Semana On

Domingo 31.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Poder

Tática Bolsonaro: Quando não souber como responder, xingue os jornalistas

Caberá à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, ou está satisfeita com a uma "Verdade" distribuída por redes sociais pelo chefe do Poder Executivo

Postado em 17 de Janeiro de 2020 - Leonardo Sakamoto (UOL), DW, Congresso em Foco – Edição Semana On

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Quando Jair Bolsonaro é posto contra as cordas por perguntas de jornalistas que ele não sabe responder (ou sabe que sua resposta comprometerá ainda mais o governo), ataca o profissional e a imprensa. A comparação mais válida é com uma criança pequena que roubou o lanche da outra no recreio e, inquirida pelo coleguinha, diz que ele é bobo, feio e mal - sem responder aonde está o sanduba.

O presidente da República mandou, na manhã de quinta (16), a repórter Talita Fernandes calar a boca. "Fora, Folha de S.Paulo, você não tem moral para perguntar, não", afirmou. "Cala a boca", disse à reportagem, pedindo questões de outros veículos. Temos um mandatário que não entende de administração econômica, mas é um sommelier de entrevista.

O jornal questionava Bolsonaro sobre o que ele iria fazer diante do conflito de interesses em que está metido seu secretário de Comunicação Social, Fabio Wajngarten. Ele é sócio de uma empresa que presta serviços para veículos de comunicação que, por sua vez, têm contratos de propaganda liberados com sua pasta.

"Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele", disse Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada.

À noite, ele voltou à carga. Questionado pela Folha se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu "Está falando da tua mãe? Você está falando da tua mãe?"

Fosse qualquer outro presidente falando isso, o fato seria uma das principais notícias do dia. Mas como é Jair Bolsonaro, isso praticamente desapareceu. Não por censura, mas por ser apenas mais um bafo em sua névoa de insultos, ameaças, ataques, agressões, machismos, homofobias, que turva a democracia brasileira desde Primeiro de Janeiro.

Esse comportamento se repete ad nauseam. No dia 20 de dezembro, ao ser inquirido por jornalistas a respeito da investigação sobre peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo seu filho Flávio e seu brother de longa data Fabrício Queiroz, Bolsonaro resolveu tratar da sexualidade de jornalistas, novamente na frente do Alvorada.

"Você tem uma cara de homossexual terrível, nem por isso te acuso de ser homossexual, se bem que não é crime ser homossexual", afirmou para o delírio de uma claque de fãs. Após um jornalista perguntar sobre comprovantes de transações que envolviam Queiroz e sua família, disse: "Ô rapaz, pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?"

Naquela ocasião, Bolsonaro também não sabia o que responder.

Caso ache que foi profundamente agredido por conteúdos publicados por jornalistas (e ele deve ter o sarrafo de paciência mais alto que todas as outras pessoas do país exatamente pelo cargo que ocupa), deveria buscar junto ao veículo de comunicação, seu direito de resposta. E se isso for insuficiente, procurar na Justiça uma reparação. E não agredir profissionais de imprensa.

Um detalhe que já disse aqui: o presidente se mostra especialmente violento contra jornalistas mulheres.

Os ataques não se resumem a enxurradas de críticas, o que faria parte do debate público. Hordas bolsonaristas instigadas por suas falas, invadem a vida privada dos profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando famílias. Por vezes, transborda a rede e vai para a rua, para o restaurante, para a porta da casa.

Como já disse aqui, esse processo de ataque sistemático a profissionais de imprensa se assemelha à tortura - instrumento de trabalho do açougueiro Brilhante Ustra, assassino da ditadura militar, apontado como herói por Bolsonaro. Não para que o profissional em questão seja apenas punido pelo que fez, mas para que, traumatizado, nunca mais tenha coragem de tratar do assunto novamente.

Caberá à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou está satisfeita com a proposta colocada à mesa nas últimas eleições: substituir a pluralidade e o contraditório por uma "Verdade" distribuída por lives no Facebook ou em posts no Twitter pelo chefe do Poder Executivo. Uma verdade rasa que esconde um profundo vazio.

Bolsonaro é autor de mais da metade dos ataques a jornalistas em 2019, diz Fenaj

O presidente Jair Bolsonaro, sozinho, é responsável por mais da metade dos ataques a veículos de comunicação e a jornalistas registrados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2019, afirmou a organização.

No ano passado foram 208 casos de ataques a veículos de comunicação e a jornalistas, um aumento de 54,07% em relação ao ano anterior, quando foram registradas 135. Bolsonaro foi o autor de 121 deles (58,17% do total).

São 114 ofensivas genéricas e generalizadas, além de sete casos de agressões diretas a jornalistas. A maioria foi feita em divulgações oficiais da Presidência da República (discursos e entrevistas do presidente, transcritos no site do Palácio do Planalto) ou no Twitter de Bolsonaro.

"A postura do presidente da República – ou melhor, a falta dela – mostra que, de fato, a liberdade de imprensa está ameaçada no Brasil. O chefe de governo promove, por meio de suas declarações, sistemática descredibilização da imprensa e dos jornalistas. Com isso, institucionaliza a violência contra a imprensa e seus profissionais como prática de governo", afirmou a presidente da Fenaj, Maria José Braga.

Numa entrevista em dezembro, Bolsonaro pôs em dúvida a sexualidade do repórter que o questionava sobre o filho Flávio Bolsonaro, que é senador e estaria envolvido num suposto esquema de "rachadinha" que funcionava no gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. "Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual", disse o presidente.

Na mesma entrevista, ele respondeu de forma ofensiva a um jornalista que o perguntou sobre o comprovante de um empréstimo feito a Fabrício Queiroz. "Ô, rapaz, pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?"

Além dos ataques do presidente, os jornalistas brasileiros foram vítimas de outras violências em 2019, relatou a Fenaj. Houve dois assassinatos, 28 casos de ameaças/intimidações, 20 agressões verbais, 15 agressões físicas, dez casos de censura e outros de impedimentos ao exercício profissional, cinco ocorrências de cerceamento à liberdade de imprensa por ações judiciais, dois casos de injúria racial e outros dois de violência contra a organização sindical da categoria.

A Fenaj destacou que o número real deve ser bem maior, pois muitos casos não são denunciados pelas vítimas.

Os jornalistas Robson Giorno e Romário da Silva Barros, ambos com atuação em Maricá (RJ), foram assassinados em 2019. Em 2018, havia ocorrido um assassinato e, em 2017, nenhuma morte em razão do exercício profissional fora registrada pela Fenaj. Ainda foi assassinado o radialista Claudemir Nunes, que atuava numa rádio comunitária em Santa Cruz de Capiberibe (PE).

Presidente agride jornalista para evitar prestar informações, diz Abraji

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) criticou a postura do presidente nesta semana. "O presidente Jair Bolsonaro apelou mais uma vez à agressão para evitar prestar contas de seu mandato à sociedade", afirmou a entidade, em nota.

De acordo com a Abraji, o presidente "lança mão, de forma reiterada, à tática de atacar repórteres em lugar de responder aos questionamentos sobre seu governo". "Atacar repórteres, em vez de esclarecer o fato noticiado, é uma atitude típica de líderes autoritários e infringe a obrigação de autoridades prestarem contas de suas atividades à sociedade", diz a entidade.


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