Semana On

Segunda-Feira 13.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

Manifesto Pela Vida

Um clamor pelo fim do discurso de ódio e de racismo, de perseguição, de destruição, que avassalou o Brasil

Postado em 23 de Janeiro de 2020 - Ricardo Moebus

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Clarice Lispector, em seu livro “Água Viva”, com sua mágica prosapoética, fez um dos mais belos chamados para estarmos engajados na disputa constante pela construção do futuro:

“A invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. Desde já é futuro, e qualquer hora é hora marcada.”

(…)

“O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiros na arena.”

Este compromisso visceral com a construção permanente e contínua do futuro, esta “desenvoltura de toureiros na arena”, é exatamente o espírito que traspira do “Manifesto do Piaraçu -  Das Lideranças Indígenas e Caciques do Brasil no Piaraçu”, documento final do grande encontro de mais de 600 lideranças indígenas, encerrado neste ultimo dia 17, na Aldeia Piraraçu, Terra Indígena Capoto Jarina, no Xingú, sob a liderança incansável e quase centenária, do cacique Raoni Kayapó.

Neste documento os povos indígenas renovam sua mensagem de esperança, entendimento, discernimento e compromisso com a manutenção da vida em sua pluralidade e biossociodiversidade.

Iniciam o documento denunciando, mais uma vez, o “projeto politico do governo brasileiro de genocídio, etnocídio e ecocídio”.

Em seguida, o documento declara o compromisso dos povos indígenas com todas as formas de vida: “(…) todos esses seres que habitam a floresta fazem parte de nós e correm no nosso sangue.”

O documento faz um apelo pelo respeito à constituição brasileira de 1988, e à convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Como uma resposta firme e precisa ao projeto governamental, ainda apenas anunciado, de exploração econômica - mineração, pecuária, agronegócio transgênico - dos Territórios Indígenas, o documento lança um verdadeiro lema em defesa da vida:

“NÃO PRECISAMOS DESTRUIR PARA PRODUZIR.”

Para tanto, o documento propõe o fortalecimento das alternativas econômicas que sejam sustentáveis, sem agrotóxicos, baseadas nas culturas tradicionais, nas tecnologias limpas e no extrativismo simbiótico, que por milênios tem garantido a convivência harmônica entre homens e florestas.

O documento nomeia esta economia sustentável de:

ECONOMIA DA FLORESTA EM PÉ.

Uma economia possível e praticada não apenas pelos povos indígenas, mas por muitos povos tradicionais da floresta, como os ribeirinhos, os seringueiros, os quilombolas.

Por isso mesmo, o documento aponta para a retomada renovada da “Aliança dos Povos da Floresta”, ressaltando ainda, uma amplificação necessária desta aliança no atual triste cenário nacional, agora é a vez da Aliança dos Povos da Floresta, da Caatinga, do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica, da Amazônia.

O documento aspira a uma verdadeira Aliança Pela Vida, tão ampla quanto possível, que possa abraçar todos que persistem lutando em defesa da vida e da democracia real, fazendo uma frente de re-existência à necropolítica que assaltou o Brasil.

O documento apela pelo cumprimento da Lei, de Termos de Ajuste de Conduta, de compromissos constitucionais, de garantias legais à Saúde, à Educação diferenciada, à Universidade Pública e Gratuita, garantia da integridade física e moral de comunidades e lideranças constantemente ameaçadas, agredidas, quando não assassinadas.

Um clamor pelo fim do discurso de ódio e de racismo, de perseguição, de destruição, que avassalou o Brasil nestes tempos sombrios, atravessa todo o documento.

Esta grande carta dos Povos Indígenas, precisa nos alcançar, precisa nos atingir renovando nossas potências e disposição para esta reinvenção do hoje, instaurando o futuro desde agora.  

Foi dada a largada para 2020, “com uma desenvoltura de toureiros na arena”?

Melhor dizer, com uma desenvoltura de touros na arena, lutando pelo direito à própria vida, lutando pelo direito aos seus modos tradicionais de existir, lutando pela vida mais plena e plural. Não econtraremos nenhum “touro sentado” no grande encontro com o cacique Raoni, eles dançam e lutam ininterruptamente.

Neste verdadeiro Manifesto pela Vida é a própria vida que se manifesta em generosidade e festa, fazendo da vida inteira um manifesto encarnado.


Voltar


Comente sobre essa publicação...