Semana On

Segunda-Feira 13.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Entrevista

“Extinção de espécies marinhas já acontece, e vamos sofrer as consequências”

A ativista Barbara Veiga cruzou os mares (e viveu aventuras) na luta para preservar a vida oceânica

Postado em 20 de Janeiro de 2020 - Nathalia Fabro – Galileu

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Natural do Rio de Janeiro, Barbara Veiga, de 36 anos, cresceu vendo as praias cariocas e as águas azuis do Oceano Atlântico como uma extensão do quintal de casa. Quando entrou na faculdade para cursar Jornalismo e conheceu de maneira mais aprofundada a luta pela preservação do meio ambiente, decidiu que tornaria o oceano seu novo lar.

Aos 22 anos, em abril de 2006, embarcou em sua primeira missão como ativista a bordo do navio Arctic Sunrise, do Greenpeace. Esse foi o início de uma jornada que marcou sua vida, como ela relata no livro "Sete Anos em Sete Mares" (287 páginas, Editora Seoman), lançado neste ano.

Na obra, ela compartilha as lembranças do que vivenciou ao viajar para mais de 80 países e mergulhar com espécies marinhas pouco conhecidas. Mas nem tudo são flores: apesar de ter a oportunidade única de presenciar o nascer do Sol em meio à imensidão do oceano, ela também precisava viver isolada em um navio somente com os outros tripulantes, abrindo mão de confortos e do acesso aos meios de comunicação.

Durante seu trabalho, foi presa três vezes, além de ser encurralada por piratas na Somália e de participar de “batalhas” em alto-mar para impedir a caça ilegal de baleias. Por sinal, esse assunto voltou ao noticiário global em julho de 2019, quando o Japão retomou a caça comercial de baleias após mais de 30 anos de proibição.

“Não é porque as baleias estão no oceano, distantes de nós, que não afetam nossas vidas. Uma vez que uma espécie entrar em extinção, outras espécies serão prejudicadas, e nós, humanos, também sentiremos esse impacto”, afirma Veiga. “É importante repensar nossa relação com os oceanos, com os recursos naturais, e também a maneira de lidarmos com as informações que temos.”

Durante os sete anos em que navegou, Veiga atuou pelas organizações ambientais Greenpeace e Sea Shepherd — especializada em projetos de preservação da vida marinha. Nos navios, a brasileira assumiu tarefas em diferentes áreas, como na cozinha, na manutenção e na comunicação, além de ser responsável por registrar com sua câmera as missões realizadas.

Devido ao seu trabalho como fotógrafa, ganhou um prêmio do canal National Geographic em 2011, e suas videorreportagens já foram publicadas em veículos como a rede britânica BBC e o jornal The Guardian. Atualmente, ela é uma das responsáveis pelo projeto Liga das Mulheres pelos Oceanos, que reúne mulheres de todo o mundo em defesa do meio ambiente. Confira a entrevista completa a seguir.

 

Desde a primeira vez que embarcou em uma missão em alto-mar até hoje, acredita que o ativismo ambiental nos oceanos melhorou?

As pessoas têm falado sobre o problema do descarte incorreto do lixo, já que isso chegou à vida delas. Infelizmente, não existe mais como ir até uma praia e vê-la totalmente limpa, sem nenhum tipo de lixo. Essa reflexão começou a acontecer à medida que o lixo passou a incomodar as pessoas. Ainda assim, somos 7 bilhões de habitantes no planeta e precisamos agir para acabar com esse problema. Precisamos entender o que é reutilizar e reaproveitar nossos recursos.

Quando morei em um veleiro, lidava com meu lixo diariamente. Eu não tinha outro caminho a não ser acumular as coisas que consumia até poder jogá-las em um local adequado. Ver o meu lixo acumulado me trouxe uma reflexão a respeito do que eu gastava, do quanto consumia e de como poderia mudar essa situação.

Como tornar mais efetiva a relação das pessoas com a questão ambiental?

Ninguém precisa ir até o meio do oceano para saber que a situação ambiental está um caos. Já sabemos, por exemplo, que há plásticos nos mares e que eles se transformam em nanopartículas que são ingeridas pelos animais marinhos. Então, por que não tomamos mais atitudes para evitar a problemática do plástico?

É preciso aprender a consumir de um jeito mais ético, saber de onde vem seu alimento, entender o que as marcas de roupa que você veste apoiam e até repensar seus meios de transporte. Se as florestas e os oceanos acabarem, nós não teremos como sobreviver. Eu acredito na educação — portanto, é preciso informar melhor as pessoas sobre a situação dos mares.

No livro, você escreveu que ficava chateada ao ver seus colegas comendo alimentos transgênicos a bordo. Por quê? 

Se você trabalha para a proteção das florestas e dos oceanos e está preocupado com o futuro, precisa ter responsabilidade com a sua alimentação. Eu ficava triste por ver a falta de cuidado que algumas pessoas tinham ao consumir os transgênicos.

Acredito que é importante olhar a origem dos produtos que comemos no dia a dia dentro de casa. São industrializados, vêm de algum agricultor local? Dentro dos navios, nós tínhamos a preocupação com os direitos dos animais. E é preciso saber se a marca que você está consumindo apoia o desmatamento ou os maus-tratos aos animais.

Qual é a maior dificuldade para fazer ativismo ambiental nos oceanos?

Não existe uma polícia do mar nem controles para garantir que as espécies marinhas sejam efetivamente protegidas. No Mar Mediterrâneo, por exemplo, vi muitas embarcações ilegais mudando de matrícula, de cor e de nome constantemente.

Uma questão muito séria é a pesca excessiva, pois ninguém sabe realmente quantas espécies de peixes são caçadas para serem vendidas. Uma maneira mais eficaz de lidar com isso, eu imagino, seria o fortalecimento da vigilância no mar, unindo os governos e as grandes empresas.

Há alguma ação exemplar governamental ou de empresa privada nesse sentido?

Atualmente, não conheço nenhum modelo efetivo que gere o impacto necessário para impedir atividades ilegais e proteger as espécies marinhas. Vejo apenas ações individuais e de alguns movimentos.

Após mais de 30 anos de proibição, o Japão retomou a caça de baleias com a justificativa de que o animal será usado para pesquisas científicas. Qual é sua opinião?

A culpa não é da ciência: os cientistas já mostraram que não é preciso matar nenhuma baleia para estudá-las. A carne desses animais é explorada por seu viés comercial. A extinção de espécies nos oceanos já está acontecendo, e em algum momento vamos sofrer as consequências disso. Uma vez que uma espécie entrar em extinção, outras serão prejudicadas, e nós, humanos, também sentiremos esse impacto. Precisamos da biodiversidade equilibrada.

É importante repensar nossa relação com os oceanos, com os recursos naturais, e também a maneira de lidarmos com as informações que temos. Não é porque as baleias estão no oceano, distantes de nós, que não afetam nossas vidas.

O atum, por exemplo, é uma espécie que vem sendo cultivada em “fazendas” irregulares no oceano. Por isso é importante saber a origem dos produtos que consumimos.

Você participou de ações de duas entidades ambientais, o Greenpeace e a Sea Shepherd. Como avalia a atuação delas?

Independentemente da organização da qual alguém resolva participar, são as decisões cotidianas que fazem a diferença. Estamos vivendo um momento delicado sobre o futuro dos oceanos, das florestas e dos direitos indígenas. É muito importante agir coletivamente e individualmente para garantir que as próximas gerações tenham recursos e acesso a uma vida com qualidade. Se isso não acontecer, infelizmente viveremos em um deserto.

Depois de voltar a viver em terra firme após todos esses anos, o que tem feito em prol dos oceanos?

Fundei com outras colegas a Liga das Mulheres pelos Oceanos, em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Queremos trazer um olhar mais feminino e carinhoso para a questão da proteção dos mares. Vamos realizar encontros em todo o Brasil, abertos para mulheres cientistas, atletas e outras profissionais de diferentes áreas. O importante é que elas tenham interesse em defender o meio ambiente.


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