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Sexta-Feira 14.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

Sua Excelência, o Grifter

Não é honestidade nem experiência que seduzem o eleitor

Postado em 23 de Janeiro de 2020 - Rodrigo Amém

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O idioma inglês tem uma palavra que faz falta no nosso dicionário: grifter. Se você perguntar ao Google, o equivalente mais próximo da língua portuguesa seria "vigarista". Mas não é exatamente isso. O grifter é um personagem muito no capitalismo selvagem. Tanto lá quanto cá. A diferença é que os gringos têm uma palavra para descrevê-lo. Nós, ainda não. 

O grifter é um "fazedor de rolos". Um cidadão que leva a vida de negócio em negócio, sempre que possível, desonestos. É o negociador que busca a vantagem mesquinha, a negociata, o cambalacho. É o cara que vende o carro com motor quase fundido, o feirante que desregula a balança, o mecânico que inflaciona o serviço. Enfim, é o profissional que se orgulha da própria falta de ética. 

Donald Trump é o típico grifter. Quando ainda adminstrava hotéis, contratava pintores e marceneiros e só pagava metade do valor cobrado. A Trump University era um embuste. Seus cassinos faliram de forma suspeita. Sua fundação beneficiente era quase um caixa automático da família. Se tem um "rolo" no mercado imobiliário dos EUA, tem dedo do Trump, the great grifter.

A situação é tal que Trump não tem escolha a não ser tentar a reeleição. Caso não se reeleja, é possível que Donald acabe na cadeia. Tem procurador em Nova York esperando que ele deixe a Casa Branca para presenteá-lo com um belíssimo par de algemas, da mesma grife usada por quase todos os associados do presidente que não dispõem de foro privilegiado. Não por acaso, já mudou oficialmente  para a Flórida. Sua única chance é ficar na presidência até que tais crimes prescrevam. Se tiver que começar uma guerra com o Irã, chantagear a Ucrânia ou mancomunar-se com a Russia, Trump tá na pista pra negócio.

Será que os eleitores norte-americanos não sabiam que estavam votando em um grifter? Claro que sabiam. E por isso votaram nele. Assim como os russos votaram em Putin. E os filipinos em Duterte. E os brasileiros... no chefe do Queiroz. 

Vivemos a era dos grifters. Dos líderes que tem poucos compromissos com transparência, democracia, ritos, tradições, diplomacias, regras do jogo. São trapaceiros, cínicos, vaidosos, agressivos. Prometem soluções simples para problemas complexos e isso é muito popular num mundo cada vez mais complicado e em rápida transformação. Só um grifter tem a cara de pau de olhar uma crise migratória e falar: "É só construir um muro". O grifter observa um dilema socioeconômico e manda: "Tem que acabar com isso daí, talquei?"

O eleitor médio não resiste ao charme arrogante de um grifter e suas soluções esdruxulamente simples. É como diz aquele velho ditado: "Enquanto existir um eleitor médio, o grifter nunca passará fome".


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