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Sexta-Feira 05.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Poder

O Palácio do Planalto virou um puxadinho do QG do Exército

Ao se cercar de militares no Planalto, Bolsonaro reduz capacidade de diálogo político

Postado em 14 de Fevereiro de 2020 - Debora Álvares (Huffpost), Ricardo Noblat (Veja) - Edição Semana On

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A reforma ministerial esperada neste início de ano colocou no caminho um fato inusitado, não visto desde 1981: um militar na Casa Civil. O general Golbery do Couto e Silva havia sido o último militar na pasta, indicado no governo Ernesto Geisel, e deixou o cargo quando o Brasil ainda estava sob a ditadura militar. 

Mais que isso: ao transferir o até então chefe desta pasta, Onyx Lorenzoni, para o Ministério da Cidadania, e, em seu lugar, colocar o general Walter Braga Netto, o presidente Jair Bolsonaro cerca-se de um núcleo palaciano todo com formação militar. Ele se junta aos generais Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), e ao major da Polícia Militar Jorge Oliveira. 

A escolha de Bolsonaro por um militar para a Casa Civil deveu-se a um entendimento do presidente de que a pasta precisa de alguém com uma capacidade maior de “cobrança”. O mandatário viu em Braga Netto, que comandou a intervenção militar no Rio de Janeiro em 2018 e recebeu avaliação positiva da missão, a pessoa ideal para isso.

Apesar da avaliação de Bolsonaro, porém, o que se ouve é que essa “redoma militar”, na qual os arredores do gabinete presidencial estarão tomados por “companheiros da caserna” que tendem a “compartilhar pensamentos conservadores”, pode diminuir ainda mais a capacidade de diálogo do governo com o Congresso.  

A interlocução política já é um ponto fraco na gestão bolsonarista e acredita-se que, sem um nome com essa característica forte entre os assessores palacianos, isso pode se enfraquecer ainda mais. Além disso, a opção acarreta riscos. 

É um ano eleitoral, com curto prazo para aprovar as reformas tributária e administrativa, tidas como essenciais para seguir, segundo o governo, alavancando a economia.

Neste ponto, inclusive, já é possível ver como um Planalto tomado por militares pode prejudicar a agenda de reformas. Após a fala do ministro Paulo Guedes no último dia 7, comparando os servidores públicos a “parasitas”, partiu da ala militar do palácio, a resistência no envio da reforma administrativa. 

Aventou-se apenas sugerir medidas para serem incorporadas a um texto no próprio Legislativo, o que desagradou os parlamentares. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não tardou a fazer chegar o recado de que não aceitaria uma decisão neste sentido.

Há entre a equipe econômica, o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, e os assessores mais próximos de Bolsonaro, liderados pela ala militar, divergências sobre o ritmo que a proposta deve seguir. 

Há interlocutores políticos fortes em outras áreas do governo, como Rogério Marinho, que foi fundamental para a aprovação da reforma da Previdência. No entanto, até a decisão recente de transferi-lo para o Ministério do Desenvolvimento Regional será ruim para a articulação, uma vez que tira seu papel de conversar com o Congresso sobre as reformas. 

Governo fardado

Seus colegas de farda ainda se lembram dos argumentos esgrimidos pelo general Walter Souza Braga Netto em 2018 quando ele era Interventor Federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro depois de ter sido Comandante Militar do Leste.

Nas reuniões, em Brasília, do Alto Comando do Exército, Braga Neto se destacava por defender a tese de que a Arma à qual servia com muito orgulho deveria manter-se distante das eleições, especialmente do candidato Jair Bolsonaro.

Que a soldadesca reverenciasse o ex-capitão, afastado do Exército por indisciplina e conduta antiética, tudo bem. Ou melhor: ninguém poderia impedi-la de agir assim. Mas não faria bem à imagem do Exército se oficiais se comportassem da mesma forma.

Como Braga Neto, sempre pensou a maioria do Alto Comando – à frente o general Eduardo Villas Boas. Contudo, quando a vitória de Bolsonaro desenhou-se como quase certa, alguns generais debandaram ostensivamente para o lado dele.

Foi um desses generais, o atual ministro da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos, quem ajudou Bolsonaro a convencer Braga Neto para que aceitasse a vaga de Chefe da Casa Civil da presidência da República.

Braga Neto é o segundo general da ativa a ter um cargo no governo. O primeiro foi Eduardo Ramos, que continua na ativa. O Palácio do Planalto virou uma espécie de quartel. Ali, doravante, só haverá ministros militares.

Em nenhum governo anterior foi assim – nem na época da ditadura e dos seus generais-presidentes. Dos 22 ministros de Bolsonaro, seis são militares. De 1964 para cá, a Casa Civil coube a 27 civis e apenas a um militar. Braga Neto será o segundo.

Generais da reserva presidem os Correios, a Itaipu Binacional, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Um coronel, a Telebrás. Um delegado, a Agência Brasileira de Inteligência.

Nos primeiros nove meses de governo, segundo levantamento da Folha de S. Paulo, havia pelo menos 2.500 militares em cargos de chefia ou de assessoramento. Bolsonaro admite que há “civis excepcionais”. Mas prefere a companhia de fardados e ex-fardados.

“A gente (os militares) tem a característica de ser muito quadradinho, mais cartesiano”, disse ao GLOBO o general Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. E completou: “É o que o presidente quer. O político tem que pensar em política”.

É Ramos que cuida da coordenação política do governo. Faz o meio do campo com deputados, senadores e governadores. Aprende rápido. Onyx prometera 40 milhões de reais por cada voto pela aprovação da reforma da Previdência. Foi o general que pagou.

Em tempo: por seus porta-vozes formais e informais, o Exército renova o aviso de que nada tem a ver com o governo Bolsonaro, como nada teve a ver com governo nenhum da redemocratização do país em 1985 para cá. Atém-se ao que manda a Constituição.


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