Semana On

Quinta-Feira 02.jul.2020

Ano VIII - Nº 399

Coluna

Obrigado, Alessandra Negrini!

Alguns dos piores argumentos em defesa de fantasias questionáveis

Postado em 19 de Fevereiro de 2020 - Rodrigo Amém

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O país está rolando ladeira abaixo. As milícias estão chantageando os governos estaduais. A democracia treme. Mas sou obrigado a falar da Alessandra Negrini, que usou seus super poderes de foliã-celebridade para criar um estado de exceção no entendimento de que "etnia não é fantasia". Desfilou garbosamente de maiô e salto alto com elementos que, pelo que pude averiguar, eram livremente inspirados na cultura Pataxó. Não sei quantas políticas públicas a influência sazonal de Alessandra Negrini conseguiu reverter, ou quantas tribos foram salvas pelo ato de resistência. Mas é necessário dar crédito onde crédito há. O ativismo momístico da atriz revelou uma faceta dos setores progressistas do nosso país: quando o debate sobre mudanças de hábitos e atitudes bate à nossa porta, a conversa pára. Quando o bicho pega, progressistas e conservadores falam a mesma língua. 

Compilei as principais bobagens ditas em defesa do direito da esquerda foliã de usar a segunda fantasia de carnaval mais preguiçosa da história (perdendo apenas para "jogador de futebol"):

"Não pode mais usar fantasia?"

A constituição brasileira garante a liberdade de expressão na forma da lei. Então você pode se fantasiar do que quiser. Não se trata de ter ou não permissão. A questão é que, quando você transforma a cultura de uma etnia em adereço para tomar skolbeats e urinar em público, alguns membros dessa referida etnia podem se sentir desrespeitados. Você não vai pra banda de Ipanema vestido de judeu hassídico, vai? Então, porque nossos irmãos indígenas não merecem a mesma deferência?

"Sempre teve fantasia de índio no carnaval! Porque só agora é problemático?"

Famosa falácia conhecida como "apelo às tradições". Aliás, importante indício de falta de argumento é a menção de "tradição". Porque sua vovó fazia e sua mamãe também, não é motivo para manter o hábito. Pelo contrário. Fumar era tradicional, casamento sem direito a divórcio era super tradicional. Talvez a mais longeva tradição na cultura brasileira tenha sido a escravidão. Repensar ações e costumes é fundamental para a evolução de uma sociedade. Sabe quem vive argumentando que tem que deixar "tudo como está" porque "sempre foi assim"? Pois é. 

"Querem cancelar o Cacique de Ramos! Tadinhos dos velhinhos sambistas da periferia!"

A maior parte dos que sugerem o fim do bloco carioca está usando a famosa "falácia do espantalho": quando você pega um argumento, distorce e ataca o resultado dessa distorção. Não. Ninguém quer acabar com o Cacique de Ramos. Pesquisando as redes, encontramos a origem dessa falácia numa entrevista de Luis Antonio Simas ao colunista Chico Alves, que parece cria-la a partir de uma outra falácia, chamada "declieve escorregadio", que funciona mais ou menos assim: "Se não puder mais ter fantasia de índio, vai ter que fechar tudo que tiver referência a índio, inclusive o Cacique de Ramos e time do Guarani. Um argumento imbecil? Sem dúvida, mas alguns trolls e equivocados correram com a bola, desviando o debate. Não, não se trata de proibir atividades alheias, mas de rever as próprias. E se "a mistura do sagrado com o profano há 60 anos" é justificativa suficiente para o bloco de Ramos manter o nome, bom pra eles. O mesmo acontece com o Washington Red Skins

 

"Ah, mas eu tenho um amigo dessa etnia que disse que não liga".

Esse argumento surge, creio eu, de uma confusão entre cultura e direito autoral. Parte do princípio que existe alguém que pode autorizar o uso do "copyright" dessa ou daquela etnia. É uma visão um pouco preconceituosa também, já que população nenhuma é monolítica em seus posicionamentos, particularmente as minorias. Imagine o que Sérgio Nascimento Camargo, novo presidente da Fundação Palmares, consideraria apropriado como fantasia no carnaval.  Do mesmo modo que ninguém pode autorizar black face, nem se todos os caciques do grupo de WhatsApp da Alessandra Negrini disserem que está tudo bem, estará tudo bem. Porque o princípio de deixar de ver o outro como "fantasia" é maior do que um posicionamento de uma determinada liderança. Se é problemático que uma etnia seja transformada em "fantasia", o mesmo deveria valer para todas, não acha?

"Isso é mimimi dessa bolha de privilegiados. No subúrbio ninguém está preocupado com isso."

A bolha dos nossos privilégios nos protege de diversas formas, sem dúvida. Mas é justamente em função desta posição que nos é permitido pensar a coletividade em suas nuances mais delicadas. Sim, talvez que esteja convivendo com milícias, água contaminada e desemprego não tenha tempo para pensar como seus hábitos podem ser prejudiciais para culturas com as quais temos pouco ou nenhum contato. É nesse momento que o privilégio vira responsabilidade. "Ah, mas é por isso que a direita venceu! A esquerda fica preocupada com bobagens!" Só porque não te impacta diretamente não significa que seja bobagem. Só porque sugere um segundo de reflexão sobre nossos próprios atos, não é mimimi. Sabe quem usa esse tipo de argumento? Pois é. E convenhamos, se a periferia não vota mais no PT, tendo a crer que não é por seus posicionamentos carnavalescos.

"Não tem problema porque é homenagem, protesto, etc."

Sabe aquela frase: "de boas intenções o inferno tá cheio"? Pois é. Alessandra Negrini pode estar cheia de boas ideias, mas sua fantasia bem intencionada legitima outras nem tanto. E, porque ela pode, também pode o assediador vestido de árabe, o bêbado de cocar, o bolsonarista de minisaia no criativamente batizado de "Bloco das Piranhas". "Ah, mas sempre foi assim, nunca teve problema". Não. Foi assim por tempo demais, sempre teve problema, a sociedade fazia vista grossa e agora tende a não fazer mais. Só pra reforçar, continua sendo permitido machista se vestir de mulher e se comportar como "piranha". Minhas amigas mulheres dizem que tá autorizado.

"Mas assim vão acabar com o Carnaval!"

Não vão acabar com nada, não. Fica tranquilo. A quantidade de gente fantasiada cai ano a ano por vários motivos não identitários, necessariamente. A maior parte dos foliões simplesmente não quer perder tempo e dinheiro que poderiam ser mais bem alocados na compra de Skol litrão. Aliás, é por isso que a fantasia de índio é ainda tão popular. É barata, tá pronta no camelô. Não tem que pensar. Além do mais, se fosse só proibir cocar para acabar com o carnaval, algum governo militar teria tomado essa providência há mais tempo. Fica tranquilo.

Resumo da ópera: em defesa do direito de não ter que repensar escolhas, uma boa parte da esquerda e da direita "progressista" virou bicho nas redes sociais. Usou argumentos falaciosos e intelectualmente desonestos para defender o que não precisava ser defendido. E a isso agradecemos Alessandra Negrini: por nos lembrar que nós e os apoiadores do governo não somos tão diferentes assim. Estamos prontos para apontar o dedo e exigir mudanças no outro lado e viceralmente propensos a defender nossos próprios costumes questionáveis. 

Em tempo: pessoalmente, lamento pelas aves que perderam as plumas para tanto cocar inútil.


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