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Segunda-Feira 10.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

É seguro beber cerveja artesanal?

Cervejarias artesanais e de grande porte passam pelos mesmos processos de homologação; Ministério da Agricultura vai esperar investigação para decidir se muda a fiscalização

Postado em 23 de Janeiro de 2020 - Luiza Belloni - Huffpost

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Os recentes casos de intoxicação com dietilenoglicol - substância tóxica presente na cerveja Belorizontina, da fabricante Backer, e que já levou a três mortes confirmadas - levantaram dúvidas sobre o processo de produção e a segurança de consumir cervejas artesanais.

A Polícia Civil de Minas Gerais ainda investiga as causas da contaminação, mas tanto o Ministério da Agricultura como a Abracerva (Associação Brasileira das Cerveja Artesanal) ressaltam que o caso foi excepcional.

“Esta é a primeira vez que se tem notícias desse tipo de intoxicação no universo cervejeiro”, diz o presidente da Abracerva, Carlo Lapolli, que defende: ”É extremamente seguro beber cerveja artesanal”. “Tanto é que este é um fato inédito e bastante isolado, que infelizmente trouxe algumas vítimas”, completa.

Lapolli destaca ainda que o Ministério da Agricultura tem os mesmos processos de homologação e fiscalização para cervejarias artesanais e de grande porte.

″É a mesma norma, mesmo processo de fiscalização para todas as fábricas”, diz. “Para se abrir uma cervejaria é preciso aprovar toda a documentação, os processos devem ser escritos, a forma de controle de qualidade, os procedimentos de limpeza, de envase, tudo isso está escrito no Manual de Boas Práticas de Fabricação e o Ministério. Depois de aprovar todo esse material escrito, é feita uma vistoria in loco, as instalações são analisadas e a cervejaria é liberada para atuar.”

Em relação ao padrão de qualidade, o presidente da Abracerva ressalta que a indústria brasileira de bebidas segue um padrão mundial, igual ao da Europa e ao dos Estados Unidos. “[São] Os mesmos tipos de equipamentos, a formação muito sólida dos cervejeiros”, diz.

Como esse tipo de contaminação não é detectada antes da distribuição?

Em coletiva de imprensa concedida no dia 15, o Ministério da Agricultura disse que nos testes das cervejas, as bebidas não são testadas para a presença de contaminantes como o dietilenoglicol, justamente por não ser usual esse tipo de contaminação. “São testadas para outras substâncias, outros contaminantes, não para eles”, disse o coordenador-geral de Vinhos e Bebidas do ministério, Carlos Vitor Müller.

Segundo ele, o ministério vai esperar o resultado das investigações para decidir se vai ou não reforçar ou mudar a fiscalização do órgão.

“Não há como ter uma fiscalização sobre um risco que é completamente desconhecido”, disse. “A gente vai tomar atitude depois de saber o que aconteceu, com evidência mais completa.”

O diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Ministério da Agricultura, Glauco Bertoldo, afirmou que a investigação oficial considera três hipóteses para a contaminação: sabotagem, vazamento ou o uso incorreto da substância utilizada para resfriar a cerveja.

Substância é raramente usada no processo de produção

De acordo com Carlo Lapolli, o dietilenoglicol é raramente utilizado como anticongelante no sistema de refrigeração. Segundo ele, a maioria das cervejarias utiliza água e álcool etílico potável (puro), que não causa nenhum problema no caso de contaminação.

“Utilizar dietilenoglicol é muito raro entre as cervejarias. Não faz o mínimo sentido técnico adicionar essa solução, ela não traz nenhuma vantagem para o produtor. Ela, inclusive, é bastante cara. O álcool etílico, que é normalmente usado, é muito mais barato”, diz Lapolli.

Essa solução circula em um circuito fechado e, por uma tubulação, passa ao redor dos tanques para refrigerar os locais, porém sem contato direto com a cerveja. ”É uma função para baixar o ponto de congelamento da água e permitir o resfriamento do tanque até temperaturas próximas de 0 grau”, explica.

O presidente da Abracerva suspeita que uma falha do equipamento possa ter contaminado a bebida.

“O que pode ter acontecido é que, em razão de ela estar sendo utilizada no processo de resfriamento da cerveja, através de um vazamento ou falha do equipamento, ela migrar para a cerveja e aí contaminar a bebida. É isso que aparentemente está se desenhando do que aconteceu dentro da Backer. Vai depender de perícias, claro, mas deve ter sido uma contaminação acidental.”

O dietilenoglicol é uma solução de água e etilenoglicol e, se ingerida, causa uma síndrome nefroneural (que atinge rins e o sistema nervoso). Na quarta, o Ministério da Agricultura informou que a água usada na linha de produção da cervejaria estava contaminada com o dietilenoglicol.

Ministério estuda vetar o uso do dietilenoglicol após mortes

Atualmente, não há regulamentação para o uso industrial de substâncias como o dietilenoglicol e o monoetilenoglicol, justamente porque eles não têm nenhum contato com o produto alimentício. Após este caso, contudo, o ministério afirmou que o setor já considera vetar o uso destes produtos, mas ainda é preciso conversar com outros órgãos reguladores, como a Anvisa.

“Eu acho que pode haver uma fobia temporária, mas quanto mais o consumidor conhecer os processos, as marcas, isso vai passar”, diz Lapolli. “O consumidor pode visitar as cervejarias, conhecer suas instalações, pedir para o cervejeiro mostrar como é o sistema de refrigeração para entender todos os processos e saber que tudo está dentro das normas. Acho que são ações importantes para conseguirmos superar isso e retomar o crescimento da cerveja artesanal no Brasil”, acrescenta.


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