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Sexta-Feira 21.fev.2020

Ano VIII - Nº 380

Coluna

Os incômodos paralelos entre "Parasita" e "Tempos Modernos"

Clayton Sales fala de cinema e seus efeitos na contemporaneidade

Postado em 12 de Fevereiro de 2020 - Clayton Sales

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"Transformando shoppings em destino de felicidade". Estampada na camiseta do segurança, a frase tenta convencer que espaços privados são o oásis idílico no deserto da vida fora do estacionamento pago. Shoppings são espaços para usufruir sensações furtivas de desligamento. Desligamento é felicidade. Felicidade é consumo. Sensações desfrutadas por Carlitos quando consegue emprego de vigia noturno em uma loja de departamentos. Sentindo-se habitante, ele e sua amiga moradora de rua aproveitam a cama confortável, patins, roupas chiques e a birita confraternizada com ex-colegas de fábrica também demitidos e agora ladrões. Sensações que duram um porre e terminam na ressaca do amanhecer real. Sensações que a família de Ki-taek experimenta quando se infiltra em trabalhos avulsos na casa dos ricos Park. Moradores intrusos, os Ki-taek se esbaldam na fartura, até que a realidade lhes mostra seu ranger sádico.

A felicidade como destino, o consumo e o desejo de privilégios que mitiguem a desigualdade. A felicidade fugaz que transforma em desespero a luta para reduzir o fosso social. A loja em preto-e-branco brilhante de "Tempos Modernos" (1936), mansão radiante de "Parasita" (2019) e shopping fulgurante da frase-fantasia que estampa a camiseta de trabalho do segurança são expressões da mesma imposição da história: a felicidade plena é para os poucos que pagam.

"Parasita" é uma produção sul-coreana que se tornou a primeira obra em língua não-inglesa a faturar um Oscar de melhor filme. Bong Joon-ho levou também os prêmios de melhor direção, roteiro original, junto com Han Jin-won, e filme internacional. A saga dos Ki-taek, moradores de um tipo de moradia semelhante a um porão, é uma travessia por caminhos subterrâneos da busca por uma dignidade espectral, que se espelha nos valores da burguesia. A classe desfavorecida, então, se aloja no organismo burguês para sobreviver. "Parasita", entretanto, mostra que o parasitismo é reativo, já que a família Park, símbolo da ostentação fútil e discriminatória da riqueza, precisa dos pobres Ki-taek para manter as distinções que os fazem "superiores" e felizes. E o fazem esvaziando sua dignidade. O significado do cheiro é perturbador nesse sentido. Essa simbiose atinge o ponto de explosão que desnuda a luta de classes, traduzindo a relação básica do capitalismo. "Parasita", portanto, cruza drama ácido, comédia cáustica e elementos de suspense e terror para expor a interpendência nas relações de trabalho, no caso, os segmentos precarizados pelo avanço tecnológico, como ensino, transporte e atividades domésticas. Os porões da indignidade, as escadas escuras da tortuosa ascensão, a chuva "abençoada" que alaga a casa miserável dos Ki-taek são metáforas poderosas sobre desigualdade.

Em seu período histórico, "Tempos Modernos" também se desenvolve a partir de relações de trabalho. No caso, trata-se do trabalho industrial e o fordismo vigente nos anos 1930. Os espaços laborais de Carlitos, a fábrica, a loja e o restaurante, são tão voláteis quanto os da família Ki-taek, pois são terrenos arenosos de autocontenção, desforra, frustração e enlouquecimento.  Espaços fluidos que se dissolvem ao primeiro tranco da realidade desigual. Quando Carlitos surta com o esforço repetitivo de apertar os parafusos e vai para a cadeia, quando acorda bêbado no meio dos tecidos à venda ou quando é abordado pela polícia após cantar numa língua estranha que tapeia a freguesia burguesa, o desalento é o saldo do esforço em elevar os patamares de sua dignidade. "Tempos Modernos" mistura comédia pastiche com lirismo para expor a fragilidade de quem persegue a dignidade por meio do trabalho.

As obras de Bong Joon-ho e Charlie Chaplin dialogam na mesa das complexas relações laborais e sociais. Compartilham experiências em épocas distantes, encontram dissonâncias nos métodos cinematográficos e construções narrativas, e conexões pulsantes nos seus alertas sobre os traumas crônicos e potencialmente trágicos da desigualdade. Embora Chaplin recomende o sorriso otimista e Bong conclame a vingança ardilosa, "Tempos Modernos" e "Parasita" cantam a mesma toada: os porões da sociedade são organismos vivos que sabem o quanto o desequilíbrio social lhe é danoso.  


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