Semana On

Quinta-Feira 09.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Poder

Bolsonaro diz que não dará mais entrevistas

Se for para mandar repórter calar a boca, expressar sentimento homofóbico ou ofender a mãe dos repórteres, como tem feito, o melhor que o presidente faz é realmente silenciar

Postado em 24 de Janeiro de 2020 - Josias de Souza (UOL), Fórum, Victor Farias (Congresso em Foco) - Edição Semana On

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Jair Bolsonaro mantém com a imprensa um relacionamento indigno. Ameaça empresas e ofende jornalistas. Agora, declarou que cogita parar de conceder entrevistas. Fez isso em reação a um levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas. O estudo mostrou que, em 2019, os ataques a repórteres e órgãos de comunicação cresceram 54%. Saltaram de 135 para 208. Bolsonaro sozinho foi responsável por 58% do total de agressões.

Nesta quarta-feira, o presidente disse aos repórteres, na frente do Palácio da Alvorada: "Quero falar com vocês, mas a associação nacional de jornalistas diz que quando eu falo, eu agrido vocês. Como eu sou uma pessoa da paz, não vou dar entrevista. Não posso agredir vocês aí..." Se for para mandar repórter calar a boca, expressar sentimento homofóbico ou ofender a mãe dos repórteres, como tem feito, o melhor que o presidente faz é realmente silenciar. Mas não deveria ser assim.

Numa democracia, presidente da República que se queixa da imprensa é como capitão de navio que reclama da existência do mar. A imprensa tem muitos defeitos. Mas enfrenta a antipatia de gente como Bolsonaro por conta de uma virtude. Apenas cumpre a missão jornalística de adequar as aparências à realidade e não adaptar a realidade às aparências, como prefeririam certos políticos.

O papel da imprensa não é o de apoiar ou de se opor a governos. Sua tarefa é a de levar à plateia —leitores, ouvintes, telespectadores e internautas- tudo o que tenha interesse público. Só não entende isso quem não dispõe de discernimento intelectual para conviver com o livre curso de informações e ideias. No limite, ao atacar a imprensa que o imprensa, Bolsonaro desrespeita não os jornalistas, mas a sociedade e os princípios democráticos.

Agressivo

De acordo com dados compilados no Brasil no ano passado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Bolsonaro foi o responsável por 121 dos 208 ataques contra veículos de comunicação e jornalistas, o que representa 58% do total.

A Fenaj diz ainda que o Brasil registrou em 2019 um aumento de 54% nesse tipo de ataque físico ou moral contra profissionais ou veículos de comunicação, na comparação com 2018, quando foram anotados 135 casos.

O levantamento divulgado no último dia 16 registra que, no caso de Bolsonaro, “foram 114 ofensivas genéricas e generalizadas, além de sete casos de agressões diretas a jornalistas”. De acordo com a federação, a maioria dos ataques de Bolsonaro ocorreu em divulgações oficiais da Presidência da República.

Diante do fato, o presidente Jair Bolsonaro postou em umas redes sociais uma longa gargalhada: “KKKKKKKKKKKKKKK”. Ele ainda pegou o comentário de um apoiador e escreveu: “Pegaram o QI médio da galera da imprensa. Deu 58”.

De acordo com o relatório anual “Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil”, a maior parte dos ataques do presidente (116) foi feito em mensagens oficiais da Presidência – discursos e entrevistas do presidente, transcritos no site do Palácio do Planalto – ou no Twitter de Bolsonaro. Outros cinco casos de agressões ocorreram em entrevistas/conversas com jornalistas que não foram reproduzidas pelo site do Planalto.

“A postura do presidente da República – ou melhor, a falta dela – mostra que, de fato, a liberdade de imprensa está ameaçada no Brasil. O chefe de governo promove, por meio de suas declarações, sistemática descredibilização da imprensa e dos jornalistas. Com isso, institucionaliza a violência contra a imprensa e seus profissionais como prática de governo”, afirma o documento.

Além dos ataques verbais, a Fenaj cita também medidas legislativas tomadas pelo presidente contra a imprensa, entre elas a Medida Provisória que elimina a exigência do registro profissional para exercício da profissão de jornalista.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) se manifestou sobre os ataques do governo. A entidade afirma que junto com a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (ABERT), a Associação Nacional das Editoras de Revistas (ANER) e a Fenaj acertam um encontro de suas diretorias para discutir “os rumos que tomaremos diante de todas as ameaças ao jornalismo e, principalmente, aos jornalistas”. Em artigo publicado em seu site, a  entidade repercute texto do jornalista Janio de Freitas, publicado na Folha de S.Paulo.

Assassinatos, intimidações e agressões

O relatório indica que houve um aumento nos casos de assassinatos de jornalistas em 2019. O número passou de zero em 2017, para um em 2018 e chega a dois em 2019. Os dois casos são de profissionais em Maricá (RJ). Apesar disso, o número de radialistas assassinados sofreu uma redução, passando de quatro para um.

Além dos assassinatos, houve um crescimento também na categoria injurias raciais. Em 2019 foram dois casos, enquanto em 2018 não houve nenhum registro desse tipo de ataque.

Já as ameaças/intimidações e censuras mantiveram os mesmos índices do ano anterior, com 28 e dez casos, respectivamente.

As agressões físicas – tipo de violência mais comum até 2018 – foi uma das categorias em que houve diminuição no número de ocorrências. Foram 15 casos, que vitimaram 20 profissionais, contra 33 ocorrências no ano passado.

Em 2019, foram registradas também 20 agressões verbais, dez casos de impedimentos ao exercício profissional, cinco ocorrências de cerceamento à liberdade de imprensa por meio de ações judiciais e dois casos de violência contra a organização sindical dos jornalistas. Em 2018, foram, respectivamente, 27, 19, dez e três casos.

A Fenaj afirma, no entanto, que os dados do relatório não apresentam a totalidade dos ataques, uma vez que parte deles não são notificados à federação.


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