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Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

O cinema folião do Brasil

“O que importa não é a realidade mas o que a imaginação pode extrair dela”

Postado em 19 de Fevereiro de 2020 - Clayton Sales

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No alto do morro carioca, a comunidade imerge na folia. Está na pele, povoa o espírito. Moleques brincam nas ruas, comerciantes aproveitam o clima para aquecer as vendas, rodas de samba eclodem como gêiseres em cada viela. A música impregna o ar com lufadas de uma ofegante epidemia que se chamava carnaval. Sob essa atmosfera, os sorrisos arreganhados dos favelados revelam como o festejo é vital. É o desafogo aguardado após um ano de penúria, quando Baco, finalmente, ganha sua reverência na alegria fugaz do pobre. Em meio a isso, o enredo trágico com ventos poéticos envolve um condutor de bonde e sambista, e uma jovem meiga e assolada por uma presença espectral.

Orfeu e Eurídice saíram da mitologia grega, fizeram escala nos versos de Vinícius de Morais e ganharam a fantasia real da periferia brasileira dos anos 1950 graças às lentes de Marcel Camus. O cineasta francês realizou "Orfeu Negro" (1959), longa-metragem que marcou época por conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro, representando a França. É o único trabalho em língua portuguesa a ganhar o prêmio, foi rodado no Rio de Janeiro e tem elenco quase todo brasileiro, como o protagonista vivido por Breno Mello. Ele contracenou com Marpesa Dawn, americana radicada em Paris e que teve suas cenas dubladas. Clássico nacional, relíquia global.

Antes, o cinema brasileiro já apontava as câmeras para a folia de Momo. A favela virou cenário com sua gente sofrida mostrada em "Favela dos Meus Amores" (1935) de Humberto Mauro. O pano de fundo é o cotidiano azul e branco da Portela, inserindo pela primeira vez a periferia na tela. Conquistou grande sucesso de público, ainda mais com Ary Barroso, Orestes Barbosa e Silvio Caldas puxando a trilha sonora.

Pouco demorou para a Cinédia raptar o Carnaval para os salões da alta sociedade ao conceber "Alô, Alô, Carnaval" (1936) de Adhemar Gonzaga, produção emblemática do período das chanchadas em que desfilaram Carmen Miranda, Francisco Alves e Lamartine Babo. E o que pode ser mais divertido que parodiar um gênio do cinema? "Carnaval Atlântida" (1952) coloca a versão satírica de Cecil B. De Mille às voltas com dois faxineiros loucos para que o enredo enfadonho do cineasta vire a maior comédia carnavalesca. Com Oscarito e Grande Otelo, foi fácil.

O Cinema Novo surgiu com a proposta de mais realidade e menos festa em seu cinema profundo e politizado. Porém, sobrou um pequeno espaço para uma referência ao Carnaval em "Cinco Vezes Favela" (1962), série de cinco curtas-metragens sobre a dureza dos entornos da cidade maravilhosa. Um deles é "Escola de samba, alegria de viver" de Cacá Diegues, que comandou outra obra carnavalesca nos anos mais tenebrosos da ditadura brasileira. Chico Buarque, Maria Betânia e Nara Leão estrelaram "Quando o Carnaval Chegar" (1972) e colocaram suas vozes a serviço da sutil esperança de dias mais felizes para o país. 

O carnaval é traço genético da cultura brasileira, o gozo de alforria libertado quando o povo ocupa as ruas para seu culto à alegria. O carnaval se diversificou, foi apropriado pelas elites, virou indústria, mas sempre será o mágico momento em que uma energia sobrenatural sequestra o corpo e move pés e quadris. O cinema nacional captou o sentimento da gente suburbana quando chegam os doces dias de fevereiro ou março, mesmo ciente da sua efemeridade. Enfeitou os clubes requintados das chanchadas com máscaras, gravatas e glamour. Encarou as trincheiras da resistência nos tempos encarniçados da censura. Levantou inquietações dos subúrbios de cidades brasileiras como Salvador e transformou o Carnaval baiano em colorida paisagem para dramas e fugas de seus moradores, como em "Ó, Paí, Ó" (2007) de Monique Gardenberg.

Charlie Chaplin afirmou que, em um filme, o que importa não é a realidade mas o que a imaginação pode extrair dela. Cinema e carnaval são conectados pela capacidade alucinante de aflorar histórias e resgatar das sombras verdades que apenas a imaginação é capaz de remexer. E conectados pelo cinema fornecer personagens que se arrastam em êxtase nos cordões carnavalescos pelo país festivo, bailando ao som de sambas, axés, frevos e marchas. Que o digam os Carlitos da folia, fazendo irreverências mil nas noites do Brasil. 


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