Semana On

Terça-Feira 14.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Poder

Na contramão da sexualidade e da ciência

Quem deveria adotar a abstinência é o governo Bolsonaro

Postado em 31 de Janeiro de 2020 - Outra Saúde, Leonardo Sakamoto (UOL), Diego Iraheta (Huffpost) – Edição Semana On

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Um documento inédito elaborado pelo Departamento Científico da Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria concluiu que programas direcionados à abstinência sexual não são eficazes para retardar o início das relações sexuais entre adolescentes ou alterar comportamentos de risco.

A entidade planeja enviar o texto com revisão de estudos sobre o tema ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e ao da Saúde. O documento diz ainda que políticas voltadas a essa faixa etária devem “reconhecer o direito que adolescentes e jovens possuem quanto à importância de conhecer seu próprio corpo e receber informações e cuidados adequados à saúde reprodutiva” e reitera parecer da Sociedade Americana de Medicina do Adolescente, que aponta “falhas científicas e éticas da abordagem focada exclusivamente em abstinência”.

O Brasil tem índice de 62 adolescentes grávidas para cada grupo de mil jovens meninas de 15 a 19 anos, de acordo com o relatório mais recente da ONU. No mundo, a taxa é de 44 para cada mil. 

Ainda assim o Governo Bolsonaro aposta na campanha “Eu penso duas vezes." A ministra Damares Alves (Direitos Humanos) tem a defendido para que jovens decidam postergar o início da vida sexual como forma de reduzir o alto índice de gravidez precoce no país.

A efetividade do método é semelhante ao de atirar flechas contra um eclipse para afastar o monstro que quer devorar o sol. Tanto que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, baseado em pesquisas, insiste na saída racional como foco de campanha: conscientizar os jovens sobre os impactos de uma gravidez antes da hora, mas ensinando o uso correto e adequado de preservativos e anticoncepcionais a fim de que possam se proteger.

Anitta

Uma das maiores influenciadoras dos jovens brasileiros na atualidade, Anitta vê com ceticismo a decisão do governo federal de promover abstinência sexual. Em entrevista ao HuffPost, ela classificou de “loucura” e “grande hipocrisia” a campanha que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos deve lançar no próximo dia 3 de fevereiro — a pouco mais de 20 dias do Carnaval.

“Se você quer prevenir a doença, se você quer fazer um controle de natalidade, não adianta você falar: ‘façam abstinência sexual’. Imagina se os jovens no meio do Carnaval vão escutar isso, se vão pensar nisso”, disse a cantora.

“O caminho certo é [o governo] educar sexualmente as pessoas; o que tem que fazer é colocar educação sexual nas escolas, no sentido de como se prevenir, como se proteger”, defendeu Anitta.

Para ela, os conteúdos trabalhados em sala de aula deveriam respeitar a idade e a série dos adolescentes. À medida que eles crescessem, teriam aulas de uso de preservativo e acesso a projetos e campanhas para prevenção de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). 

Pensar duas vezes?

Apesar dos pesares, o mote é muito bom e não deve ser descartado. A questão é que ele está, apenas, fora de lugar.

"Eu penso duas vezes" deveria ser uma frase enquadrada nos gabinetes de toda Esplanada dos Ministérios. Isso evitaria determinadas declarações que mostram a precariedade do governo ou que colocam em risco nossa economia, nossa democracia ou mesmo o futuro da raça humana.

Talvez se tivesse ouvido Damares, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, não teria dito, no último dia (17), que este foi "o melhor Enem de todos os tempos" para, logo depois, ser desmentido pela realidade de um Exame Nacional do Ensino Médio bichado. Judicializado, o impasse em torno dele está causando sofrimento e ansiedade a estudantes de todo o país.

Talvez se tivesse ouvido Damares, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não teria ameaçado, no dia 25 de novembro, a sociedade brasileira. "Não se assustem então se alguém pedir o AI-5", afirmou ele sobre as consequências de uma radicalização em protestos de rua. Repete assim, gratuitamente, uma insanidade que havia sido dita pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Talvez se tivesse ouvido Damares, o chanceler Ernesto Araújo não teria dito que o aumento de temperatura global ocorreu pelo fato de termômetros, "que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato, hoje ficarem no asfalto, na beira do estacionamento", reforçando a imagem de negacionista climático que nosso governo tem no mundo - o que é péssimo para os negócios.

Talvez se tivesse ouvido Damares, o presidente da República, Jair Bolsonaro, não ofendesse a mãe de repórteres, não teria dito que não existe fome no Brasil ou que uma deputada é tão feia que não merece ser estuprada. Não teria chamado, de forma preconceituosa, nordestino de "Paraíba" e cravado que a alta na taxa de desmatamento da Amazônia, identificada por cientistas e satélites era mentirosa. Não teria feito campanha pelo fim da obrigatoriedade da cadeirinha para salvar vidas de crianças em automóveis, apologia ao trabalho infantil, passado pano para milicianos ou inventado um Queiroz em nossas vidas.

A questão é que todo esse pessoal pensou duas vezes e, mesmo assim, quis fazer o que fez, conscientemente.

O que prova a necessidade do povo ser racional e conscientizar-se sobre o uso correto e adequado do voto e da manifestação de sua indignação a fim de que possa se proteger.


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