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Sexta-Feira 21.fev.2020

Ano VIII - Nº 380

Poder

Veja opiniões de Regina Duarte sobre temas da cultura

Bolsonaro promete “carta branca”, mas não costuma cumprir este tipo de promessa

Postado em 31 de Janeiro de 2020 - DW, Ricardo Noblat (Veja), BR Político - Edição Semana On

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Regina Duarte anunciou no último dia 29 que aceitou assumir a Secretaria Especial da Cultura. A decisão foi confirmada após um terceiro encontro entre a atriz e o presidente Jair Bolsonaro.

"Sim, só que agora vão ocorrer os proclamas antes do casamento", afirmou Regina Duarte a jornalistas ao sair do Palácio do Planalto, em referência à metáfora usada por Bolsonaro após o primeiro encontro com a atriz depois do convite para que ela assumisse a secretaria.

Na época, o presidente disse que havia iniciado "um noivado" com a atriz. Regina Duarte disse então que estava "noivando", antes de confirmar se assumiria o posto.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Regina tem que resolver questões contratuais com a TV Globo antes de ser anunciada oficialmente para o cargo no governo.

Bolsonaro também confirmou à imprensa a decisão da atriz. "Está tudo certo, está caminhando, ela está acertando as questões pessoais dela. Não tem prazo", disse. O presidente já havia dito que Regina Duarte terá liberdade para montar sua equipe.

A atriz, que já havia declarado seu apoio a Bolsonaro antes das eleições presidenciais de 2018, substitui Roberto Alvim, que foi demitido após uma onda de repúdio por causa de um discurso no qual ele fez uso de trechos plagiados de uma fala do antigo ministro nazista Joseph Goebbels (1897-1945).

Regina Duarte, de 72 anos, tem uma longa carreira na televisão. Sua estreia foi em 1965, aos 18 anos, na emissora Excelsior. Em 1969, fez sua primeira novela na Globo, Véu de Noiva. Em 1985, interpretou a viúva Porcina, em Roque Santeiro, um de seus papeis mais marcantes. A atriz participou de várias peças de teatro e atuou em diversos filmes.

Questão de fé

Questões de fé não se discutem. Cada um tem o direito de acreditar no que quiser e deve ser respeitado por isso – ponto final.

Regina Duarte já acreditou que Fidel Castro, o ditador cubano, foi um grande estadista – e na época, ninguém a contrariou.

Confessou que Lula lhe causava medo quando apoiou em 2002 a candidatura a presidente de José Serra (PSDB).

No ano passado, por declarar-se conservadora, votou em Jair Bolsonaro para presidente. Ele lhe inspirava confiança, como disse.

Natural que tenha aceitado o convite dele para namorar, noivar e proximamente casar, como anunciou, ontem, o presidente.

Tanto mais porque, para ela, comandar a Secretaria de Cultura é uma missão divina. “Recebi um chamado”, ela comentou com seus filhos.

São três filhos: a atriz Gabriela Duarte Franco, o produtor André Duarte Franco e o cineasta João Ricardo Duarte Gomez. De alguma forma, os três se sacrificarão pela mãe. Imagine se um deles se beneficiasse de incentivos concedidos pela Secretaria de Cultura. Nem pensar. E a mãe, antes de assumir o cargo, ainda terá de pagar mais de 300 mil que deve ao Fundo Nacional de Cultura.

Uma das empresas de Regina teve suas contas rejeitadas pelo Fundo. Ela entrou com recurso. E o recurso ainda não foi julgado.

Ficará esquisito que ela passe a chefiar os funcionários encarregados de decidir se ela deve o que deve, deve menos ou nada deve.

Os desafios que Regina tem pela frente são gigantescos. Ela herdará uma Secretaria à míngua de recursos, de servidores e de um norte.

A não ser que esqueça o que já disse sobre Cultura e liberdade de criação artística, ela acabará trombando com o próprio Bolsonaro.

Ele antecipou que deu carta branca a Regina para montar sua equipe. Se foi como a carta que deu a Sérgio Moro, de pouco servirá. Bolsonaro vetou a escolha feita por Moro de uma socióloga para ocupar um cargo não remunerado em um Conselho Penitenciário. A socióloga era de esquerda, segundo Bolsonaro e seus caça-fantasmas. Em vão, Moro garantiu que ela não era.

“Dou carta branca aos meus ministros, mas a última palavra é minha”, Bolsonaro já repetiu muitas vezes. E está certo. As reformas do Estado só não andam porque Bolsonaro, o liberal inventado por Paulo Guedes, não deixa.

Parte dos artistas e dos intelectuais do país deposita esperanças na capacidade de sedução da ex-namoradinha do Brasil. Parece não se darem conta de que foi Bolsonaro, em 2028, que seduziu a maioria dos brasileiros e foi festejado como “O Mito”. E ainda é. Por ora, o certo é reconhecer que Bolsonaro seduziu Regina e não o contrário. Ele é quem tem mais a ganhar com a união.

O que pensa Regina

Já que é artista, o que será que Regina pensa sobre assuntos importantes para a pasta, como Lei Rouanet, corte de gastos e censura? Preparamos uma lista com as principais opiniões da secretária sobre os temas.

- Marxismo cultural

A polêmica mais recente da secretaria se deu quando, em seu Instagram, a atriz publicou um vídeo em que ex-BBB Adrilles Jorge critica o chamado “marxismo cultural”. A guerra contra o chamado marxismo cultural é uma das principais agendas do presidente Jair Bolsonaro e de ministros, como o chanceler Ernesto Araújo. No vídeo, Regina endossa a tese.

- Censura às artes

Em 27 de outubro de 2018, a atriz, apoiadora de Jair Bolsonaro, publicou uma série de três vídeos sobre a reta final da eleição. No segundo vídeo da sequência, Regina fala o que espera da gestão Bolsonaro em relação à liberdade. 

“O que eu espero do novo governo: liberdade de expressão. Outra coisa que eu espero do governo: censura nunca mais. A arte tem que ser livre. (…) Não se pode deixar tudo na mão do governo.”

No começo de janeiro, o  desembargador Benedicto Abicair, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, determinou a censura ao episódio de Natal do Porta dos Fundos na plataforma Netflix. O pedido da liminar dizia que “por todo o exposto, se me aparenta, portanto, mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para toda a sociedade brasileira majoritariamente cristã (tirar o especial do ar).”

O amigo pessoal de Regina, o ator Carlos Vereza, publicou um vídeo dizendo que o que ocorreu com o filme foi “uma lei do retorno”. Carregado de valores cristãos, como os já declarado pela atriz, e julgamentos morais, o vídeo foi postado no Instagram da artista com o seguinte título: “Carlos Vereza detona, destrói, acaba com o ‘Porta dos Fundos'”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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- Lei Rouanet

Em entrevista ao programa Conversa com Bial em maio de 2019, Regina usou uma “cola” para falar sobre um novo funcionamento da Lei Rouanet. Em sua fala, a atriz critica o modo como ela é usada atualmente. “Eu acho que o governo que usa o dinheiro da população deveria apoiar os que estão iniciando na arte. (…) Eu sou a favor de que o Estado não patrocine Cultura nos moldes atuais.”

Além de exigir transparência com o dinheiro público, Regina pede uma prestação de contas rigorosa. “Que que eu acho da Lei Rouanet? Tem uma história de que os artistas mamam nas tetas do governo… Será que é pedir muito rigor na prestação de contas?”

Uma controvérsia se dá pelo fato de que a artista, atriz há mais de 50 anos, ser devedora da lei. Sua empresa A Vida é Sonho Produções Artísticas deve R$ 319,6 mil por irregularidades com a Lei Rouanet.

- Cortes de verba na Cultura

Regina terá que lidar com um orçamento reduzido da pasta. Segundo informado pelo Ministério da Cidadania, pasta que comanda a secretaria, em 2019 o orçamento foi de R$ 2,6 bilhões.

Bolsonaro transferiu em novembro de 2019 a Secretaria Especial da Cultura para o Ministério do Turismo. Porém até publicação do decreto final de transferência da Secretaria Especial da Cultura para o Turismo, seu orçamento segue com a pasta da Cidadania, que declarou que a verba disponível em 2020 será de R$ 2 bilhões, uma redução de 23,8%.

Por mais que o corte impacte diversas entidades vinculadas à Secretaria, a atriz já declarou ser a favor do corte de gastos. Em entrevista ao site Notícias da TV, Regina disse achar necessário esse “aperto de cinto” nas contas públicas. “O momento agora é de sanar o problema, controlar os gastos. Quem não entender está sendo muito egoísta nas suas ambições.”

Na mesma entrevista, dada em setembro de 2019, a artista foi questionada sobre sua proximidade com Bolsonaro. “Prefiro ficar, mesmo de longe, torcendo por ele. A distância me deixa mais livre para observar, comentar e atuar da maneira que eu posso e quero.”


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