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Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Mundo

Candidato de Evo Morales lidera intenção de voto para Presidência da Bolívia

“Os EUA não admitem independência no seu quintal”, diz ex-presidente

Postado em 18 de Fevereiro de 2020 - O Globo, Carta Capital - Edição Semana On

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O candidato do ex-presidente Evo Morales, Luis Arce, consolidou-se como favorito para o primeiro turno das eleições presidenciais na Bolívia, em 3 de maio, com uma vantagem de 14,5 pontos percentuais sobre o segundo colocado, o ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005). A pesquisa de intenção de voto foi divulgada no domingo, um dia antes do prazo final para que a Justiça Eleitoral anuncie quais candidaturas foram consideradas aptas a participar do pleito.

Segundo os números do instituto Cies Mori, Arce aparece com 31,6% dos votos, seguido pelo centrista Mesa, com 17,1%, e pela autoproclamada presidente interina Jeanine Áñez, com 16,5%. Em quarto lugar está o ultradireitista Luis Fernando Camacho, com 9,6% das intenções de voto e, em quinto, o também conservador e pastor evangélico Chi Hyun Chung, com 5,4%. Os outros candidatos ficaram abaixo de 2%.

Na Bolívia, se um candidato tiver mais de 40% dos votos válidos, com uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado, ele será eleito presidente em primeiro turno. Caso contrário, haverá segundo turno no dia 14 de junho. A pesquisa anterior, divulgada em janeiro, mostrava Arce — visto como pai da recuperação da economia boliviana — com 26% das intenções de voto, seguido por Camacho e por Mesa, ambos com 17%. A quarta posição da pesquisa do instituto Mercados y Muestras era ocupada por Jeanine, com 12%. Uma vitória de Arce no primeiro turno tenderia a unificar os demais candidatos em torno do seu adversário.

O candidato de Morales lidera a pesquisa em cinco departamentos (estados): La Paz, Cochabamba, Potosí, Oruro  e  Pando.

Em La Paz, Arce chega a 49,7% dos votos, enquanto Mesa teria 16,6% e Áñez apenas 7,2%. O pior cenário para o partido de Morales é em Santa Cruz, reduto de Camacho, onde Arce ficaria em terceiro lugar, com 19,5% dos votos, muito abaixo do ultradireitista, com 28%, e Áñez, com 26,3%. A presidente interina ganharia em Beni, seu estado natal, onde contaria com 40,9% dos votos — seguida de Arce (8,8%) e Camacho (7,2%) — e em Tarija. Mesa, por sua vez, venceria apenas em Chuquisaca, com 31%.

A pesquisa divulgada no domingo foi encomendada pelo jornal El Deber e pelo canal de televisão Unitel e entrevistou 2.224 pessoas entre os dias 7 e 14 de fevereiro nas capitais dos nove departamentos do país. A margem de erro é de 2,07%.

Arce viajou a Buenos Aires para uma reunião com a cúpula do MAS e organizações sociais aliadas para discutir a estratégia comunicacional da chapa. Segundo o candidato, os líderes presentes no encontro apresentaram um relatório sobre como a economia de cada região vem caminhando para uma situação de crise e instabilidade “devido a erros do atual governo”.

“Estamos comprometidos em garantir uma economia em crescimento”, escreveu no Twitter o ex-ministro da Economia durante os governos do MAS. 

En la reunión del MAS-IPSP, en Buenos Aires, los dirigentes dieron un informe sobre cómo la economía de sus regiones se encamina hacia una crisis e inestabilidad por errores del actual gobierno. Nos comprometemos a garantizar una economía en crecimiento. pic.twitter.com/1M4kpIfWV8

— Lucho Arce (@LuchoXBolivia) February 17, 2020

Morales, que recentemente retornou de Cuba, onde recebia tratamento médico, afirmou que os líderes da legenda concordaram durante o encontro que a melhor estratégia da campanha “é a unidade da militância em torno do nosso programa político”.

O ex-presidente, que teve sua candidatura para disputar o Senado desautorizada pelo Supremo Tribunal Eleitoral boliviano nesta semana. O argumento principal é que o ex-presidente não cumpre o requisito de ter uma residência permanente em Cochabamba, a região da Bolívia que pretendia representar.  O Movimento ao Socialismo (MAS), partido do ex-presidente, já tinha antecipado que os juízes eleitorais inabilitariam seu líder, e também havia anunciado que recorreria da sentença perante tribunais internacionais.

As eleições de maio foram convocadas extraordinariamente após a renúncia de Morales, no dia 10 de novembro de 2019. O ex-presidente, que governou a Bolívia por quase 14 anos, obteve uma vitória controvertida nas eleições presidenciais de 20 de outubro, nas quais concorria a um quarto mandato. Naquele pleito, Mesa ficou em segundo lugar. Uma auditoria da OEA encontrou irregularidades que precipitaram a renúncia, após protestos da oposição, uma greve da polícia e um ultimato militar.

Junto com o então presidente e seu vice, os líderes da Câmara e do Senado também abdicaram de seus postos, abrindo uma vacância no poder. Jeanine Áñez, em seguida, se declarou presidente interina no país por ser a segunda vice-presidente do Senado, numa sessão sem quórum no Congresso. Após muita pressão, ela convocou as novas eleições para maio.

Nesta semana, a Procuradoria Geral do Estado enviou ao Ministério Público de La Paz uma denúncia de fraude eleitoral contra Morales, o ex-vice-presidente Álvaro García Linera e os ex-ministros Juan Ramón Quintana, Carlos Romero e Héctor Arce. A queixa foi apresentada por Mesa, que ficou em segundo lugar no pleito, por um dano econômico de 217 milhões de bolivianos pela anulação das eleições.

Americanos

Evo Morales reaprendeu a coar café e a costurar as próprias roupas, mas ainda não se acostumou com o exílio que dura três meses. “Por mais que haja solidariedade e apoio, a gente está sempre com a cabeça na família boliviana”, suspira.

No último dia 10, o presidente da Bolívia deposto pelos militares embarcou em um voo para Cuba, um breve interregno na estada na Argentina, após passagem pelo México. Candidato ao Senado, Morales comanda a distância a campanha de Luis Arce.

O sindicalista entra, porém, na disputa com o pé atrás e não descarta um novo golpe, a depender do resultado das urnas. “Os Estados Unidos não fizeram tudo para que seus aliados fiquem sete ou oito meses no poder e o devolvam a nós”, afirma o ex-presidente.


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