Semana On

Segunda-Feira 06.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Poder

Por que Bolsonaro cresce nas pesquisas num momento tão ruim do país

O resultado teria a ver com a economia. Mas por que isso acontece num momento de alto desemprego, diminuição da renda e aumento da miséria e da pobreza?

Postado em 14 de Fevereiro de 2020 - Marina Rossi (El País), Veja, Renato Rovai (Forum) – Edição Semana On

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Duas pesquisas divulgadas nesta semana mostram que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro está em ascensão. Segundo pesquisa levantamento realizado pela consultoria política Atlas Político entre os dias 7 e 9 de fevereiro, a aprovação do Governo se mantém estável, sua reprovação caiu e, se as eleições fossem hoje, o presidente largaria na frente em todos os cenários.

Até o momento, mostra a pesquisa, os principais rivais de Bolsonaro são o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-juiz Sergio Moro. Sem o petista e o ministro da Justiça na disputa, o atual presidente aparece com 41% das intenções de voto, com larga distância entre o segundo colocado, o apresentador Luciano Huck (sem partido), com 14% dos votos. Atrás deles estão o governador do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB), com 13%, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com 2,5%. A quantidade de eleitores indecisos ou que declararam voto branco ou nulo é expressiva, chegando a 27%. O percentual é muito próximo da realidade das presidenciais de 2018, quando essa faixa do eleitorado bateu 30%. Por outro lado, as abstenções diminuem significativamente quando Lula e Moro entram na disputa. Neste cenário, o total de votos brancos, nulos e indecisos fica em 9%. Bolsonaro e Lula brigam pelo primeiro lugar, com 32% e 28% das intenções de voto, respectivamente. Moro, que tem refutado oficialmente qualquer intenção de disputar a presidência como rival do atual presidente, segue logo atrás, com 20%, seguido de Huck (6%), Dino (3%) e Doria (0,6%). Segundo os pesquisadores, nesta primeira série o nome do presidenciável do PDT, Ciro Gomes, não foi incluído para poder delimitar o número de cenários.

O cenário em que Lula disputa a eleição é meramente hipotético hoje. Condenado em segunda instância no processo do tríplex, mesmo solto desde novembro o petista não pode se candidatar, já que se enquadra na Lei da Ficha Limpa. Seus advogados, no entanto, tentam anular a condenação, questionando a atuação do então juiz Sergio Moro no caso. O pedido começou a ser julgado no Supremo Tribunal Federal no ano passado, mas foi interrompido por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. Caso a maioria dos ministros do STF decida que Moro atuou de forma parcial, a condenação do ex-presidente no caso do tríplex volta à estaca zero, retornando para a primeira instância. Neste caso, Lula deixaria de ser ficha suja e estaria livre para se candidatar.

Em linhas gerais, a pesquisa do Atlas Político de agora mostra cenários bastante parecidos com o de 2018. Naquele ano, o PT lançou Lula candidato enquanto o petista ainda estava preso. Os levantamentos mostravam que ele liderava com folga em todos os cenários. Mas, impedido de disputar, o ex-presidente acabou substituído no último instante do prazo para o registro de candidaturas pelo ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. As intenções de voto no “candidato de Lula” despencaram, mas ainda assim Haddad foi para o segundo turno. Bolsonaro foi eleito com 55% dos votos, contra 44% do ex-prefeito paulistano.

Esse cenário se repete nesta pesquisa. Se o segundo turno das eleições fosse hoje, um candidato apoiado por Lula —qualquer que fosse ele—também ficaria em segundo lugar nos dois cenários criados pelos pesquisadores. Contra Jair Bolsonaro (45%), alguém apoiado por Lula teria 35% dos votos. O percentual do indicado pelo petista permanece parecido (36%) quando a disputa é contra Sergio Moro. O que muda, no entanto, é que o ministro ganharia com ainda mais folga, com 54% das intenções de voto.

Pesquisa Veja/FSB

Outro levantamento, realizado pela VEJA/FSB, mostrou que Bolsonaro ampliou a vantagem sobre os seus prováveis rivais no primeiro turno da eleição presidencial de 2022. Segundo este levantamento, ele subiu quatro pontos porcentuais – de 33% para 37% –, enquanto outros presidenciáveis ficaram estagnados.

Seu principal perseguidor no cenário mais provável neste momento é o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), que oscilou negativamente de 15% para 13%, ou seja, dentro da margem de erro de dois pontos. O petista está empatado tecnicamente com o apresentador Luciano Huck (sem partido), com 12%, e o ex-governador Ciro Gomes (PDT), com 11%, que mantiveram seus porcentuais da pesquisa anterior. Todos eles ficam numericamente abaixo da opção “nenhum”, que tem 16% das preferências. Também estagnados, mas bem abaixo dos demais, estão o empresário João Amoêdo (Novo), com 4%, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com 3% – veja quadros abaixo.

Em outro cenário, com o ex-presidente Lula como candidato do PT, a vantagem de Bolsonaro cai consideravelmente – ele ficaria com 31% das intenções de voto contra 28% do petista, o que configura empate técnico e reafirma as conclusões de pesquisas anteriores do instituto: Lula é o adversário que mais ameaça a reeleição de Bolsonaro. A situação é a mesma da pesquisa de dezembro, quando eles ostentavam, respectivamente, taxas de 32% e 29%. Em um segundo turno, Bolsonaro teria hoje 45% das preferências contra 40% do ex-presidente.

Em um segundo turno sem Lula, Bolsonaro venceria com folga Haddad (51% a 33%) e Doria (50% a 25%), mas teria uma disputa mais apertada com Huck (45% a 37%) e ficaria numericamente atrás de Moro (39% para o ministro da Justiça e 37% para o presidente). O ex-juiz da Lava Jato é o ministro mais bem avaliado do governo, com 29% – o segundo colocado, Paulo Guedes (Economia), vem bem atrás, com 6%.

Pesa a favor de Bolsonaro o fato de ter a menor rejeição (44% não votariam nele de jeito nenhum) se comparado com os candidatos de oposição – Haddad tem 57%, Lula, 54%, Ciro, 54%, e Doria, 51%, O nome menos rejeitado é o de Sergio Moro, com 31%. Outro ponto que ajuda o atual presidente é que a avaliação do seu governo melhorou. Segundo a pesquisa, o índice dos que consideram sua gestão ótima ou boa é de 36% contra 31% em dezembro, uma variação fora da margem de erro. Já a taxa dos que avaliam a sua administração como ruim ou péssima é de 31% contra 35% na pesquisa anterior.

Aprovação do Governo e imagem dos políticos

O levantamento realizado pelo Atlas Político também mediu a aprovação do Governo Bolsonaro, que se manteve estável de acordo com a margem de erro: 29% agora, contra 27% em novembro de 2019. Enquanto isso, a reprovação registrou uma queda de cinco pontos percentuais, de 42% em novembro, para 37% agora. O otimismo com a gestão Bolsonaro também se reflete sobre as expectativas para a economia: metade da população diz acreditar que a situação econômica do país deve melhorar nos próximos seis meses. Ainda houve uma ligeira melhora na percepção sobre a criminalidade e a corrupção. Trinta por cento dos brasileiros dizem acreditar que a criminalidade está diminuindo —contra 27% em novembro do ano passado— e 26% disseram o mesmo sobre a corrupção, contra 17% em novembro.

O ciclo de deterioração do ministro Sergio Moro, observado desde as revelações dos diálogos entre ele e os procuradores da Lava Jato pelo The Intercept Brasil, também parece que está se revertendo. A aprovação do ex-juiz cresceu seis pontos de novembro para cá, batendo 54%. Em maio do ano passado, no entanto, ele era avaliado positivamente por 60% dos entrevistados. No mês seguinte, as mensagens começaram a ser reveladas, em reportagens de diversos veículos, e a aprovação de Moro chegou a cair para 50%.

A pesquisa também avaliou a imagem de outros políticos e personalidades junto aos entrevistados. Enquanto Moro lidera o ranking dos que tiveram maior avaliação positiva (54%), seguido de Bolsonaro (43%) e Paulo Guedes (43%), o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM) aparece com o maior índice de avaliação negativa (66%), seguido de João Doria (64%) e Fernando Haddad (59%).

Otimismo com a economia

Para o analista político do Instituto FSB Pesquisa, Alon Feuerwerker, a melhora na avaliação de Bolsonaro deve-se à percepção de que o governo trabalha bem para combater o desemprego. A pesquisa mostra que 24% da população consideram que esta foi a área que mais melhorou desde o início do governo – em outubro, o índice era de 14%. “A melhora na avaliação certamente corresponde à percepção de que a situação, se não melhorou suficientemente, parou de piorar. É um termômetro de uma situação de alívio e o governo se beneficia disso”, disse.

Mas por que isso acontece num momento de alto desemprego, diminuição da renda e aumento da miséria e da pobreza? A resposta tem no mínimo dois lados. Um deles, é que a elite brasileira, aqueles que ganham acima de 10 salários mínimos, está muito satisfeita com o governo.

Ela, mesmo a parte que não aplica na bolsa de valores, comemora cada ponto a mais no pregão. Agora, são 117 mil. E a expectativa dessa turma é que chegue a 170 mil pontos. Para muitos a bolsa não serve de nada. Mas eles a usam como índice de sucesso. O deus mercado olha por nós…

Na outra ponta, a precarização começa a fazer fieis. Sim, as pessoas que perderam o emprego e estão fazendo Uber, Rappi ou trabalhando para qualquer que seja o aplicativo, se veem como novos empreendedores. Eles não têm carteira de trabalho e nem direitos, mas se sentem “mais livres” do que tendo que “servir” o chefe ou passar por empregos formais, que também não lhe davam o menor prazer.

No meio desses ainda existe uma vasta gama de aposentados e idosos que foi ganha pelo discurso da moralidade do capitão. Quanto mais velho o eleitor, maior a popularidade do presidente.

Isso quer dizer que Bolsonaro é imbatível e vai ser reeleito? Não. Isso quer dizer que não se deve subestimar sua força e poder de ação.


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