Semana On

Sexta-Feira 10.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Poder

Secretário de Comunicação do Governo Federal recebe dinheiro de empresas contratadas pelo governo

Enquanto isso, o Jair Bolsonaro quer que você finja que nada aconteceu

Postado em 17 de Janeiro de 2020 - Congresso em Foco, Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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O chefe da Secretária de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Fábio Wajngarten, recebe dinheiro de empresas contratadas pela própria secretaria, por meio de uma empresa da qual é sócio.

Mesmo após assumir o cargo no Planalto, o publicitário continua como principal sócio da FW Comunicação e Marketing, que tem contratos com pelo menos cinco empresas que recebem verbas do governo.

A legislação proíbe integrantes da cúpula do governo de manter negócios com pessoas físicas ou jurídicas que possam ser afetadas por suas decisões, prática conhecida como conflito de interesses. Caso o benefício indevido seja comprovado, o ato se caracterizaria como improbidade administrativa, que pode levar à demissão do cargo.

A Secom é responsável por definir a destinação da verba de propaganda do Planalto, além de ditar regras para as contas dos demais órgãos federais. Só no ano passado, a secretaria gastou R$ 197 milhões em campanhas.

Entre as empresas que recebem dinheiro do governo por meio da Secom e também têm vínculos com a FW estão as emissoras Record e Band, que viram suas participações na verba publicitária do governo crescer no governo Bolsonaro.

Em 2019, a Band gastou R$ 109 mil no ano com a FW em serviços de consultoria. O valor mensal do vínculo, R$ 9.046, corresponde à metade do salário do chefe da Secom, que é de R$ 17,3 mil.

A quantia foi confirmada pelo Grupo Bandeirantes, que informou contratar a FW desde 2004 e afirmou que a empresa "presta serviços para todas as principais emissoras da TV aberta".

Wajngarten confirmou que mantém relações comerciais com a Record e a Band, mas não informou os valores, alegando cláusulas de confidencialidade. Além das emissoras, a empresa do chefe da Secom também presta serviços para agências de publicidade que têm contratos com o governo, entre elas a Artplan, a Nova/SB e a Propeg. O valor pago pelo serviço de checking é de R$ 4.500, segundo a Propeg.

Em agosto do ano passado, Wajngarten assinou um termo aditivo e prorrogou por mais um ano o contrato da Artplan com a Secom, de R$ 127,3 milhões.

Em janeiro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) renovou por mais 12 meses o vínculo com a Nova/SB e a Propeg. As duas empresas também conseguiram esticar seus vínculos com oos ministérios da Saúde e do Turismo.

Mudança na distribuição

Na gestão de Wajngarten a Secom passou a destinar mais verbas para a Band, Record e SBT, enquanto a Globo, líder de audiência, teve seus repasses reduzidos a um patamar mais baixo que o das concorrentes.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o publicitário é um crítico recorrente da Globo e acusa a emissora carioca de perseguir o governo.

De 12 de abril, data em que Wajngarten assumiu o posto na Secom, a 31 de dezembro de 2018, a Secom destinou à Band 12,1% da verba publicitária para TVs abertas, ante 9,8% no mesmo período de 2018.

Já a Record conseguiu 27,4% e o SBT 24,7% – no ano anterior, as duas emissoras haviam recebido, respectivamente, 23,6% e 22,5%. Os dados foram obtidos com base em dados da Secom.

O Tribunal de Contas da União (TCU) investiga possível distribuição de verbas oficiais por critérios políticos, com o intuito de favorecer emissoras alinhadas com o governo.

Os programas dos apresentadores José Luiz Datena, da Band, e Ratinho, do SBT, escolhidos recorrentemente pelo presidente para dar entrevistas em que defende posições adotadas pelo governo, vêm sendo contemplados com dinheiros de propaganda.

Descalabros demais ao redor de Jair Bolsonaro

Descobriu-se que Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, flerta com o inaceitável. Jair Bolsonaro reagiu ao inadmissível como se operasse em duas velocidades.

Ao hesitar em afastar seu secretário de Comunicação, o presidente revelou-se intelectualmente lento. Mantendo-o por mais tempo na função, reforçará a suspeita de que é um político eticamente ligeiro.

As duas velocidades de Bolsonaro são insultuosas. A lentidão intelectual afeta a própria autoridade do presidente, pois fica no ar a sensação de que o derretimento moral do Zero Um Flávio Bolsonaro fez da anormalidade um outro nome para normal no governo do capitão.

A ligeireza moral transforma de sólido em gasoso o discurso ético de Bolsonaro. Ele prometera na campanha honrar os eleitores que lhe deram votos no pressuposto de que saciaria a fome de limpeza que pairava sobre as urnas.

Se quisesse ser levado a sério, Bolsonaro mandaria o secretário Fabio Wajngarten para o olho da rua. Impossível manter no Planalto um auxiliar que mantém um pé em cada lado do balcão e não enxerga o conflito de interesses na imagem do espelho.

O diabo é que há descalabros demais ao redor do presidente— o filho acusado de peculato e lavagem de dinheiro, o ministro do Meio Ambiente condenado por improbidade, o ministro do Turismo denunciado por cultivar um laranjal em Minas Gerais, o líder no Senado enrolado na Lava Jato, isso e aquilo...

Em privado Bolsonaro declara-se chateado com o chefe da Secom e com o noticiário. Deveria aborrecer-se consigo mesmo. Do contrário, não conseguirá notar que uma característica inusitada dos cultores da falta de ética se observa no governo. Os malfeitores estão sempre em outros ambientes —principalmente nas redações de jornal.

Wajngarten teve impulso de Carlos e fritou ministros antes de virar alvo

Guindado à chefia da Secretaria de Comunicação da Presidência como solução para a dificuldade de relacionamento de Bolsonaro com a imprensa, Wajngarten tornou-se parte do problema em menos de dez meses. Virou um típico caso de feiticeiro que termina enfeitiçado.

Wajngarten ascendeu ao posto em abril de 2019 com o apoio do vereador carioca Carlos Bolsonaro. Beneficiou-se da carbonização de um ministro palaciano, Gustavo Bebianno. Participou da fritura de outro ministro com gabinete no Planalto, o general Carlos Alberto Santos Cruz. Deu no que está dando.

Em vez de servir de ponte entre o Planalto e a mídia, Wajngarten associou-se a Bolsonaro nos ataques à imprensa. Virou alvo de Carlos, o filho Zero Dois do presidente. Revelou-se um colecionador de desafetos. Um deles ironiza, em privado: "Vaidoso, o Fabio transformou sua vitrine num forno de micro-ondas."

Quando Wajngarten chegou ao Planalto, havia um consenso quanto à existência de uma crise no setor de comunicação. Planejava-se buscar aliados e evitar confusões.

Com o tempo, o assessor tornou-se uma modalidade sui generis de conselheiro, do tipo que quer ver o sangue daqueles que o chefe enxerga como inimigos.

Associou-se a Bolsonaro nos ataques à Folha e ao Grupo Globo. Chegou mesmo a sugerir boicote dos anunciantes. Na gestão de Wajngarten, a audiência deixou de ser um critério para a aplicação de verbas publicitárias oficiais. Subiram os repasses ao SBT e à Record —emissoras da predileção de Bolsonaro—, em detrimento da Globo.

Santos Cruz e Bebianno ficaram no caminho

Enquanto esteve no comando da pasta da Secretaria de Governo, o general Santos Cruz impediu o desvirtuamento técnico do orçamento publicitário. Superior hierárquico da Secom, vivia às turras com Wajngarten. A exoneração do general deu mais autonomia ao secretário.

A queda de Santos Cruz foi urdida numa parceria do polemista Olavo de Carvalho com Carlos Bolsonaro. Influenciado pelas opiniões do guru e, sobretudo do filho, o presidente levou à bandeja o escalpo de um amigo de três décadas. Foi o segundo ministro palaciano a ser defenestrado em seis meses.

Antes de Santos Cruz, afastara-se Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral). Durante a disputa presidencial de 2018, Bebianno torcera o nariz para as tentativas de Wajngarten de influenciar nos rumos da campanha. O agora secretário conhecera Bolsonaro em 2016, num jantar na casa do empresário Meyer Nigri, da construtora Tecnisa.

Depois, Wajngarten organizou outros encontros de Bolsonaro com empresários. Achegou-se um pouco mais ao capitão depois da facada. Visitava-o amiúde no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Nessa época, Carlos Bolsonaro, que não desgrudava do pai, encantou-se com o visitante.

Na mesma época, Carluxo, como o Zero Dois é chamado na intimidade, cavou os pretextos que levaram à demissão de Bebianno. Entre eles uma audiência concedida pelo então ministro a um diretor da Rede Globo.

Carlos Bolsonaro, amigo e inimigo

No final de 2019, um ano em que a principal marca da oposição foi a inoperância, Carlos Bolsonaro decidiu acumular as atribuições de amigo e inimigo do governo. Considerando-se o principal defensor da gestão do pai, voltou a lamentar que o setor de comunicação do Planalto não siga o seu exemplo.

Em postagem nas redes sociais, o filho do presidente anotou ser "lamentável" ter de lutar "para mostrar o que tem sido feito de bom 24h ao dia, enquanto se vê uma comunicação do governo que nada faz". Foi um ataque direto ao trabalho de Wajngarten.

Ironicamente, Wajngarten festejara meses antes ataques do mesmo nível dirigidos por Carluxo ao porta-voz da Presidência, o general Otávio do Rêgo Barros. O chefe da Secom e o segundo filho uniram-se nas críticas aos cafés que o porta-voz organizava semanalmente para aproximar Bolsonaro dos jornalistas. À mesa, o presidente pronunciava frases que eletrificavam o noticiário, desgastando-o.

"Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira", disse Bolsonaro, por exemplo, numa mesa em que os garçons do Planalto serviam a jornalistas estrangeiros guloseimas custeadas pelos brasileiros em dia com o Fisco.

"Desses governadores de Paraíba, o pior é o do Maranhão", balbuciou o presidente, num lapso captado pelas câmeras da empresa oficial de comunicação. Comum no Rio de Janeiro, onde todo nordestino é um "paraíba", a metonímia veio acompanhada de um complemento que revelou pendores antirrepublicanos em relação a Flávio Dino, o governador comunista do Maranhão:

"Tem que ter nada pra esse cara". Em verdade, sonegam-se recursos federais não para "esse cara", mas para os "paraíbas" do Maranhão.

Irritado ao ver o pai pendurado nas manchetes de ponta-cabeça, Carlos Bolsonaro investiu contra os cafés de Rêgo Barros: "Não critico homens mas modus operandi, me colocando sempre em situações difíceis", ralhou o Zero Dois nas redes sociais.

Carluxo arrematou: "Quando a militância espontânea cansar de defender o governo, que faz um bom trabalho, nada sobrará, pois sua comunicação é e pelo jeito continuará sendo ruim e então seremos massacrados pela mídia."

Dos cafés aos portões do Alvorada

Sob ataque, Rêgo Barros recolheu-se. Por inspiração de Wajngarten, os cafés matinais foram substituídos por entrevistas, concedidas defronte do portão do Palácio da Alvorada. Desde então, as polêmicas passaram a soar não semanalmente, mas em ritmo praticamente diário.

Sem se dar conta de que o problema está na língua do pai, Carluxo agora direciona seus ataques ao ex-queridinho Wajngarten. A fritura do chefe da Secom tende a ser demorada, pois Bolsonaro não costuma afastar quem briga com seus hipotéticos inimigos. Nesta quinta-feira, o presidente deu de ombros para as revelações da Folha:

"Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele", disse o presidente ao anunciar, na saída do Alvorada, que Wajngarten será mantido no cargo.

Bolsonaro quer que você finja que nada aconteceu

"Essa imprensa que aqui está me olhando", declarou o presidente. "Comecem a produzir verdades, porque só a verdade pode nos libertar."

Magnânimo, emendou: "Não tomarei nenhuma medida para censurá-la, mas tomem vergonha na cara."

O contrário do antigovernismo primário é um pró-governismo inocente, que aceita todas as presunções de Jair Bolsonaro a seu próprio respeito.

Em matéria de ética, isso inclui concordar com a tese segundo a qual o capitão veio ao mundo para desempenhar uma missão que, por ser divina, é inquestionável.

Bolsonaro considera-se beneficiário de dois "milagres". Num, sobreviveu à facada. Noutro, foi eleito presidente do Brasil. Por isso, acha que foi "escolhido por Deus".

Todo líder político cultiva a fantasia da excepcionalidade. Bolsonaro inclui-se no grupo dos que exageram.

Evocando o versículo do Evangelho de João —"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"—, o capitão imagina que seu destino evangelizador o dispensa de dar explicações.

Não é o cinismo de Bolsonaro que assusta. O cinismo pelo menos é uma estratégia compreensível para um presidente que se diz amigo do Queiroz e está rodeado de filhos, ministros e auxiliares encrencados com a lei.

O que espanta é perceber que Bolsonaro fala como se acreditasse de verdade que sua missão sublime lhe dá o direito de atentar contra a inteligência alheia.

Desprezadas a lógica e os fatos, sobram o cinismo e a licença dada por Bolsonaro a si mesmo para tratar os brasileiros como bobos.

"A nossa imprensa tem medo da verdade", bateu Bolsonaro. "Deturpam o tempo todo. E quando não conseguem deturpar, mentem descaradamente!"

Bolsonaro passara o dia sob os efeitos da notícia que revelara a dupla militância do secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten.

O secretário é sócio de empresa que mantém negócios com tevês e agências contratadas pela Secom.

Mais cedo, Bolsonaro mandara uma repórter da Folha, jornal que havia veiculado a reportagem, calar a boca.

Espremido sobre os contratos da firma de Wajngarten, o presidente partiu para a grosseria: "Tá falando da sua mãe". E a repórter: "Não, estou falando do secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten."

No fundo, ao sonegar explicações à imprensa, Bolsonaro pede aos brasileiros que façam como ele, se fingindo de imbecis pelo bem da pátria.

Bolsonaro foi alertado para a evidência de que Wajngarten tornou-se um caso clássico de conflito de interesses. Mas não convém colocar em risco a tranquilidade do governo por algo tão supérfluo como a verdade.

Não seria o primeiro sacrifício, apenas mais uma história mal contada em meio a tantas outras: o amigo Queiroz e as cifras repassadas à primeira-dama Michelle, os filhos sob investigação, os ministros enrolados...

De resto, um povo que por 13 anos foi espoliado pelo lulopetismo e seus comparsas já tem prática no papel de bobo. Bolsonaro raciocina com seus botões: Um embuste a mais, um embuste a menos...


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