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Sexta-Feira 21.fev.2020

Ano VIII - Nº 380

Brasil

Especialistas criticam 'viés ideológico' de plano da Embratur

Proposta aborda temáticas alinhadas a bandeiras do governo; estratégia remonta ao Brasil do Zé Carioca

Postado em 30 de Janeiro de 2020 - Gustavo Schmitt e Gustavo Alves – O Globo

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O plano da Embratur para divulgar o Brasil no exterior foi criticado por pesquisadores da área de patrimônio cultural e turismo. Eles chamam atenção para o viés ideológico da proposta, que, segundo eles, aborda temáticas alinhadas a bandeiras do governo — ao focar em atrações judaicas e militares, por exemplo — sem que sejam feitas referências ao turismo de outras religiões, assim como ao público LGBTI.

O plano inclui ações que vão desde um desenho sobre a Amazônia para combater "falsas histórias que são compartilhadas na imprensa mundial" a um filme estrelado por Sharon Stone explorando praias nordestinas em busca do tesouro do Imperador Constantino. O plano inclui também a montagem de uma arena que terá como entrada uma réplica do Palácio do Planalto, com direito a um modelo fantasiado de dragão da independência, aventuras de Mickey e Minnie pelo Brasil, além reality show com artistas internacionais que ficarão confinados em diferentes casas pelo Brasil.

Para a professora de patrimônio cultural e políticas públicas do curso de Turismo e da pós-graduação em museologia da USP Clarissa Gagliardi, o governo faz uso do plano para fazer propaganda política:

— Esse plano restringe a interpretação da diversidade do Brasil. O turismo não precisa reproduzir a versão oficial e vender o viés de que é o Brasil judaico e militar. E os outros grupos que fazem parte da nossa formação? Não tem como justificar essa seletividade.

Professor do curso de turismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Francisco Barbosa do Nascimento Filho discorda da proposta da Embratur de patrocinar filmes de artistas como Sharon Stone e afirma não entender a iniciativa do plano de usar personagens infantis estrangeiros e não brasileiros, como o Mickey, para atrair a atenção de crianças, que poderiam convencer seus pais a visitar o Brasil.

— Atrelar (o país) à imagem de artistas e produções de cinema estrangeiros não agrega nada. Só faria sentido usarmos o Mickey, se tivéssemos a Disney — avalia o professor da Unesp.

Brasil do Zé Carioca

A Disney com que o presidente Jair Bolsonaro conta para divulgar o turismo no Brasil foi responsável por criar um símbolo do país há 78 anos: o Zé Carioca, personagem do desenho animado “Alô Amigos”. A produção, no entanto, não tinha objetivo turístico, mas de estreitamento das relações entre os Estados Unidos e os países da América do Sul durante a Segunda Guerra Mundial, para conseguir apoio no esforço de guerra contra o Eixo formado pela Alemanha, Itália e Japão. Em um Brasil que desde 1937 estava sob uma ditadura que praticava o culto à personalidade de Getúlio Vargas, contava com simpatizantes do totalitarismo nazista e fascista entre seus principais apoiadores, e se inspirava em legislações de regimes autocráticos para criar sua Constituição ou a legislação trabalhista, o esforço era mais do que necessário.

Foi nesse contexto que o carioca foi encarnado em um papagaio animado, cheio de simpatia, folgazão, fumante de charutos e com a voz de um paulista de Jundiaí, José de Oliveira, músico que já tinha atuado em filmes de Carmen Miranda, outro símbolo esfuziante e colorido do Brasil difundido por Hollywood. Oliveira e o Zé Carioca voltaram às telas dois anos depois em “Você já foi à Bahia?”. Não se engane com o título em português: o original, em inglês, era “Os três cavaleiros”, grupo formado pelo Pato Donald, pelo galo mexicano Panchito e pelo papagaio Zé Carioca.

Se os objetivos foram outros que não desenvolver o turismo, “Alô Amigos” e “Você já foi à Bahia”, assim como os musicais com Carmen Miranda, mostram que filmes sobre um Brasil animado, gentil, musical e multicolorido não são exatamente uma ideia nova para retratar o país lá fora. Nem mesmo localizar no país um inusitado tesouro escondido de Constantino, o imperador romano que autorizou a prática do cristianismo: afinal de contas, o Brasil já foi o lugar onde se pensava haver o Eldorado, a cidade de ouro e esmeraldas que povoou os sonhos de muitos ambiciosos até o século XX. O território brasileiro é visto como um paraíso desde que o Rio de Janeiro era disputado por franceses e portugueses no século XVI.


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