Semana On

Sábado 24.out.2020

Ano IX - Nº 416

Entrevista

"Só se fala da Amazônia quando há uma tragédia", diz Jorge Bodanzky

Cineasta fala sobre seu novo documentário, que foca a preocupante contaminação por mercúrio na Amazônia, e afirma que a sociedade brasileira fecha os olhos para o que acontece na floresta.

Postado em 18 de Fevereiro de 2020 - João Soares - DW

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O cineasta Jorge Bodanzky foi um dos primeiros diretores a filmar na Amazônia. Produzido em 1975, durante a ditadura militar, Iracema: uma transa amazônica é um marco do cinema brasileiro até hoje. A floresta seguiu inspirando a obra do documentarista de 78 anos, que agora finaliza seu novo filme. Em Amazônia: a nova Minamata?, ele lança o olhar para um perigo invisível: o envenenamento pelo mercúrio utilizado no garimpo.

Para revelar a dimensão do problema, o cineasta acompanhou o trabalho de um neurocirurgião de Santarém, Erik Jennings, e uma equipe da Fiocruz que monitora os níveis de contaminação nas populações locais, indígenas e ribeirinhas. O maior perigo está no consumo de peixe, principal alimento da região, mas o ar também tem rastros de contágio. Uma vez ingerido, o mercúrio fica no corpo definitivamente, e as consequências a longo prazo são trágicas.

No filme, Bodanzky recorre a imagens do Desastre de Minamata, no Japão, para mostrar o que pode estar no horizonte. A contaminação de uma baía cercada por vilarejos de pescadores, em 1956, deixou um rastro de mortes e sequelas neurológicas permanentes. Equipes acompanhadas pelo cineasta já registram casos desse tipo no Brasil e alertam para a tendência de agravamento da situação nas próximas décadas.

"Está se criando na Amazônia uma cidadania de segunda classe. São pessoas que já entram prejudicadas, crianças que já nascem sem as condições de inteligência e mobilidade de uma criança normal, e irão se tornar adultos deficientes", constata Bodanzky.

O documentário está em fase de finalização e deve ser lançado no segundo semestre deste ano. O cineasta fala sobre a concepção do novo filme, as diferenças entre a Amazônia dos anos 1970 e a dos dias de hoje, e a ofensiva do governo Jair Bolsonaro contra o setor audiovisual.

 

Como surgiu a ideia deste novo filme?

Foi há cerca de dois anos, quando eu estava filmando uma série de seis capítulos para a HBO na região da Transamazônica. Na terra dos índios Munduruku, havia uma grande reunião de caciques para festejar a vitória de barrar temporariamente o projeto de uma hidrelétrica.

Estava lá o procurador federal Camões Boaventura, que deu suporte jurídico a essa ação. Ele estava acompanhado por um médico. Em um primeiro momento, não entendi o que um médico estava fazendo ali, já que a temática era política. Conversando com ele, o doutor Erik [Jennings], soube que estava pesquisando a questão do envenenamento por mercúrio. Foi então que tive uma primeira ideia da dimensão desse problema. Comecei a pesquisar o tema, que, em seguida, foi transformado em um documentário longa-metragem.

Mesmo conhecendo a Amazônia há quase 50 anos, trabalhando em fotografias, reportagens e filmes, eu não fazia ideia da dimensão do problema como está hoje. Como o Erik fala, o mercúrio é a ponta do iceberg, pois a partir dele chega-se a todos os problemas da Amazônia. O primeiro é a questão jurídico-política, da posse da terra, de como o governo está cuidando das questões amazônicas, passando pelas queimadas, hidrelétricas, ocupação do solo, pecuária, soja, além da questão indígena e da saúde. Tudo desemboca no mercúrio. É um termômetro perfeito para se analisar esses problemas todos.

Por que a escolha da comparação com a tragédia de Minamata, no Japão?

Esse episódio ocorreu há 40 anos, quando uma indústria química derramou metil-mercúrio na baía de Minamata, rodeada por vilarejos de pescadores. Eles comeram o peixe contaminado e, naquela época, não se tinha conhecimento desse dano. Como o Japão sofreu isso de forma muito violenta, eles têm um conhecimento acumulado muito grande. São 40 anos de pesquisas sobre isso.

No filme, pretendemos mostrar que os sintomas vistos agora na Amazônia indicam o mesmo que ocorreu em Minamata. Então, é possível prever o que será daqui a dez, 20, 30 anos na Amazônia, a partir do que houve no Japão. Os danos do mercúrio são neurológicos e irreversíveis. Uma vez estabelecido no corpo, não há o que curar.

Como o Erik fala, está se criando na Amazônia uma cidadania de segunda classe. São pessoas que já entram prejudicadas, crianças que já nascem sem as condições de inteligência e mobilidade de uma criança normal, e irão se tornar adultos deficientes.

A dimensão do problema parece ser ainda subestimada no Brasil.

Sem dúvidas, inclusive pelas pessoas que estão lá. É uma questão interessante, porque não se pode alarmar a população. Se não pode comer peixe, vai comer o que? É o alimento principal deles, não tem alternativa. Não se pode gerar um pânico, dizendo que está tudo contaminado. Mas é possível alertar aos poucos, para se ter uma noção. Eles já fazem isso. As lideranças indígenas que encontramos sabem perfeitamente o que está acontecendo.

Uma coisa que também me preocupa muito é o que se pode fazer para mitigar o impacto da contaminação do mercúrio. O Erik enfatiza a importância de fazer isso com eles, pois são quem têm um conhecimento maior. A ciência, por sua vez, pode dizer que determinados peixes estão menos contaminados. De toda forma, a solução não existe.

A gente foi junto com a Fiocruz à cidade de Santarém, cuja população come o peixe, e também estivemos com comunidades de pescadores no entorno que já têm evidências claras do envenenamento por mercúrio. A substância não vem só pelo peixe, mas também pelo ar, quando evapora. As concentrações no ar da Amazônia são acima do tolerável.

Esse problema é ainda mais grave no Peru, Colômbia e Venezuela. Os rios que vêm desses países desembocam, todos, na bacia do Rio Amazonas. Mesmo que, por um milagre, conseguíssemos resolver o problema no Brasil, a água já entra aqui contaminada. É preciso um trabalho panamazônico, em conjunto com esses países todos. O filme mostra, inclusive, que a contaminação não é só por mercúrio, mas vários metais pesados que estão na água e também são transportados pelo peixe.

Quais são as principais diferenças e permanências entre a Amazônia que você conheceu ao filmar Iracema e a que está registrando agora?

A diferença é muito pequena. Todos os problemas de hoje já existiam naquela época. Simplesmente aumentaram em escala. A segunda distinção é uma maior organização da sociedade civil. Durante a ditadura civil-militar, não havia a possibilidade de uma organização civil, era impossível. Depois de 45 anos, os indígenas têm uma representatividade e maior consciência dos problemas que eles precisam enfrentar. O mesmo acontece com os ribeirinhos e toda a população do interior da Amazônia.

Em qualquer lugar, há uma comunidade organizada, com representação. Isso não existia, e é um dado muito importante, porque não dá para esperar qualquer coisa do governo. Do atual, muito menos, mas dos anteriores também. Só essa pressão da sociedade civil poderá pôr um limite ao que está acontecendo e propor novos parâmetros para a Amazônia. Não estou dizendo que é a solução, mas é o que observo e está acontecendo de diferente do que acontecia há 30 anos.

É mais hostil filmar na região hoje do que durante a ditadura militar?

Quando a gente filmou Iracema, estávamos em uma área de segurança nacional, e havia o medo de ser preso por estar sem autorização. Hoje é muito parecido, porque não dão mais autorização para entrar em áreas indígenas. A Funai não está operacional, então, teoricamente, não se pode entrar. No nosso caso, a gente conseguiu ir porque, oficialmente, fomos acompanhar a equipe da Fiocruz. Nem mesmo para o Erik entrar conosco deram licença. Só foi possível porque uma procuradora de Santarém entrou com um mandado de segurança.

Está se repetindo uma situação de querer isolar a região, o que é um absurdo, pois os bandidos entram sem o menor problema, mas não deixam entrar o pesquisador ou o jornalista. A hostilidade existe, dependendo de que lado você está. Fizemos nossa base em Itaituba para ir até a área do Tapajós, e a cidade é totalmente garimpeira. Se você falar lá que está fazendo um filme crítico ao garimpo, eles não permitem. O piloto do avião que alugamos disse: "Se for para falar mal de garimpo, não levo vocês."

Você acredita que a exploração econômica da floresta pode ser conciliada com a preservação da biodiversidade e das culturas locais?

Sim, desde que de forma articulada, com a aplicação de conhecimento e tecnologia que permitam a sobrevivência dessa biodiversidade, ao mesmo tempo que se extrai dela ativos econômicos. O cientista Carlos Nobre sempre lembra o exemplo do açaí, mas existem mil outras coisas que os cientistas acreditam ser possível explorar, só que ainda não foram pesquisadas. Tem que haver um investimento em cima disso. Agora, achar que se pode colocar uma cerca e ninguém vai fazer nada é ingênuo.

Fala-se muito que os índios são os guardiões da floresta, porque a protegem em suas terras, e de fato, são. Mas parte dos índios, hoje, está cooptada pelos madeireiros e o garimpo. Tem lideranças indígenas que são absolutamente a favor do garimpo, porque ganham dinheiro com isso e querem viver de outra forma. Achar que o índio é uma coisa só, e que todo índio tem que viver da caça e da pesca representa uma visão ingênua. A juventude está lá, quer o telefone celular, tem informação. Não se pode obrigá-los a viver de determinada forma e, de preferência, andar nu, para termos a certeza de que está tudo preservado.

Existem muitos modelos que preservam a cultura e dão a chance para que eles tenham participação na nossa cultura. É perfeitamente possível fazer isso, desde que eles tenham isso organizado e tenham acesso a participar desse desenvolvimento e essas tecnologias.

O que ocorre na Amazônia, insistentemente, é uma visão imposta de fora para dentro – venha do governo, do setor privado ou do exterior. Todo mundo conhece e tem uma solução para a Amazônia. Depois, querem que os habitantes da floresta acompanhem essa visão e essas regras. Eles nunca são consultados, e são quem têm o conhecimento. Eles vivem lá e sabem exatamente o que fazer lá.

Por que não fazer eles participarem da pesquisa, do desenvolvimento da proposta econômica? Esse Conselho [da Amazônia] presidido pelo general [Hamilton] Mourão não tem ninguém da sociedade amazonense. As ideias vêm da cabeça deles e, de novo, serão impostas de fora para dentro. Isso não funciona.

Apesar da comoção despertada pelas queimadas do ano passado, a sociedade brasileira fecha os olhos para o que acontece na floresta?

Bastante. Só se fala da Amazônia quando há uma tragédia, e geralmente é apontado do exterior para cá. O Brasil enxerga a Amazônia como um grande celeiro. É a nova área da soja, da madeira etc. O olhar sobre a região sempre foi extrativista, sem levar em consideração as culturas locais, seja dos indígenas ou ribeirinhos. Apenas se cria um alarme aqui dentro quando o alerta acende primeiro lá fora.

As queimadas sempre existiram em maior ou menor intensidade. A partir dos anos 1990, o trabalho do Ibama e do ICMBio tinha mais condições de combater isso, mas elas não pararam, só reduziram em escala. E voltaram a crescer porque o governo incentiva isso, à medida que se isenta de multar e desaparelha os órgãos de fiscalização.

A porteira foi aberta, com a seguinte mensagem: podem ir, que nada vai acontecer com vocês. Exemplo disso é o "Dia do Fogo". Isso vale para o desmatamento, o garimpo, a soja, tudo. Não que não houvesse antes, mas está tendo mais. Acho muito ingênuo da nossa parte achar que isso vai mudar. Apesar da pressão externa, inclusive em Davos, a situação não muda a médio prazo, porque é uma posição profunda desse governo. O Conselho da Amazônia, criado recentemente para dar uma resposta a essa pressão, não tem projeto. O objetivo é apenas dar a aparência de que o governo tem alguma preocupação com isso.

Como você avalia o momento atual do cinema brasileiro, em meio à ofensiva do governo contra o setor?

A gente está passando por uma virada violenta. Eu diria, até, que repetindo um pouco o que aconteceu com o desmonte da Embrafilme, no governo Collor. O cinema brasileiro se apoiou muito nessa agência, que dominou o financiamento e a distribuição dos filmes por um longo tempo. Quando ela acabou, de um dia para o outro, houve um baque. Estamos repetindo um pouco isso. O cinema brasileiro estava muito dependente dos editais, que são positivos. Não tenho nada contra esse modelo, mas mudou o governo, e fecharam os editais.

Paralelamente a isso, tem um fenômeno muito interessante, que são as empresas de streaming: Netflix, Amazon, HBO. Estão todas concorrendo e são plataformas de documentário também. Então, acho que o documentário nunca teve tanta possibilidade de financiamento e exibição como agora. É preciso estar atento a essas formas de produção bem diferentes. São empresas fortes, que podem impor com muita força uma estrutura de produção, dependendo de como você negocia e se posiciona em relação a isso.

É exagerada, portanto, a reação do setor às medidas do governo Bolsonaro?

É evidente que se trata de uma questão dramática, porque muita gente está sem trabalho, sem dinheiro. As produtoras estão com as mãos na cabeça. Meu ponto é: a vida é muito dinâmica. Não se pode ficar lamentando uma situação prevista até certo ponto. Você não pode falar mal do governo e querer fazer isso com dinheiro dele, não existe. Se quer ser crítico, tem que ser independente.

Mas eu acho que o cinema brasileiro está muito forte, muito dinâmico. Então, vai passar por esse baque, mas pode até sair fortalecido, porque vão se encontrar formas mais atuais de produzir. A produção toda focada no incentivo limita muito, porque o filme tem dificuldades de se colocar no mercado por não ter coprodutores. Se você olhar o letreiro dos filmes europeus, vai ver que quase todos são coproduções de vários países, de várias instituições, e o mesmo se observa nos Estados Unidos. A gente ficou muito fechado, como se fosse uma reserva de mercado, que de repente acabou.

Todas as mudanças tecnológicas profundas, como as que vivemos hoje, têm vários lados. A adaptação vai ter que ser permanente. Hoje, temos o streaming. Daqui a cinco, seis anos, haverá outra coisa. Essa plataforma pode ser uma ponte, mas não resolve o problema de ninguém. O mais importante no audiovisual hoje é expressar o conteúdo. Se a história for bem contada, vai naturalmente encontrar seu produtor e seu exibidor.


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