Semana On

Sexta-Feira 14.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

Combatendo o Preconceito Positivo

Alexandre Garcia e sua fala sobre Brasil e Japão

Postado em 30 de Janeiro de 2020 - Rodrigo Amém

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Eu prefiro falar de Anitta a falar de Alexandre Garcia. Anita é do bem e tem toda a carreira pela frente. Alexandre Garcia tem o Figueiredo na sua ficha corrida. Mas como estamos vivendo o revival das bestas feras dos anos de chumbo, tem gente pagando cachê pro Alexandre Garcia motivar seu público topizêra.

Num vídeo efusivamente compartilhado por ninguém mais ninguém menos do que o Chapeiro Geral de Hamburguer do Governo Federal, Eduardo Bolsonaro, vem o Garcia flexionar seus músculos abstracionais no grande fechamento da palestra.

Propõe Alexandre, o grande: O que aconteceria se trocássemos a população do Japão pela população do Brasil? Alguém tem alguma dúvida de que um povo que vive num arquipalozinho sem minérios, sem riquezas, sem terra, dada a bonança de matéria prima que encontramos no Brasil, não transformaria esse nacão num país de primeiro mundo em 10 anos? A plateia topizêra não aparece no vídeo, mas dá pra ouvir os chocalhos das cabeças balançando assertivamente. "Então vocês acabam de reconhecer que a responsabilidade é de vocês". Isto dito, a galera vai à loucura. Só faltou o Alexandre jogar o microfone no chão e sair do palco ao som de Snoopy Dog.   

A quantidade de equívocos neste "exercício intelectual" do jornalista-coach é estonteante. Mas o principal problema reside no fato de Alexandre achar que japoneses, mais do que membros de uma nacionalidade, são criaturas mágicas, como lemmins ou gremlins. E que a resiliência e senso de bem comum e vida em sociedade que costumamos associar aos nipônicos seja regra escrita no DNA. 

Não, Alexandre. Pra começo de conversa, nenhum povo tem "atributos". A cultura e normas sociais de uma determinada sociedade são indistiguíveis da sua história, da sua geografia e das adversidades da região onde vivem. O estoicismo e abnegação que o senhor tanto admira na cultura japonesa nascem da necessidade de integração social que um arquipélogo cuja história é uma mistura de guerras, maremotos, terremotos e explosões nuclares é capaz de formar. O japonês "mediano" que o senhor admira tem uma noção de bem público intimamente relacionada com a própria sobrevivência. Só quem teve que reerguer a casa dos escombros com a ajuda dos vizinhos sabe a importância da interdependência em uma sociedade. Pode ser que os mesmos valores prosperassem no processo de "transplante populacional" que seu exercício de teoria do absurdo propõe. Mas é mais provável que não. 

Pode ser que os brasileiros malemolentes que o senhor propõe que fossem substituídos pelos japoneses no arquipélogo oriental fossem a catástrofe que o senhor imagina. Pode ser que não. Porque é justamente a fartura de recursos e a natureza pacífica e generosa do Brasil que proporcionaram o crescimento de uma praga nacional: uma elite escravista e latifundiária, que vendeu as riquezas que grilou, importou escravos para cultivar as terras que roubou das populações indígenas e corrompeu os governos para obter privilégios e sonegar impostos. Não sei se conseguiríamos enviar 270 milhões destes cidadãos de bem ao Japão, já que temos tão poucos deles no íngrime topo de nossa pirâmide social. Talvez tivéssemos que despachar também o público topizêra que apoia seu discurso higienista. 

Mas a verdade é que tanto brasileiros no Japão quanto japoneses no Brasil são experimentos sociais em prática desde o começo do Século XX. Alguns casos de sucesso, sim. Outros, nem tanto. Pergunte aos filhos dos imigrantes japoneses presos em campos de concentração no Brasil, durante a Segunda Guerra. Pergunte aos milhares de brasileiros que sofrem com a discriminação ao tentar a sorte na terra do sol nascente, vitimas de xenofobia

A verdade é que a noção de características comuns a um povo, tão útil aos governos para os quais Alexandre Garcia está acostumado a trabalhar, presta um desserviço à humanidade como um todo. Seres humanos são complexos, lindos e horríveis, e não devem ser resumidos aos mínimos denominadores comuns de suas comunidades, sejam estes positivos ou negativos.

E combater esses preconceitos é a responsabilidade de todos. Até dos topizêra. E até nisso a Anitta é melhor que o Alexandre Garcia.


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