Semana On

Sexta-Feira 14.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Especial

Milícia fundamentalista

A perigosa aproximação entre o fanatismo pentecostal e o militarismo

Postado em 20 de Janeiro de 2020 - DCM, Plinio Teodoro (Fórum), Voz Operária, Sarah Peres (Correio Braziliense), Caroline Oliveira (Brasil de Fato), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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Tiago Botton é “bispo” da Igreja Apostólica Plenitude de Deus. No último dia 18, ele foi um dos líderes da turba de bolsonaristas que agrediu manifestantes que protestavam contra a presença da ministra Damares Alves em São Carlos (SP).

Corpulento e agressivo, Botton partiu para cima de alguns manifestantes com o seguinte bordão: “essa é a minha liberdade de expressão!”. Em seguida, avançou sobre um rapaz. “Tá me olhando com cara feia por quê?”, questionou, ameaçador. Um casal e outras pessoas foram agredidos com empurrões, murros e chutes. Um jovem foi ferido no rosto e deixou o local sangrando.

“Hoje, por três vezes fui chamado de fascista por militontos do PSOL. O negócio é rir kkkkk”, escreveu no Facebook. Ele aparece de camiseta azul no vídeo abaixo a partir do minuto 0:25.

O grupo liderado pelo “bispo” rasgou cartazes e arrancou bandeiras das mãos dos manifestantes. O celular de uma mulher que estava filmando a covardia foi atirado no chão. “A gente veio fazer um protesto pacífico, divertido, com uma roupa colorida, animada, com peruca, com frases pacíficas, mas, aparentemente, isso já é agressivo, isso já ofende”, afirma a educadora ambiental Evelyn Araripe.

“Há uma guerra sendo travada e nós temos que ser o suporte espiritual que o governo precisa”, diz uma das mensagens publicadas por Tiago nas redes sociais. Segundo seu evangelho, suporte espiritual significa agressão e ataques a liberdade de expressão e manifestação.

Tudo o que é ruim sempre pode piorar

O episódio acima é apenas a ponta do iceberg. Desde 2015, quando pela primeira vez veio a público a criação de milícias evangélicas nas igrejas pentecostais, relatos de milícias religiosas, ameaças e agressões têm sido registrados pelo país.

Para quem considerava a ascensão do fundamentalismo religioso na política um passo rumo à Idade Média; que seria possível que uma estultice como o projeto que cria o Dia do Orgulho Hetero fosse ser desenterrada; ou que temas como o Estatuto da Família, que define a célula familiar como composta apenas de homem e mulher, jamais seria sequer debatido faltava apenas um pesadelo: um exército de fundamentalistas religiosos. Não falta mais.

A Igreja Universal criou uma milícia estranhíssima chamada “Gladiadores do Altar”. Segundo o site da IURD, a iniciativa “visa formar jovens disciplinados e altamente preparados para enfrentar os desafios diários de ganhar almas e fazer discípulos”.

Os “rapazes”, diz o texto, “estão dispostos a abrir mão de suas vidas para que outras pessoas sejam ajudadas”. A única exigência é “é ser batizado nas águas e ter desejo e disposição de servir a Deus e estar preparado para o que vier pela frente”.

Em vídeos divulgados pela instituição, dezenas de jovens uniformizados aparecem marchando triunfais e repetindo as palavras de ordem de um pastor paramentado como rabino. Ao final, o líder pergunta aos homens o que eles querem.

“O altar, o altar, o altar”, respondem, o braço direito estendido apontando para o dito cujo em cima do palco. O altar, no neopaganismo barato da Universal, tomou o lugar de Jesus Cristo.

Não é preciso ser muito esperto para enxergar uma semelhança sinistra com, na melhor das hipóteses, a saudação dos policiais do Bope e, na pior, o “Sig, Heil” nazista. O pessoal do Estado Islâmico ficaria orgulhoso.

O que estes cidadãos pretendem fazer para ganhar almas vestidos de Guarda Revolucionária é um mistério. A apresentação é cheia daqueles momentos em que o patético passa a dar um certo calafrio. Antonio Gramsci chamou os fascistas italianos que surgiam de “gente ridícula, do tipo que faz as notícias, mas não faz a história”. Deu no que deu. Sangue de Cristo tem poder.

Milícia pelo Brasil e América Latina

A militarização das igrejas evangélicas joga papel fundamental na destruição do tecido social da região amazônica. Os Gladiadores do Templo – que já possuem células no Peru, Colômbia, México, Guatemala e outros países – se instalaram na região, em especial em missões da IURD em território indígena.

A presença militar das Igrejas Neopentecostais também se faz presente em áreas periféricas e nas favelas do Rio de Janeiro. Avançam com sua guerra religiosa, criando e firmando acordos com as narcomilicias. É uma orientação conhecida que proíbe cultos de religiões não-evangélicas, que destrói centros religiosos de matriz africana e símbolos católicos dessas localidades. A denúncia das populações dessas regiões contra a criação de milícias neopentecostais é recorrente.

Já no norte do país, esse grupo se forma militarmente em seitas autoproclamadas evangélicas, tanto fazendo trabalhos de exploração — como de extração de minerais estratégicos como o ouro —, como também a conversão (“transculturação”) de membros de comunidades indígenas. O objetivo desses grupos é, através da aplicação de distorções da fé, obter o controle populacional dos povos da região e com isso, vantagens políticas e econômicas em favor da direita em vários países da América Latina e do Imperialismo.

Segundo a Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), na região da Amazônia Brasileira, existem mais de 78 organizações evangélicas em atividade, realizando missões contra a cultura indígena. Dessa organizações, 39 tem sede no exterior.

Com as missões de evangelização dos povos indígenas, essas igrejas estrangeiras destroem as sociedades milenares dos povos indígenas. Se aproveitando do abandono do Estado brasileiro, que deixa aqueles povos à própria sorte, essas missões evangélicas oferecem empregos, dinheiro, bens e outros benefícios para os jovens, desacreditando a família, os pajés e outras lideranças da comunidade com valores de consumismo e de doutrinação espiritual.

De acordo com o Portal da Transparência, muitas dessas entidades recebem financiamento da União em função de suas atuações filantrópicas. Somente em 2017, a ONG Missão Evangélica Caiuá recebeu cerca de 2 bilhões em verba pública para administrar Centros de Saúde indígenas.

A expulsão dos médicos cubanos que atendiam as comunidades indígenas não teve apenas o objetivo de cortar investimentos na saúde pública. Além de fornecer ajuda humanista para essas comunidades, historicamente abandonadas, o programa Mais Médicos foi uma fonte de testemunhos do que está em curso na Amazônia.

Universal nas Forças Policiais, braço de Edir Macedo na segurança pública, diz ter atingido quase 1 milhão de soldados

Como se não bastasse uma milícia particular, o fundamentalismo evangélico quer, agora, se infiltrar nas forças de segurança pública. Um vídeo institucional da Universal nas Forças Policiais (UFP), braço da igreja de Edir Macedo nas “Forças de Segurança Pública, Forças Armadas e órgãos governamentais” diz ter atingido 983.441 policiais e familiares no ano de 2019, em 73.526 palestras, eventos e cafés realizados, e doado 439.471 “Bíblias e literaturas”.

As imagens mostram policiais em ações armadas em meio a um texto que diz: “autoridades brasileiras à mercê dos perigos da profissão e dos problemas sociais e emocionais. Essa é a rotina difícil que pode levar muitos à depressão, ao desejo de suicídio, à ansiedade, ao medo e a tantos outros males. Pensando nisso é que foi criado o UFP, Universal nas Forças Policiais”.

O programa criado por Edir Macedo, que já abrange as policiais militares de todos os estados do Brasil e de países na África, diz que tem o objetivo de “prestar assistência espiritual, social e de valorização humana não só para os defensores da lei, mas também para seus familiares através de palestras temas como corrupção, ética, drogas, estrutura familiar, casamento, educação dos filhos, doações de livros e Bíblias, lazer, encontros com café da manhã gratuito e o principal: o direcionamento por intermédio da fé em Deus, que encoraja, dá o livramento e força para tantos profissionais”.

Na página do Facebook, com mais de 12 mil seguidores, entre ações do programa junto aos comandos da polícia nos Estados do Brasil e em países da África, vídeos de Jair Bolsonaro elogiando o bispo Edir Macedo e também recebendo as bençãos em templo da Universal são disponibilizados aos policiais.

No vídeo em que Edir Macedo benze Bolsonaro no Templo da Universa, um texto fala do “dia especial para toda a Nação do Brasil. Bispo Macedo consagra o Presidente do Brasil Jair Bolsonaro no Templo de Salomão”, junto à frase bíblica: “Achei a Davi, Meu servo; com santo óleo o ungi, com o qual a Minha mão ficará firme, e o Meu braço o fortalecerá”.

PM estimula alunos de escola militarizada a cantar música evangélica

Em junho passado, um vídeo publicado nas redes sociais mostrou a que ponto chega a ingerência de policiais e militares na tentativa de incutir o fundamentalismo evangélico no tecido social. O registro mostra um policial militar cantando uma canção evangélica com alunos do Centro Educacional (CED) 7, em Ceilândia. A gravação ocorreu durante uma palestra sobre bullying, segundo a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). O colégio tem cerca de 2,5 mil estudantes e é uma das quatro escolas públicas onde vigora o modelo de gestão compartilhada com a corporação.

A filmagem tem quase um minuto e começa com o policial incentivando os alunos a cantar a música. "Eu quero que vocês atrapalhem os policiais, no bom sentido", diz. Enquanto o ritmo toca ao fundo, o policial continua: "Quero que vocês cantem, mas cantem forte, para que a Ilca (diretora da instituição) saia lá da sala dela para ver o que está acontecendo. Eu quero que vocês cantem comigo. Vamos lá. Esquece quem está do seu lado", continuou.

Nesse momento, a maior parte dos estudantes começa a cantar a canção. A música, intitulada Raridade, é de autoria de Anderson Freire. Após o refrão, o policial pede para que os alunos continuem. "Mais alto, agora. Vamos lá", incentivou. 

Em nota, a PMDF afirmou que a atividade é de cunho educativo e não religioso. "A música, na verdade, faz parte de uma palestra sobre bullying e tem finalidade motivacional para os alunos, sem cunho religioso", destacou o texto.

A Secretaria de Educação confirmou a versão apresentada pela corporação e informou que o policial tratava de temas como depressão e mutilação durante a palestra. "Foram utilizados diversos recursos, como datashow e histórias motivacionais. A atividade terminava com uma música, a fim de elevar a autoestima dos alunos", afirmou a pasta em nota.

O órgão completou dizendo que promoverá ações no sentido de "orientar os profissionais e melhorar os esclarecimentos em relação ao Regimento Escolar da Rede Pública de Ensino do DF, que busca desencorajar qualquer tipo de atividade que possa direcionar os alunos a adotarem posições ideológicas, políticas ou religiosas, sejam elas quais forem". 

Confira o trecho cantado pelo militar com os estudantes.

"Você é um espelho que reflete a imagem do Senhor

Não chore se o mundo ainda não notou

Já é o bastante Deus reconhecer o seu valor

Você é precioso, mais raro que o ouro puro de Ofir

Se você desistiu, Deus não vai desistir

Ele está aqui pra te levantar se o mundo te fizer cair"

Domínio da fé e da política: o projeto de poder dos líderes evangélicos no Brasil

São quase sete e meia da noite em uma das unidades da Igreja Pentecostal Deus é Amor, na região central de São Paulo. Depois de uma chuva intensa, os fiéis demoram a chegar. Enquanto o culto não começa e os irmãos não chegam, Serafina Ribeiro, de 36 anos, anda de um lado para o outro, colocando as coisas nos lugares, passando um pano úmido no chão, limpando os ventiladores e sorrindo para quem adentra ao espaço. 

Empregada doméstica, ela está ali há quatro anos, desde que passou por um processo de depressão depois da morte da mãe, na Bahia, enquanto Serafina vivia em São Paulo – chegou na capital paulista acompanhada de sua patroa, com quem sempre morou. Na Igreja, sentiu o “amor de Deus”, parou de sentir angústia e se sente “curada”.

Serafina é o rosto evangélico brasileiro: mulher, negra e de baixa renda. Na Igreja relativamente pequena, se comparada ao Templo Salomão da Igreja Universal, a maioria ali presente confirmou o que levantaram os dados de uma pesquisa de janeiro de 2020, do Instituto Datafolha: um rosto feminino, negro, que ganha até dois salários mínimos por mês e tem apenas o ensino médio completo é rosto da religião evangélica hoje.

Bem diferente, no entanto, é o perfil dos líderes evangélicos que decidem atuar na esfera política, seja nos bastidores ou sob os holofotes. 

Um exemplo é o pastor Edir Macedo. Líder da Igreja Universal do Reino de Deus, fundada no terreno de uma antiga funerária, em 1977, no Rio de Janeiro, ele tem uma fortuna declarada de aproximadamente R$ 2 bilhões, segundo a Revista Forbes. Ele foi um dos apoiadores da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018. Resultado: cerca de 70% dos evangélicos declararam voto no candidato abençoado da extrema-direita.

A presença de evangélicos na política não é de hoje, mas cresce de forma exponencial. De 1982 para cá, o número de parlamentares declaradamente evangélicos passou de 12 para 90, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). A mudança se explica parcialmente pelo aumento vultoso da população evangélica no Brasil, que, no mesmo período, passou de 7,8 milhões para 26,2 milhões. Mas não é só isso.

Um projeto de poder

Especialistas e evangélicos ouvidos explicam que o avanço dos evangélicos sobre na política responde a um projeto de poder, instigado pelos líderes religiosos e em aliança com a direita brasileira.

“Com o crescimento dos evangélicos, muitos mais se apresentarão para a política partidária. Isso é natural e esperado. Com a Universal, no entanto, isso mudou”, afirma o pastor Ariovaldo Ramos, de 64 anos, líder da Comunidade Cristã Renovada e um dos coordenadores nacionais da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, formada em 2016. Para ele, a igreja de Edir Macedo se transformou em uma “agência política”, com uma lógica de lógica de ascensão ao poder. 

Em 2008, o pastor Edir Macedo publicou o livro “Plano de Poder”, citando Maquiavel, apresentando Deus como um estadista e Adão e Eva como elementos de um estado de natureza ou de selvageria. “Os cristãos precisam despertar ao toque da alvorada. (…) A emancipação começa com o amadurecimento individual, o inconformismo com certas situações, o consenso em um ideal e a mobilização geral.” 

Dez anos depois, nas eleições de 2018, o plano de poder estava em pleno andamento: foram os pastores, apoiados por candidatos da direita, que levaram parte da população brasileira para as ruas, defende o pastor Ariovaldo Ramos. Aqueles que melhor souberam surfar a onda do crescimento dos evangélicos foram as siglas de direita e extrema direita. 

“É a religião que mais cresce no Brasil e na América Latina e que se cola muito bem a esse projeto de direita que passa pela questão moral e pelo conservadorismo”, afirma Andrea Dip, jornalista e autora do livro “Em nome de quem?: A bancada evangélica e seu projeto de poder”.

Como parte da apuração para o livro, em 2015, Dip foi assistir a um culto evangélico no Congresso Nacional, quando Dilma Rousseff (PT) ainda era presidente. “Até então não sabia que ocorriam cultos evangélicos nesse espaço. O Eduardo Cunha estava lá orando, com a Bíblia na mão. Ali eu percebi que havia um projeto de poder se desenvolvendo.” Entre os valores evangélicos e os da direita, nasceu a esteira necessária para o desenvolvimento desse projeto de poder.

O pastor Ariovaldo Ramos relata a participação de evangélicos na política partidária desde o fim da ditadura militar. As Igrejas Evangélicas, no entanto, tendiam a se manter distantes da lógica partidária. “Nunca passou pela lógica evangélica assumir o poder, influenciar na política. Até porque a fé protestante é a que mais atuou na construção do Estado laico, justamente porque é um cristianismo tardio, que vai ser perseguido, na Cortina de Ferro e, depois, no mundo islâmico”, afirma.

A lógica, entretanto, passou a entender que “era preciso estar no poder para garantir o avanço da fé, principalmente por causa das perseguições”. Com a chegada da Teologia da Prosperidade, explica Ramos, a mudança seria inevitável. Agora, “se você foi eleito por Deus, você tem prosperidade econômica. Aí virou a coluna que você vê na mensagem da Universal e de todas as neopentecostais. Isso é o ovo da serpente, criou um ambiente que nós temos hoje”.

Por que o número de evangélicos cresce tanto?

De acordo com Marco Fernandes, doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, para entender o que levou o número de evangélicos a aumentar tanto, é necessário estudar as mudanças ocorridas na sociedade brasileira nas três últimas décadas ligadas à precarização da vida da classe trabalhadora. 

“Diante disso, o que as igrejas oferecem para as pessoas? Primeiro, a possibilidade de pertencer a uma comunidade. As Igrejas funcionam como um centro cultural nas periferias. Se um jovem quer aprender a tocar algum instrumento, por exemplo, vai para a Igreja Universal do Reino de Deus”, que, atualmente, têm cerca de 15 programas sociais destinados aos fiéis. De acordo com dados oficiais da Igreja, de 2018, cerca de 10,8 milhões de pessoas foram alcançadas por esses programas.

Outra constatação listada pelo pesquisador é o acolhimento emocional que esses espaços promovem. De acordo com um estudo feito pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), em 2017, os transtornos mentais estão entre as maiores causas de afastamento do trabalho.

“Onde esses trabalhadores vão procurar alívio? Na Igreja. E, de fato, elas melhoram de depressão, ansiedade. Quem cura o alcoolismo hoje nas classes populares são as Igrejas”, afirma Fernandes. Da mesma maneira, “é onde vão achar também um alívio material, mesmo que seja uma cesta básica alimentar no fim do mês”. 

Para Fernandes, as instituições religiosas evangélicas acabam, desse modo, por organizar a vida em sociedade, principalmente em espaços onde o Estado não chega, como nas periferias.

Uma análise

O Brasil teve um presidente protestante na figura do presbiteriano Café Filho, que assumiu o país por pouco mais de um ano após o suicídio de Getúlio Vargas, não tendo sido eleito para a função. Mas como o país adora um presidente que governa sem ter sido eleito para isso, tá valendo. O ditador militar Ernesto Geisel era luterano, mas também não foi eleito pelo voto popular. E até agora, o Brasil não teve alguém na Presidência que se afirmasse como evangélico neopentecostal, com suas liturgias da prosperidade e da cura.

Isso é questão de tempo, haja vista o crescimento de denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus, Renascer em Cristo, Igreja Apostólica Fonte da Vida, Ministério Internacional da Restauração, Sara Nossa Terra, entre outras. E é natural que seja assim. O que não é natural é que isso venha junto com perdas para a dignidade de outros grupos sociais.

O discurso violento de uma parte dos membros de algumas denominações, principalmente contra outras religiões e a população LGBT é incompatível, contudo, com as atribuições constitucionais de um administrador público. Em tese, a tendência é de que, para se tornarem viáveis eleitoralmente para cargos executivos, pessoas que ostentam esse discurso violento abandonem posições mais radicais em busca do voto.

Ou peçam perdão por terem escrito e defendido algo em um passado muito recente.

Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal e sobrinho de Edir Macedo, é o prefeito do Rio de Janeiro. Reportagem de Fernando Molica, no jornal O Globo, mostrou trechos de um livro escrito por ele – e publicado em 2002 no Brasil, quando foi eleito senador – no qual desfere uma série de preconceitos contra outras religiões e contra minorias, tendo como referência o período em que viveu na África para ajudar a implantar a igreja de seu tio.

Ele escreveu que a Igreja Católica e outras religiões cristãs "pregam doutrinas demoníacas" e "tem pregado para seus inocentes seguidores a adoração aos ídolos e a veneração a Maria como sendo uma deusa protetora". E que igrejas de matrizes africanas, abrigam "espíritos imundos" e que praticam o sacrifício de crianças. Disse também que o trabalho de sacerdotes de religiões africanas "é motivado pelo maldito amor ao dinheiro".

Segundo a reportagem, no livro, Crivella diz que demônios são responsáveis por vícios e pela homossexualidade. O prefeito diz que gays não devem ser tratados com menosprezo ou discriminação, mas ressalva que "milhões são vítimas desse terrível mal, vivendo sem paz e numa condição lamentável para o ser humano." E traz alertas: "O pai viciado e adúltero provavelmente passará o mesmo espírito para o seu filho". Para ele, isso explica o fato de "um pai de respeito" passar, de repente, a ser homossexual. "E quando ele morre, o espírito se manifesta no seu filho que prontamente negligencia sua esposa e seus filhos para prosseguir nessa conduta maligna." Entre outras muitas coisas.

Ainda candidato a Prefeitura carioca ele pediu perdão após a publicação da reportagem, dizendo que vivia na "imaturidade da fé". O que mostra que a chance de uma eleição pode converter alguém.

O número de católicos tem caído (de 63%, em 2010, para 50%, hoje, segundo o Datafolha) e o de evangélicos não apenas cresce em número (de 24% para 31%), mas também em presença na política partidária. Durante os últimos anos, um naco conservador dos congressistas religiosos formou uma espécie de bancada fundamentalista, bloqueando projetos de leis que efetivam direitos relacionados à saúde da mulher, educação e questões de gênero – sem contar as tentativa de retrocesso nos direitos já vigentes.

Vale lembrar, porém, que, se por um lado, há parlamentares evangélicos que vociferam contra a dignidade humana, há outros que atuam na defesa dos direitos das minorias, mesmo nos casos em que há conflito com interpretações hegemônicas de sua própria religião, da mesma forma que ocorre com muitos católicos. Um pessoal cujas bases teológicas estão muito mais próximas ideologicamente de mim – que creio no Palmeiras e no combate à justiça social – do que das bases de muita gente de sua própria igreja.

É importante fazer essa ressalva neste momento de polarização extrema e débil, em que pessoas são julgadas politicamente por sua fé. Até porque, no fundo, mesmo aqueles que não se dizem religiosos, uma vez chegando ao poder, atendem às demandas de grupos religiosos ultraconservadores com vistas à chamada governabilidade.

Por exemplo, o combate à homofobia através da educação não avançou quase nada nos últimos anos – por conta da pressão de deputados da bancada fundamentalista e por esse cálculo político. Publicamente, FHC e Dilma foram, no máximo, agnósticos não-praticantes. Mas ajoelharam e disseram amém. E o agnóstico Getúlio Vargas, que tomou o poder através de um golpe, instituiu ensino religioso nas escolas públicas, em 1931, em nome da governabilidade.

Seria um choque o Brasil eleger um presidente declaradamente ateu que não precise esconder isso de seu eleitor com medo que o seu caráter seja, estupidamente, julgado por conta disso. O fato é que o brasileiro aceita mais facilmente alguém que acredita em Deus – mesmo com uma fé diferente da sua – do que alguém que não acredita ou não tem certeza disso. E mesmo que, em nome dessa fé, cometa grandes atrocidades.

No dia em que isso ocorrer, atingiremos a maturidade como democracia. Não porque ateus são melhores, longe disso. Mas porque teremos compreendido que, se o governante zelar pela dignidade e igualdade de direitos de todas as crenças, sua fé pessoal é tão importante quanto o time de futebol pelo qual torce. A não ser pelo Palmeiras, claro, pois isso é evidência de caráter.

O problema nunca é a fé de alguém. Pode-se acreditar na onipotência de Homer Simpson, na onipresença de Goku ou na onisciência de Pikachu e ser um governante bom e justo.

Mas se essa fé é usada como instrumento para causar dor e sofrimento, como caminho para reduzir a dignidade de outra pessoa ou para limitar os direitos fundamentais de outro grupo social, então essa fé é contrária aos princípios constitucionais que um eleito para o cargo de prefeito, governador ou presidente deve assumir. Pois ele não é um parlamentar que representa um grupo, mas alguém que deve governar para todos e todas.

Se houvesse um Deus ou Deusa, esse ser supremo sentiria uma vergonha profunda da suruba entre política e religião que se vê por aqui e uma tristeza de que isso não seja levado em conta na hora do voto. E guardaria tudo para o Dia do Juízo Final.

Mas como não existe nada lá em cima, além da nossa criatividade, passou da hora de tomarmos as rédeas da nossa própria vida.


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