Semana On

Sábado 28.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Coluna

Bombordo ou estibordo?

André Miguel Lucidi mostra que nem só de tralha gira o papo de pescador

Postado em 30 de Janeiro de 2020 - André Miguel Lucidi

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Conciliar o inconciliável não é uma arte, é uma tentativa a qual somente alguns seres humanos mais insanos se propõem a tentar. Paremos para refletir. Como fazer pontos de vista, opiniões e interesses diferentes, acharem um meio termo em uma disputa e saírem satisfeitos? Uma comparação simples para melhor exemplificar. Imaginem um juiz em uma partida de futebol aos 47 do segundo tempo em uma final de campeonato de um jogo que está um a um e ocorre um pênalti. Prezado leitor, se você tem um jeitinho brasileiro para fazer as duas torcidas ficarem felizes com o empate e irem embora para casa confraternizando juntas, por favor, escreva para esta redação, pois eu quero ser o primeiro a estudar seu método, antes mesmo de qualquer universidade do mundo.   

Muita gente já se propôs a tentar. O Conselheiro matrimonial, o juiz de arbitragem, as nossas sogras e genros quando vem visitar de mala e chinelos, mas...  O maior de todos, na minha opinião, é o barqueiro de pesca. Explico por quê. Os dois primeiros, tem opções. O conselheiro matrimonial pode aconselhar e depois que virar confusão, pode dizer, por exemplo, “Eu avisei”. O Juiz, poderá sempre fazer prevalecer o seu ponto de vista, dado o poder de decisão  e, sua sogra e genros sempre poderão através de sua companheira, iniciar uma greve de amor em sua casa, o que pode te levar a outros caminhos que podem se tornar inconvenientes para sua vida. Mas...Já pensou ter que mediar dois pescadores dentro de uma   voadora de três lugares, cada um torcedor de um time diferente, de posições políticas diferentes e de idades diferentes > Esse sujeito sim, merece um prêmio Nobel da paz.

Caso do meu amigo Eleutério, Barqueiro de pesca. Para ganhar seu pão de cada dia, levou para pescar em um sábado desses seu Jeremias, que foi  militante do PCB nos tempos da ditadura, aposentado  de 68 anos que, por falta de com quem dividir a aventura, aceitou a companhia de Paulo, homem  de 31 anos, corretor da bolsa de valores, rentista até nas cuecas, para pescar.

De saída, começou a confusão na escolha das iscas. Paulo dizia que Lula não ia servir para nada. Seu Jeremias ajeitou sou camisa vermelha com o emblema da china e refutou, afirmando que até tubarões de águas internacionais haviam morrido pela boca, só de botar lula no anzol. Eduardo, supersticioso, não quis discussão em um primeiro momento e sentou-se no barco a direita, dizendo que gostaria ele, de pescar com um molusco chamado corrupto. Seu Jeremias não perdeu tempo e respondeu que ele não poderia ter feito melhor escolha, ao escolher os corruptos novos e ficar à direita. Pronto....Começou o bate-boca no barco.

Entre um xingamento e outro, seu Eleutério conseguiu apaziguar, dizendo que para competição ficar melhor, havia comprado as duas iscas. Ficou estabelecido então, que Jeremias usaria lula e Eduardo, corruptos. Partiram   os três no primeiro clarão do dia, e no percurso, começou outro bate-boca, Quando Eleutério perguntou que rumo deveria tomar. Jeremias respondeu de pronto: O mesmo do país nas últimas décadas. Já Paulo respondeu: Sempre para direita. Jeremias ponderou que caso fossem sempre para direita, poderiam se chocar nas pedras e o barco em que todos estavam, afundar, ao que Paulo respondeu que outros poderiam se afogar, mas que ele teria suas reservas de folego. Jeremias chamou Paulo de egoísta, Paulo chamou Jeremias de homem sem força e capacidade e começou de novo. Discussão de mais de meia hora, em que um não deixava o outro falar. Quando cansaram de discutir, estavam posicionados para pesca segundo Eleutério informou.

Como pescar era objetivo, cada um sacou seu equipamento. Jeremias, usando um equipamento chinês de última geração, réplica de qualidade superior segundo ele, enquanto Eduardo usava anzol norueguês, molinete americano e linha da Coréia do sul. No primeiro arremesso e primeira fisgada no anzol de Paulo veio um baiacu, peixe que ao se coçar a barriga incha, difícil de ser preparado como iguaria, já Jeremias pegou um belo robalo e pronto, outra chacota. Paulo disse que usando lula, era certo que viriam vários robalos. Jeremias respondeu que em sendo corrupto, a barriga incha de felicidade na primeira coçadinha. Mais meia hora de discussão à bordo, com o barco em movimento, coisa que eles nem perceberam, até que chegaram à beira do cais, findando a pescaria. Nesse momento, foram ambos Unânimes. Por que a pescaria havia acabado? Ao que seu Eleutério respondeu:    

- Melhor vocês comprarem na peixaria, pois o preço da gasolina no barco, não aceita desaforo.  


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