Semana On

Segunda-Feira 26.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

A formiga e a abelha rainha

André Lucidi nos conta uma fábula sobre muito nossa conhecida

Postado em 06 de Fevereiro de 2020 - André Miguel Lucidi

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Contaram os fabulosos aos mais jovens, ao redor de uma fogueira em uma noite de lua cheia à beira de uma cachoeira enquanto as corujas piavam, que os altos espíritos da floresta, através de seus poderes de transformação, resolveram analisar a existência e vida de uma série de espécies existentes na floresta, a fim de eliminar definitivamente do convívio do reino animal, mineral e vegetal, tudo aquilo que não estivesse trazendo harmonia e causando caos.

Foram postos perante os altos espíritos todas as espécies de plantas, animais e insetos, à fim de ser questionada a existência de cada um. Cada ser criado deveria se apresentar e informar sua função na natureza, como com ela se harmonizava, como sua existência ajudava a outras espécies e como cada um influenciava positivamente o habitat natural e o caminhar do mundo.

Ao fim da fila, estavam a formiga, famosa por sua organização de trabalho, sua harmonia de convívio e por ser uma referência de trabalho coletivo. Logo atrás estava a abelha rainha, famosa por não fazer porra nenhuma para ninguém, quando muito fazia, já reclamando da espera na fila. A presença da abelha rainha junto a formiga trazia uma certa apreensão aos outros na fila e, mais ainda a formiga, que não aguentava ver a abelha rainha passar o tempo inteiro esperando que os zangões de sua colmeia, carentes de uma fêmea para procriar, a abanassem, acariciassem suas asas e fizessem mimos a ela, que tinha um ataque de pelanca a cada quinze minutos.

Ao cair da tarde, um pouco cansados de ouvir a todos, ficaram os grandes espíritos satisfeitos, mas ainda sem compreender como, com tantos seres maravilhosos desempenhando suas funções, poderia estar ocorrendo o caos em alguns lugares.

A formiga postou-se perante os grandes espíritos e, antes que pudesse falar, a abelha rainha interrompeu, dizendo que ela não seria a última e que a formiga tivesse paciência, pois primeiro deveriam vir as rainhas e não as damas. Os grandes espíritos, com uma enorme complacência, pediram a formiga que deixasse a abelha falar. A abelha então, discorreu sobre o quão importante era que ela estivesse fazendo poses, caras e bocas junto aos zangões, enquanto esses produziam o mel tão necessário ao organismo do ser humano, fonte de energia. Falou mais ainda, afirmando que, apesar de ser vista como exibicionista e sedutora, só procriava com um macho, enquanto os outros faleciam somente por ser esse o processo natural de seleção.

A formiga ouvia tudo aquilo espantada, sem dizer uma só palavra, pensativa, enquanto a abelha rainha voava para lá e para cá, exibindo toda sua suposta formosura. Finalmente chegou a vez da formiga se pronunciar, e, o que os deuses ouviram não era o esperado. A primeira palavra da formiga foi que desejava falar em nome de todas as formigas; que devido a presença da abelha rainha e de suas explicações, pretendia mudar todo o conceito do que é ser formiga, uma vez que todas no formigueiro estavam desejosas somente de resultados que não requeressem esforços da parte deles.

Achava mais. Em nome da harmonia entre seres voadores e não voadores, para que isso ficasse ao contento, propôs que os zangões que não encontrassem fêmeas para procriar poderiam conhecer as outras formigas. Ouvindo aquilo, a abelha rainha disse que seria impossível, pois sem que os outros zangões estivessem na colmeia, não haveria mel e ela, abelha rainha, teria que começar a fazer ela mesma o mel, ocupando o lugar dos zangões e que, ela mesma poderia abreviar sua vida, devido ao tanto de trabalho que teria.

Os deuses ouviram a ponderação de ambas, pensaram juntos por uns instantes e resolveram permitir aos zangões procriarem com as formigas e determinaram a abelha rainha que ao reproduzir, ficasse ciente que só daria a luz muitas outras abelhas rainhas e que seu parto iria durar dias.

Moral da estória: fundir coisas distintas sempre acaba em inutilidade.


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