Semana On

Sexta-Feira 28.fev.2020

Ano VIII - Nº 381

Coluna

O bolsonarismo é uma rebelião do baixo clero

Idelber Avelar estreia sua coluna na Semana On

Postado em 16 de Janeiro de 2020 - Idelber Avelar

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Todo o Brasil não-bolsonarista terá que lidar com, aceitar, entender esta básica ideia; o bolsonarismo é uma rebelião do baixo clero. Ele não é só isso, claro; é um monte de outras coisas. Mas ele é isso em todas as dimensões da vida social em que se manifesta, me parece. Dou um exemplo com meu campo favorito, o futebol.

Bolsonaro fez uma live hoje falando sobre taxação de energia com a camisa do Grêmio. Não vi a live. Ela só me serve como mote para voltar ao tema da relação de Bolsonaro com as camisas de futebol.

Não sei em outros países, mas no Brasil o universo das pessoas que usam camisas de futebol pode ser dividido em dois grupos. Ambos são predominantemente masculinos, mas muitas mulheres usam também.

O primeiro grupo é o dos boleiros. Estes são os que têm um time de coração, acompanham futebol, muitas vezes jogaram em várzea ou categorias de base, como eu, ou são profissionais do esporte (jogadores, técnicos, jornalistas etc.). Enfim, boleiros. Se você já deu uma espiadela no SporTV terça-feira à noite para ver a Série B, você é boleiro.

Boleiros usam a camisa do seu time de coração e podem usar outras, mas não usam QUALQUER camisa. Eu tenho uma coleção de camisas do Galo, e já vesti (entre os grandes) do Palmeiras, do Vasco, do Inter; e, claro, outras de times "médios" ou "menores" (Sampaio, Ponte, Vozão etc.) ou estrangeiros (Rosario Central, St. Pauli's etc.) dos quais eu gosto. Mas, enfim, não é qualquer camisa. Todos os meus amigos gremistas me respeitam porque sabem que no RS só vou usar Colorado e nos encontramos depois do jogo para beber, todos. Mas nenhum boleiro respeita um vira-casacas.

O bolsonarismo inaugura a inacreditável figura do Presidente que se elegeu depois de usar as camisas de todos os quatro grandes do Rio. Claramente, Bolsonaro não é um boleiro, apesar de usar camisas de futebol toda hora.

Qual é o segundo grupo de brasileiros que usam camisas de futebol e não são boleiros? É aquela figura que poderíamos caracterizar, em bom português brasileiro do século XXI, como TIOZÃO DO CHURRASCO.

O tiozão do churrasco usa QUALQUER camisa de futebol. Ele é capaz de instalar a camisa de futebol até naquela saída noturna em que a esposa dele implorou por uma camisa social e blazer. O tiozão do churrasco cometerá gafes terríveis, como ir a uma festa de palmeirenses com a camisa do Cruzeiro, pensando que são amigos por serem Palestras (como se sabe, os palestrinos de SP são amigos dos alvi-negros de BH, não dos azuis).

Todos os boleiros e boleiras que leem esta página concordarão comigo, creio, quando digo que os boleiros sempre desprezamos os tiozões do churrasco -- porque no fundo, se eles vestem qualquer uma, eles estão dizendo que aquelas camisas não valem nada. Assim vê as coisas um boleiro.

E os tiozões do churrasco sabiam que nós, boleiros, os desprezávamos, embora alguns de nós ingenuamente acreditássemos que eles não o percebiam. E se rebelaram, com fúria e grosseria. E ganharam. E estão governando o país. É isso.

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COMITÊ DE SEGURANÇA GRAMATICAL DA ONU

“Imprecionante. Quer dizer, imprescionante. Não, impreçionante. Mentira, eu quis dizer impresçionante. Viu? Não çai. Paresse texto do Kafta.”

Foi com essas palavras que o corretor ortográfico do ministro Abraham Weintraub pediu asilo político em Portugal, na esperança de voltar a ter seus direitos ortográficos respeitados. O pedido foi prontamente apoiado pela ONG Iphones Sem Fronteiras.

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A MEMÓRIA DE MARIELLE, O CHOCOLATE COM LARANJA DE BOLSONARO E A (NÃO) FRONTEIRA CRIME-ESTADO


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