Semana On

Terça-Feira 25.fev.2020

Ano VIII - Nº 381

Coluna

O cinema brasileiro no Oscar

Democracia em Vertigem faz história ao ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Documentário

Postado em 16 de Janeiro de 2020 - Danilo Custódio

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Desde o golpe que impediu a presidenta Dilma de concluir seu mandato a frente do executivo brasileiro, o cinema nacional vem sendo minado. De lá pra cá, além da extinção do Ministério da Cultura, o governo de Bolsonaro avança com o desmonte da indústria cinematográfica brasileira em nome da “família” e dos “bons costumes”. Depois de testemunharmos o próprio Presidente boicotando a dedo algumas obras com temática LGBTQI+, ainda veio a promessa de indicar para a Agencia Nacional de Cinema (Ancine) alguém “terrivelmente evangélico”, com “a Bíblia embaixo do braço, joelho ralado no milho e que saiba 200 versículos da Bíblia”, segundo as palavras do próprio Bolsonaro.

Contrariando mais uma vez a promessa de campanha de só fazer nomeação técnica para os cargos públicos na gestão, Bolsonaro nomeou Edilásio Barra para assumir a Superintendência de Desenvolvimento Econômico da Ancine. O Tutuca, como é conhecido, é fundador da Igreja Continental do Amor de Jesus, que tem sede no Rio de Janeiro, e o pastor é o atual responsável pelas operações das Chamadas Públicas do Fundo Setorial do Audiovisual, que movimentou em 2018 mais de 800 milhões de reais. O cargo também responde por estimular a diversificação da produção para o cinema e TV, além do fortalecimento da produção independente e das produções regionais através do FSA.

É a hipocrisia escancarada de um governo que foi eleito prometendo combater as pautas ideológicas, mas que acabou afundado nelas ao desfilar de mãos dadas com políticos evangélicos da pior espécie. Foi, sem sombra de dúvidas, o pior ano para o cinema brasileiro desde o governo Collor. Ainda assim, em meio a tanto caos, as produções nacionais seguem firme na sua trajetória de levar o nosso cinema para o topo dos festivais, concorrendo aos prêmios mais importantes do mundo.

Em 2019, vimos Divino Amor ganhar destaque em Sundance e na Berlinale, onde também marcou presença o maravilhoso Estou me guardando para quando o carnaval chegar. Em Berlin também aconteceu a estreia de Marighella, que foi aplaudido e ovacionado em exibições por diversos países ao longo do ano, mas que acabou censurado no Brasil pelo Governo Bolsonaro por abordar o protagonismo da guerrilha armada contra a ditadura militar tupiniquim. E teve também o No coração do mundo, que brilhou em Roterdã, além de A Vida Invisível e Bacurau em Cannes, com os realizadores brasileiros sendo aplaudidos de pé por uma plateia de críticos, cineastas e público geral.

Para fechar com chave de ouro, Democracia em Vertigem foi anunciado na última segunda (13) como um dos cinco concorrentes ao Oscar 2020, na categoria de Melhor Filme Documentário. No dia seguinte, irritado com a indicação, o presidente Bolsonaro disse na saída do Palácio da Alvorada que o documentário é "Ficção. Para quem gosta do que o urubu come, é um bom filme". Lançado pela Netflix em junho de 2019, o longa retrata os bastidores do processo de impeachment de Dilma Rousseff e a crise política no Brasil. Em entrevista concedida ao Portal Terra publicada ontem, o ex-presidente Lula disse que agora “vão dizer que o PT comprou a Academia”.

Trata-se de um feito histórico. É a primeira vez que um documentário brasileiro é indicado ao Oscar. Anteriormente, apenas três co-produções nacionais com países diversos receberam a indicação: Raoni, indicado em 1979; Lixo Extraordinário, em 2011; e O Sal da Terra, em 2015. Apesar de ser considerado um azarão por críticos e sites de apostas, Democracia em Vertigem é um filme belíssimo, com linguagem visual e sonora que sensibilizam e uma estrutura narrativa impressionante. Vale muito a pena ver, confira!

Marighella estreia em 14 de maio. ‘Esquecimento é amigo da barbárie’

A história que muitos não querem que seja conhecida finalmente ganha data de estreia nos cinemas. Marighella, o filme, vai estrear no dia 14 de maio. Para chegar no circuito, a obra teve de passar por ataques e tentativas de censura, especialmente do governo de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Hora de encher os cinemas do Brasil. O esquecimento é amigo da barbárie. O conformismo é a morte”, disse Mário Magalhães, escritor do livro que deu origem ao filme.

O filme é o primeiro trabalho de Wagner Moura como diretor e já contou com algumas pré-estreias em festivais, sendo aplaudido de pé em Berlim no ano passado. A biografia escrita por Mário Magalhães, Marighella: O homem que incendiou o mundo, retrata os últimos cinco anos de Carlos Marighella, líder revolucionário, guerrilheiro, escritor e político assassinado pela ditadura civil-militar (1964-1985) em 1969. Nas telas, Seu Jorge retrata o personagem principal e contracena com Adriana Esteves, Bruno Gagliasso, Humberto Carrão, entre outros.

Marighella foi planejado para estrear nos cinemas no dia 20 de novembro, por conta do Dia da Consciência Negra. Entretanto, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) impôs uma série de condições para o lançamento da obra, o que impediu a estreia em 2019. “É este o filme que não consegue estrear no Brasil. É esta a história que não querem que seja conhecida. É este o personagem que pretendem condenar ao esquecimento”, disse Mário Magalhães na ocasião, denunciando a censura.

Intimidação e censura contra o cinema nacional são práticas corriqueiras em um Brasil sob a sanha ultraconservadora da extrema-direita. Ataques de Bolsonaro e de pessoas ligadas ao governo são constantes e ferozes. A Cultura, ao lado da Educação, foram escolhidas como inimigas do bolsonarismo. No início da semana, após o documentário Democracia em Vertigem, da cineasta Petra Costa, ser indicado ao Oscar, Bolsonaro não perdeu tempo. “É para quem gosta do que o urubu come”, disse. Na mesma fala, reconheceu que não assistiu ao filme.

Durante a ditadura civil-militar, Marighella foi a metonímia do inimigo da vez. Rotulado pelo delegado Lucio como “inimigo público número um”, o revolucionário foi amplamente atacado pela imprensa e setores conservadores. A ação de Marighella foi radicalizada conforme a ditadura mostrava mais suas garras opressoras. Nascido em 1911, atuou durante anos no PCB, o Partidão, com quem rompeu durante a ditadura para fundar a Ação Libertadora Nacional (ALN).


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