Semana On

Sexta-Feira 10.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna

A devastação na diplomacia brasileira

Idelber Avelar fala da relação Brasil e França, de Futebol e das primárias democratas nos EUA

Postado em 06 de Fevereiro de 2020 - Idelber Avelar

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De todas as devastações que o bolsonarismo nos impõe, a da diplomacia brasileira é a que mais me dói, junto com a do meio ambiente.

O Sr. Luis Fernando Serra, que desgraçadamente foi nomeado por Bolsonaro para nos representar na França, país com quem temos relações desde 1825, reagiu como um moleque à cobrança de uma Senadora e uma Deputada francesas, feita pelos canais apropriados (ou seja, em carta oficial e privada, em vez da selva do Twitter), e que solicitava esclarecimentos do caso Marielle Franco. Reagindo a essa interrogação sobre assunto tão embaraçoso internacionalmente para o Brasil, o Sr. Serra, como se fosse uma criança de nove anos de idade, escreveu:

"Lembro-lhe que os mandantes da tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro, durante sua campanha eleitoral, também não foram identificados, ainda que o autor do crime tenha sido preso e colocado em uma instituição psiquiátrica. Este ato é, na minha opinião, tão sério quanto os outros crimes políticos mencionados aqui.

Assim, é com profundo pesar que observo que o assassinato de Celso Daniel e o ataque à vida de Bolsonaro não tiveram o mesmo eco na França que o assassinato de Franco, que foi até objeto de uma mobilização da Assembleia Nacional. Ficaria muito grato se você pudesse me explicar as razões desse silêncio.”

A resposta é um vexame tão grande que nem sei por onde começar.

Mas alguém precisa avisar ao embaixador Serra que 1) é a POLÍCIA FEDERAL DO SEU PAÍS quem já concluiu que ninguém mandou Adélio esfaquear Bolsonaro; se o embaixador tem informação que contradiz a PF, deveria procurá-la; 2) Celso Daniel foi assassinado quase VINTE ANOS ATRÁS, e a existência de outro crime não elucidado no Brasil não torna o assassinato de Marielle Franco menos grave, nem obriga as parlamentares francesas a se preocuparem com ele. Quem tem que resolver o caso Celso Daniel é o Brasil, não as parlamentares francesas preocupadas com Marielle Franco.

Por onde se olhe, é devastação. Nosso embaixador na França, na França!, argumenta como um moleque de nove anos de idade batendo boca na rua; é um vexame colossal.

Um pouco de futebol

Nos últimos 50 anos, nos Campeonatos Brasileiros, 3 clubes colocaram mais de 22.000 pessoas em média nos estádios: Mengo, Corinthians e Galo.

Até pouco tempo atrás, o Galo competia pelo 1˚ lugar, mas há dez anos estamos jogando em estádios pequenos. Mesmo jogando DURANTE UMA DÉCADA em um estádio para 60.000 enquanto jogávamos em um estádio para 20.000, o Cruzeiro ainda não conseguiu nos alcançar. A diferença entre o time do povo de Minas e a simpática agremiação ítalo-brasileira do outro lado da lagoa deve voltar a aumentar dentro de uns dois anos, com a inauguração do nosso estádio para 47.000 lá no bairro Califórnia.

Note-se a tremenda força da torcida do Bahia, que nos últimos 50 anos levou mais gente aos estádios que Grêmio ou Inter. O Botafogo é apenas o 16˚ colocado. No Nordeste, a ordem é Bahia, Vozão, Fortaleza, Sport, Santa Cruz. O Vitória não está entre os 20 primeiros porque né, quem consegue ir àquele estádio, mddc.

Este é o "ranking de torcidas" que interessa: o de quem vai ao estádio. Torcida não é uma coleção de hits no Google. Este ranking é mais indicativo também por se restringir aos Campeonatos Brasileiros (de todas as séries), medindo todo mundo com os mesmos metros.

Um causo americano

Aí vai um causo que dá a medida da enorme desmoralização e revolta que estão sentindo muitos jovens hoje nos EUA.

Tulane University é uma universidade com estudantado progressista. Eu diria que, do nosso corpo de alunos de graduação, uns 85% são Democratas e uns 15% são Republicanos. Desses 85% que são Democratas, eu diria que uns 60% são Bernie.

Pois bem, eu nunca, jamais, em tempo algum, falo de política partidária em sala de aula ou faço campanha de qualquer tipo. Acho errado. Claro que é impossível falar de literatura sem tocar na política, mas campanha partidária eu jamais faço. Comecei, no entanto, uma tradição de levantar o assunto para ouvi-los sempre que os vejo meio nervosos.

Dei minha aula normalmente (era sobre um filme argentino de 2001, belíssimo, El hijo de la novia) e, faltando 10 minutos, tasquei: "estou vendo vocês um pouco diferentes; querem falar do que rolou em Iowa ontem?"

Primeira pergunta, na tora:

PROFESSOR, VOCÊ ACHA QUE O DNC FEZ DE PROPÓSITO PARA ROUBAR O BERNIE?

A pergunta é carregadíssima, então eu dei uma risada e disse que gostaria de ouvir mais antes de respondê-la. E aí, com o mote da primeira aluna, seguiram-se mais uns 10 --umas 10, se não me engano foram todas alunas -- xingando e expressando frustração e vergonha e sentindo que todo o seu engajamento com a democracia nos últimos anos foi em vão, porque suas vozes não vão ser ouvidas.

É difícil exagerar o tamanho da desgraça que aconteceu com a democracia dos EUA ontem à noite (dia 3). Quem está em contato com a garotada de 18-25 sabe disso. Estão muito, muito revoltados. Eu nem falei mais nada, só fiquei ouvindo, dei umas explicações técnicas sobre funcionamento do caucus, relembrei alguns números do passado, e disse a eles "estou tão puto como vocês".

E mais eu não disse, mais não me foi perguntado, e acabou a aula.


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