Semana On

Sexta-Feira 21.fev.2020

Ano VIII - Nº 380

Coluna

O Bem Te Vi e a Onça Pintada

André Lucidi traz mais uma “fabula” daquelas

Postado em 12 de Fevereiro de 2020 - André Miguel Lucidi

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Em meio a uma floresta desse nosso imenso Brasil, estava a onça pintada embaixo de uma árvore descansando de uma lauta refeição em que havia degustado um veado, ao qual, por simples capricho, lambia os chifres, refastelada no meio da relva, com aquela preguiça que somente uma refeição bem feita traz, quando acima dela surgiu um Bem Te Vi, desses que de tão grandes e de canto tão potente, chamam a atenção da floresta inteira.

O Bem te Vi parou em um dos galhos da árvore acima da onça e começou a cantar alto, com um pio forte, sendo acompanhado em seguida por outras aves dos mais diferentes cantos, cantos esses que ecoaram pela floresta dando início ao fim de tarde de todo dia, um louvor pleno a natureza.

A onça, ainda descansando de sua refeição, tentava tirar um soninho, e o canto do Bem Te Vi, junto com o canto das outras aves, começou a incomodar. Ela virou para um lado, virou para o outro lado, botou as patas por cima da orelha para não ouvir, mas após alguns minutos atordoada e rendida, resolveu falar com o Bem Te Vi.

- Ei, Bem Te Vi, eu acabei de fazer uma refeição e estou tentando dormir um pouco. Tive que correr muitos quilômetros para achar e abater esse veado graneiro, espécie rara de veado, por ter nas pontas dos galhos essas folhas verdinhas, meio sujas, que de tão suculentas as devoro na sobremesa. Você poderia parar teu canto ou ir cantar em outra árvore?

O Bem Te Vi escutou o que a onça disse, mas não se dispôs de maneira nenhuma a fazer o que foi pedido e ainda ponderou com a onça.

- Dona onça, este angelim vermelho é a árvore mais altas da floresta. Quando canto daqui, todos os outros pássaros podem me ouvir. Se eu pousar em uma árvore menor, dificilmente vou ser ouvido pelos outros pássaros e os outros animais ficarão desprovidos do seu canto do fim da tarde.

A onça não gostou do que ouviu e levantou-se, já rugindo bem alto, reclamando com o Bem Te Vi.

- Como ousas? Pois saiba você que graças a mim existe todo um equilíbrio na floresta. Se todos esses veados graneiros estivessem ainda correndo para lá e para cá, nenhuma folha verdinha estaria nos galhos em que estão. Não haveria sombra nas árvores, nem sementes para você comer.

- Pois eu acho que você não fez bem o serviço, existem muitos veados graneiros na floresta. Daqui de cima, vejo quarenta deles soltos a alguns quilômetros daqui.

-   Mas como? Você tem certeza? Eu quero ver isto também.

- Pois então, suba aqui e veja por você mesma, dona onça. São muitos.

A onça, ainda meio preguiçosa, levantou-se e foi subindo o angelim vermelho, escalando galho por galho, até chegar ao mesmo galho onde estava o Bem Te Vi. Deitou-se no galho e viu ao longe que os veados graneiros descansavam na relva, o que indicava que ela teria caça por mais uns dias. Feliz ao constatar que a informação que recebera estava correta, propôs ao Bem Te Vi que se ele cantasse mais baixo e somente para ele, sacodiria todos os galhos abaixo dele e ele poderia também ter uma lauta refeição. O Bem Te Vi concordou, e passou a cantar baixo em um canto mais harmonioso, embalando o sono da onça.

MORAL DA ESTÓRIA

“MAIS VALE DEDURAR ALGO E GARANTIR A PAZ, DO QUE TER QUE ENCARAR O APETITE DE QUEM VIVE PERSEGUINDO QUEM TEM VERDINHAS SUJAS CONSIGO O TEMPO INTEIRO, INCOMODANDO A CABEÇA.”


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