Semana On

Quinta-Feira 27.fev.2020

Ano VIII - Nº 381

Mato Grosso do Sul

Morte de jornalista joga luz no cerco a profissionais na fronteira com o Paraguai

Depois de denunciar ameaças, Léo Veras foi assassinado em região marcada por intimidações à imprensa e mortes atribuídas ao narcotráfico. Em 23 anos, 18 jornalistas foram assassinados no Paraguai

Postado em 14 de Fevereiro de 2020 - Breiller Pires (El País), Arthur Stabile (Ponte) – Edição Semana On

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Uma execução voltou a ligar o sinal de alerta para a violência contra trabalhadores da imprensa na fronteira entre Brasil e Paraguai. Na noite do último dia 12, o jornalista Léo Veras, de 52 anos, foi assassinado a tiros na cidade paraguaia de Juan Pedro Caballero, vizinha de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Era lá, do lado brasileiro da fronteira, que a vítima mantinha o site de notícias Porã News e, regularmente, publicava matérias sobre o tráfico de drogas na região. Às 21h, dois homens encapuzados invadiram sua casa, onde o jornalista jantava com a família, e efetuaram mais de 10 disparos. Um dos tiros atingiu a cabeça de Veras, que chegou a ser socorrido, mas morreu no hospital.

“Mais uma vítima dos ataques contra os trabalhadores da comunicação, nestes tristes tempos de cerceamento da liberdade de expressão, Léo Veras merece mais do que condolências”, manifestou em nota o Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso do Sul. Já o Sindicato dos Jornalistas do Paraguai lembrou que este foi o 19º assassinato de profissionais da imprensa em menos de três décadas no país. “Vemos que mais uma vez os grupos criminosos tentam apagar a voz dos jornalistas através das balas e da violência, perante a cumplicidade de um Estado totalmente infeccionado pela máfia e a narcopolítica. Exigimos às autoridades que de imediato garantam a vida e a segurança dos colegas da área, além de conseguir esclarecer este terrível crime e julgar devidamente os culpados.”

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) ressalta que Léo Veras começou a ser ameaçado justamente por investigar o assassinato de outro jornalista em Juan Pedro Caballero. Depois de publicar reportagens sobre a emboscada que vitimou Carlos Artaza, repórter de uma rádio paraguaia, em 2013, Veras registrou queixa a respeito das mensagens com a ameaças que recebera no celular, indicando que ele havia entrado para uma lista de pessoas que seriam mortas pelo narcotráfico. Na época, chegou a receber proteção policial, mas continuou apurando crimes relacionados à escalada de violência pelo controle dos pontos de venda de drogas na região.

No ano anterior, dois jornalistas do Jornal da Praça, de Ponta Porã, também haviam sido assassinados em um intervalo de nove meses na principal avenida da cidade. Em documentário produzido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), como parte do Programa Tim Lopes, que financia a investigação de crimes contra jornalistas em homenagem ao ex-repórter da Globo, morto por traficantes no Rio de Janeiro, Léo Veras aparece como um dos entrevistados, denunciando a rotina de intimidação vivida pela imprensa local. “Eu sempre peço que minha morte não seja tão violenta, com tantos disparos de fuzil. Porque aqui é assim: se um pistoleiro quer te matar, ele vem na sua porta, manda você abrir e vai te dar um disparo. Eu espero que seja só um”, contou ao documentário veiculado em 2017 (veja abaixo), como se já prenunciasse seu destino diante das mortes recorrentes de colegas.

Em janeiro, em entrevista à TV Record, Veras voltou a relatar ameaças por parte do crime organizado numa região que praticamente normalizou execuções como forma de censura. Para reforçar a hostilidade à imprensa, pistoleiros costumam utilizar o Dia do Jornalista, celebrado em 26 de abril no Paraguai, para assassinar repórteres jurados pelas redes do tráfico. Em Juan Pedro Caballero, a Praça do Jornalista foi batizada em memória do repórter investigativo Santiago Leguizamón, executado com 21 tiros em 1991. A baixa taxa de resolução de crimes que têm jornalistas como alvo na fronteira, em que apenas 25% das ocorrências tiveram responsáveis identificados e julgados, ajuda a perpetuar o contexto de impunidade que resulta em mais mortes como a de Veras. Em comunicado emitido nesta quinta-feira, as autoridades paraguaias prometem apuração rigorosa sobre o assassinato.

Profissão de risco

Nos últimos 23 anos, um jornalista é morto no Paraguai em média a cada um ano e três meses. Os crimes costumam seguir uma lógica e até o local, já que algumas cidades se repetem. Em 23 anos, por exemplo, 6 assassinatos aconteceram em Pedro Juan Caballero.

Entre 1997 e 2000, dois locutores de rádio, Calixto Mendoza e Benito Román Jara, foram mortos na cidade de Yby Yaú, que fica aproximadamente 100 quilômetros da fronteira com o Brasil. Outros dois, Angela Acosta e Tito Palma, morreram em um intervalo de oito meses, entre o fim de 2006 e agosto de 2007, no distrito de Itapúa.

Em 2019, a Organização Não Governamental Repórteres Sem Fronteiras comparou a América latina como local de risco tão letal para jornalistas quanto é o Oriente Médio, onde há países em guerra. Foram 14 mortes registradas de janeiro a dezembro do ano passado.

Em entrevista para a Abraji feita em 2017, Léo Veras comentou sobre as ameaças de morte que sofria. “A gente tem que morrer um dia, né?”, comentou.

“Eu sempre peço que não seja tão violenta a minha morte, com tantos disparos de fuzil. Aqui, se um pistoleiro quer te matar ele vem à sua porta, manda você abrir e ele vai te dar um disparo”, disse ao jornalista Bob Fernandes, antes de brincar que esperava “somente um disparo para não estragar tanto”.

A esposa de Léo Veras disse que ele “praticamente havia se despedido” da família nos últimos dias, segundo declarou o promotor Marco Amarilla à rádio ABC Cardinal.

“Uns dias antes, ele estava muito tenso, calado e nervoso”, explicou à rádio, dizendo que Léo foi atingido por todos os disparos quando ele estava de costas. “O último disparo que ele recebeu foi na cabeça”.

Fronteira é principal área de risco

Seis dos 19 jornalistas mortos no Paraguai nestes 23 anos foram executados na cidade de Pedro Juan Caballero, que faz fronteira direta com Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, segundo estado mais importante para o PCC (Primeiro Comando da Capital). Há na região cerca de 6 mil filiados da facção paulista.

Para os profissionais paraguaios, as mortes acontecerem com mais frequência na fronteira não é coincidência. “Trabalhando na fronteira, em Pedro Juan, não tem muita coisa para pensar fora do tráfico de drogas, de armas, os próprios políticos”, definiu a jornalista Flávia Borja, que deixou a cobertura do maior veículo local, ABC Color, e atua como jornalista freelancer.

Segundo ela, a relação crime e política é próxima na região, mas as autoridades nacionais não agem para impedir essa conexão. Há, inclusive, casos documentados em reportagens e nada ocorreu. “Todo mundo conhece e está tão naturalizado. Ninguém se surpreende”, disse.

Pedro Juan Caballero é uma cidade com características muito particulares. Ali, não só jornalistas precisam fazer vistas grossas para certos acontecimentos. Borja comenta que existe uma espécie de “código de cidadão”.

“Você sabe que não vê, não escuta, não sabe. Finge que não sabe nada e está tudo certo. É só não se meter”, afirmou, contando que isso ocorre porque a pessoa sabe que, sozinha, não pode fazer nada se “a maioria da polícia e dos juízes estão comprometidos com os traficantes”.

A situação do crime organizado na cidade piorou em junho de 2016 com o assassinato de Jorge Rafaat, traficante conhecido como “rei da fronteira”. Dali por diante, o PCC (Primeiro Comando da Capital) domina a área.

Uma das mudanças, para além dos constantes conflitos pelo domínio da região, é nas leis impostas pelo crime. “Por exemplo: ninguém entrava no meio da sua casa para te matar, te matavam na rua. Era uma regra, algo que não acontecia e que aconteceu com o Léo Veras”, exemplificou.

Impunidade quase certa

De acordo com Santiago Ortiz, secretário-adjunto do Sindicato dos Jornalistas Paraguaios, o poder público prometeu o envio de uma equipe especializada para esclarecer a morte de Léo Veras.

Também ficou definida reunião na semana que vem com a Mesa Institucional para Segurança dos Jornalistas, composta por instituições públicas e com participação do sindicato.

O maior temor da classe é de que a execução de Lourenço termine como 15 dos 18 casos ocorridos até então, quando nenhuma pessoa foi identificada e, consequentemente, punida pelas mortes. “A impunidade é muito grande e normalmente as autoridades deixam que isso passe depois da comoção do momento. É a regra que temos tido”, criticou o jornalista.

Ortiz detalha que apenas os casos de Pablo Medina e Antonia Almada, mortos em outubro de 2014, ambos do ABC Color, e de Salvador Medina, em janeiro de 2001, tiveram conclusão, com identificação dos culpados e punição.

A explicação pode estar, segundo ele, dentro dos próprios meios de comunicação, já que parte dos que estão situados em cidades pequenas e na fronteira têm políticos como proprietários.

“Há grupos políticos, muito provavelmente vinculados a esses grupos criminosos, que têm meios de comunicação. Nos deixam em situação de vulnerabilidade e de exposição muito grande”, justificou.

O secretário explica que Pedro Juan Caballero é, de fato, uma cidade com risco elevado para o trabalho jornalístico. “As condições são de exposição permanente, é algo do dia a dia, como nos contam. Este nível de violência e impunidade é permanente”, afirmou.

Questionada sobre a repercussão da morte de Lourenço Veras, Flavia Borja lamentou não haver certa indignação dos jornalistas paraguaios. “Tem uma certa frieza dos jornalistas em geral. Não tem aquela mobilização”, disse, explicando que isso ocorre porque as mortes são no interior e não na capital, Assunção.

“Não é a mesma coisa trabalhar para um jornal grande de Assunção, ter uma trajetória sendo correspondente deles, e você ser um jornalista que trabalha em uma rádio do interior e que talvez ninguém te conheça na capital”, justificou, dizendo que não “deveria ser desse jeito”.

Lista de jornalistas mortos no Paraguai desde 1989

1 – Santiago Leguizamon – 26/4/1991 – jornalista da Rádio y Diário de Pedro Juan Caballero
2 – Calixto Mendoza – 2/3/1997 – locutor de rádio em Yby Yaú
3 – Benito ROmán Jara – 5/1/2000 – locutor de rádio em Yby Yaú
4 – Salvador Medina – 5/1/2001 – jornalista de rádio e jornal em São Pedro
5 – Yamila Cantro – 6/7/2002 – jornalista de rádio e jornal em Santa María
6 – Samuel Román – 20/4/2004 – locutor de rádio em Amambay
7 – Angela Acosta – 15/12/2006 – locutora e rádio em Itapúa
8 – Tito Palma – 22/8/2007 – jornalista de rádio em Itapúa
9 – Martín Ocampos – 14/1/2009 – locutor de rádio em Huga Ñandu
10 – Merardo Romero – 3/3/2011 – jornalista de rádio em Huga Ñandu
11 – Carlos Artaza – 24/4/2013 – fotojornalista em Pedro Juan Caballero
12 – Marcelino Vázquez – 6/2/2013 – jornalista de rádio em Pedro Juan Caballero
13 – Fausto Gabriel Alcaraz – 16/5/2014 – jornalista de rádio em Pedro Juan Caballero
14 – Edgar Paulo Fernández – 16/10/2014 – jornalista da Rádio Belén em Concepción
15 – Pedro Medina – 16/10/2014 – correspondente do Diário ABC em Curuguaty
16 – Antonia Maribel Almada – 16/10/2014 – correspondente do Diário ABC em Curuguaty
17 – Gerardo Servián – 5/3/2015 – jornalista da Rádio Zanja Pyta em Pedro Juan Caballero
18 – Eduardo González – 13/3/2017 – jornalista na rádio El Trigal FM em Itapúa
19 – Lourenço Veras – 12/2/2020 – jornalista do portal Porã News em Pedro Juan Caballero


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