esta “febre planetária” levará todos os sistemas vitais presentes neste planeta ao sofrimento terrível, dramático, ao limite da insuportabilidade, ou até mesmo ao extermínio da vida como a conhecemos.

Enquanto caminhamos a passos largos nesta direção, um grande grupo de pesquisadores vinculados à Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica – COICA, na sigla em espanhol, vem demonstrando como a manutenção das grandes faixas de “carbono vivo”, o carbono encarnado nas grandes florestas, fortemente responsáveis pela manutenção da estabilidade climática, dos sistemas de auto-regulação climática, estão diretamente vinculados aos Territórios Indígenas.

Ali onde existe Território Indígena (TI) a proteção das florestas se multiplica, é o que fica demonstrado no documentário “Carbono Vivo”, disponível na internet.

Enquanto o atual presidente brasileiro insiste em repetir desrespeitosamente que os povos indígenas estejam “evoluindo” para “um ser humano igual a nós”, ou seja, que precisam deixar seus modos de vida por serem “pré-históricos”; enquanto isso, os estudos científicos mais avançados e sofisticados vão demonstrando como o modo de vida indígena é uma real via possível de garantia de futuro e viabilidade para a manutenção da vida neste planeta.

Os modos indígenas de existência são a experiência prática e cotidiana da sustentabilidade e da possibilidade de frear a catástrofe climática na qual nos estamos lançando coletivamente.


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