Semana On

Terça-Feira 18.fev.2020

Ano VIII - Nº 380

Especial

O caos na Educação

Desigualdade entre alunos ricos e pobres no Brasil está entre as maiores do mundo. Enquanto isso, MEC quer queimar livros

Postado em 13 de Janeiro de 2020 - Huffpost, Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Ana Carolina Moreno e Marcelo Valadares (G1) – Edição Semana On

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Livros didáticos nunca entregues a alunos podem ser descartados pelo MEC (Ministério da Educação). A informação é do jornal o Estado de S.Paulo. Segundo a publicação, são 2,9 milhões de exemplares comprados em gestões anteriores ao custo de R$ 20 milhões. 

O processo para se desfazer do material, que estaria desatualizado, começou no fim do ano passado. Conforme disse então a área logística do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), havia a necessidade de reduzir o estoque armazenado em um depósito alugado dos Correios em Cajamar, na Grande São Paulo. 

O ministro da Educação, Abaham Weintraub, foi às suas redes sociais afirmar que se está fazendo uma polêmica em cima de algo que para ele é indiscutível. Ele afirmou que os livros didáticos custam quase R$ 2 bilhões por ano e 165 milhões deles são distribuídos anualmente. 

Olavista de carteirinha, Abraham destacou que os novos livros do governo não vão “ter ideologia”. “É pra ensinar a ler, a escrever, ciência, matemática. Não é para doutrinar. Isso é coisa do passado”.

Sem citar nomes, referiu-se à TV Globo e à reportagem do Fantástico em que a emissora mostrou o descarte de alguns livros, e que muitos estavam sendo reciclados e acabavam virando papel higiênico. 

Abraham entrou no MEC em abril do ano passado para substituir Ricardo Vélez após este ter acumulado uma série de polêmicas, mas ele próprio não tem passado ileso em sua gestão. 

Fiasco da Educação tem as digitais de Bolsonaro

A “queima de livros” não é de responsabilidade exclusiva de Weintraub. O que é um fenômeno? Um ministro inepto não é um fenômeno. O ministério da Educação não é um fenômeno. Um presidente sem freios não é um fenômeno. Fenômeno é um ministro, incapaz de todo, ser mantido na pasta da Educação por um presidente como Jair Bolsonaro, capaz de tudo.

Não fica bem pensar mal de Weintraub e usar luvas de renda para falar de Bolsonaro. Ao veicular nas redes sociais um novo vídeo estrelado por seu ministro, o presidente reforçou a sensação de que o grande problema do MEC não é o comandante da pasta, mas o chefe dele.

No vídeo trombeteado por Bolsonaro, o ministro sustenta sua tese predileta. A tese de que a administração pública é um ninho de esquerdistas. Atribui a hipotética anomalia ao viés ideológico dos concursos públicos. Citou como exemplo um teste da Agência Brasileira de Inteligência.

"Entre na internet e veja como foi o último concurso público da Abin. Se você ver, é um concurso que tem praticamente nada de matemática e está lá falando governo estado-unidense. Então você, na seleção, já seleciona pessoas com viés de esquerda nos concursos, como é o Enem."

Cada ideologia tem a inquisição que merece. Mas o ministro precisa explicar em que sílaba se esconde o esquerdismo nos meandros do termo estado-unidense, um inofensivo sinônimo de americano. Do contrário, esmagará os calos do general Augusto Heleno, superior hierárquico da Abin -com a ajuda do capitão.

Um chefe que se cerca de ministros tantãs imagina garantir, por contraste, uma aparência de sensato. Mas Bolsonaro exagera no MEC. Ali, o capitão é reincidente. Antes Weintraub, nomeara Vélez Rodrigues, uma piada colombiana. No alvorecer do segundo ano de governo, já não é mais possível terceirizar todas as culpas.

Ao endossar reiteradamente a esquizofrenia de Weintraub, Bolsonaro não deixa margem para qualquer tipo de dúvida. O fiasco da Educação tem as digitais do presidente da República. Pior do que a patrulha ideológica só mesmo a picaretagem ideológica.

"Imprecionante" não é Weintraub, mas Bolsonaro não ter ministro da Educação

Impressionante não é o ministro da Educação ter escrito "imprecionante". Tampouco grafar paralisar com "z". Ou chamar o escritor tcheco Kafka de kafta, o prato árabe.

Isso poderia passar para a história como folclore político caso ele fosse competente, preparado e mentalmente equilibrado para conduzir a educação brasileira diante de seus desafios. Mas não é.

Também não é um bufão, apesar dos vídeos dançando com guarda-chuvas. Os bobos da corte faziam rir, enquanto Abraham Weintraub é violento. Em agosto, por exemplo, curtiu uma postagem com ameaças de violência física a estudantes, com imagens de tacos de baseball cobertos com arame farpado. E, não raro, os bobos tinham a liberdade de criticar reis e rainhas e falar a verdade sobre o reino em suas performances. Já Weintraub não ousa dizer o que Bolsonaro não quer ouvir.

Pois se o presidente é o pet de Donald Trump, Weintraub é o pet do presidente.

Impressionante ou "imprecionante" é Jair Bolsonaro ter mantido a cadeira de ministro da Educação vazia por mais de um ano, colocando pessoas despreparadas, nocivas para o país, como prepostos que desperdiçaram nosso tempo. Substituiu a busca pela melhoria da educação básica e superior e pelo aumento da produtividade da força de trabalho por debates que interessam ao passado, não ao futuro.

Se ele tivesse indicado um profissional, seja de direita ou de esquerda, a tarefa estaria em curso e, neste momento, haveria discordância de linhas a serem adotadas, como em qualquer discussão democrática, mas não ojeriza e desalento.

Melhor seria se Bolsonaro tivesse repatriado Olavo de Carvalho, guru ideológico de sua família, para ocupar o cargo diretamente. Correríamos o risco da implantação do terraplanismo? Sim, mas, ao menos, a fonte desse "projeto" poderia defendê-lo sem intermediários à sociedade brasileira, que poderia abraçá-lo ou refutá-lo.

O Brasil conta com uma formação precária dos docentes e com alunos que saem do Ensino Médio analfabetos funcionais. Assiste a roubo, ausência e baixa qualidade da merenda escolar. Paga baixos salários aos professores e não fornece estrutura suficiente em todas as escolas. Mantém um teto orçamentário, aprovado no governo passado, que restringe novos investimentos em uma área que ainda está distante de um mínimo aceitável.

Mas repito o que sempre escrevo aqui: a sensação, de acordo com as preocupações do governo, é de que o problema da Educação passa pela presença de ilustrações de pipius e xaninhas em cartilhas voltadas a explicar a adolescentes cuidados de saúde com o próprio corpo. Ou a presença de conteúdo didático destinado a combater a violência contra mulheres, homossexuais e transexuais. Ou ainda um suposta doutrinação gayzista-globalista-político-partidária por militantes comunistas travestidos de professores, que pregam o fim da família e da propriedade privada e distribuem mamadeiras de piroca aos alunos.

Combater fantasmas serve para transformar algo insignificante em um inimigo terrível. Anima, dessa forma, a batalha da extrema direita, aliada de primeira hora do presidente, cujo engajamento é peça-chave para um governo que pretende manter a campanha eleitoral acesa até o seu último dia.

Cada erro de Weintraub, mesmo os intencionais (é possível que as falhas sejam propositais para criar polêmica), dos banais aos estruturais, devem ser debitados de Bolsonaro. É ele que terá que prestar contas com as novas gerações quando o futuro ficar mais distante.

Enquanto isso, desigualdade entre alunos ricos e pobres no Brasil está entre as maiores do mundo

Enquanto Bolsonaro incentiva as sandices de um ministro mais preocupado com seus ressentimentos acadêmicos do que com a educação propriamente dita, o Brasil é apontado como um dos países com maior desigualdade de aprendizagem entre os estudantes considerados ricos e pobres, segundo os critérios da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) mostram que, em todas as provas, o grupo de brasileiros entre os 33% dos alunos de todo o mundo com nível socieconômico (NSE) mais alto teve nota média mais de 100 pontos acima dos 33% de alunos com nível socioeconômico mais baixo.

Considerando todos os 80 países participantes do Pisa 2018, a desigualdade brasileira é a quinta maior em matemática, e a terceira maior em leitura e em ciências (veja abaixo lista dos cinco países com maior e com menor desigualdade).

A análise dos dados foi feita pelo Mapa da Aprendizagem, mantido pelo Instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Portal Iede), pela Fundação Lemann e pelo Itaú BBA.

O Pisa é realizado a cada três anos. Os resultados da edição mais recente, que teve a participação de 80 países, foram divulgados em 3 de dezembro. Entre 2015 e 2018, o Brasil caiu no ranking mundial de educação

Metodologia

nível socioeconômico (NSE) é determinado segundo diversos critérios de renda e escolaridade da família dos estudantes. As comparações de desempenho do estudo foram feitas em três etapas:

Primeiramente, o Iede considerou o universo de participantes da prova em todo o mundo – cerca de 600 mil estudantes de 15 anos;

Depois, esse universo foi dividido em três partes iguais, de acordo com o NSE de cada aluno. A comparação considera o terço com NSE mais alto e o terço com o NSE mais baixos, cada um com cerca de 200 mil estudantes. Países mais pobres, como o Brasil, ficaram com representação maior entre o grupo dos mais pobres, e menor entre o grupo de mais ricos;

O próximo passo da análise foi separar esses dois grupos de estudantes por país. Então, eles foram avaliados de acordo com uma série de características, como o índice de repetência e a nota média nas provas de leitura, matemática e ciências.

Em todas elas, os estudantes da elite brasileira tiveram média de mais de 100 pontos acima dos brasileiros classificados como o terço mais pobre entre os participantes do Pisa. Esse resultado colocou o Brasil no "top 5" da desigualdade mundial nas três disciplinas.

O estudo avaliou ainda a desigualdade de cada região brasileira – algumas delas tiveram disparidade maior do que os países mais desiguais. Veja abaixo a comparação em cada uma das três provas:

Matemática

Em matemática, os estudantes com nível socioeconômico baixo apresentaram média de 360,8 pontos, enquanto os de alta renda tiveram média de 461,8. A diferença foi de 101 pontos entre elas.

O Brasil é o quinto pais do ranking com maior diferença entre alunos dos extremos dos níveis sociais. Neste quesito, o país com mais desigualdade é Israel, com 112 pontos de diferença, seguido por Bélgica (104 pontos), Hungria (102) e Eslováquia (102).

Quando avaliadas as regiões do Brasil, o Nordeste é a que apresenta a maior desigualdade, com 107 pontos de diferença, seguida pela região Centro-Oeste (104); Sul (103,9); Sudeste (91,6) e Norte (81,7).

Mas Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Portal Iede, explica que uma desigualdade menor nem sempre é um bom sinal. Nos casos da Região Norte e de alguns países com a menor desigualdade, essa equidade é o resultado do baixo desempenho tanto dos estudantes pobres quanto dos mais ricos (veja no gráfico abaixo). Ela não garante, segundo Faria, que todos os alunos, independentemente de sua renda familiar, tenham o aprendizado adequado na escola.

Do outro lado da lista, os países ou regiões com menor desigualdade foram Macau (China), Cazaquistão, Kosovo, Albânia e Hong Kong (China).

A tabela abaixo mostra alguns dos 80 países participantes do Pisa 2018, incluindo os que têm maior e menor desigualdade, países da América do Sul, países com as principais economias mundiais, o Brasil e as regiões brasileiras:

Leitura

Em leitura, o Brasil ficou em terceiro lugar na lista de países mais desiguais entre alunos de família de alta e baixa renda (veja abaixo). A diferença foi de 102,6 pontos, abaixo apenas de Israel (121) e Filipinas (107). Os alunos brasileiros de alta renda, tiveram média de 492,2 pontos, enquanto os de baixa tiveram 389,6 pontos em média.

Nas regiões brasileiras, o Nordeste apresentou a maior desigualdade, com 112,2 pontos de diferença, seguido pelo Sul, com 107,5; Centro-Oeste, com 101,2; Sudeste, com 89,9 e Norte, com 83,9 pontos de diferença entre as médias. O "top 5" de países ou regiões com menor desigualdade incluiu Macau (China), Kosovo, Cazaquistão, Hong Kong (China) e Canadá:

Ciências

Na disciplina de ciências, o Brasil é novamente o terceiro país mais desigual, ficando atrás apenas de Israel e Bélgica. Assim como em leitura, os alunos com altos índices socioeconômicos também tiveram em média 102,6 pontos a mais que os com NSE baixo. Em Israel, essa diferença foi de 107,6 pontos e na Bélgica, de 105,6.

Nas regiões brasileiras, o Centro-Oeste foi o mais desigual, com 110,5 pontos de diferença, seguido por Nordeste (108), Sul (107,5), Sudeste (92,3) e Norte (78,2).

Por outro lado, os países ou regiões com menor diferença entre as notas médias foram Macau (China), Cazaquistão, Kosovo, Montenegro e Hong Kong (China):

Os ricos e pobres no Brasil

Segundo Faria, no Brasil há uma elite muito pequena em relação à quantidade de pessoas pobres, e que isso reflete a desigualdade do país na comparação internacional.

"É importante dizer que o Brasil tem conhecimentos e que temos boas escolas. Mas muito do nosso conhecimento está destinado a uma pequena elite", afirma Ernesto Martins Faria (Portal Iede)

Faria defende que o país foque as políticas públicas de educação na redução dessa desigualdade. "A condição social é muito determinante na formação do aluno. Poderíamos pensar como outros países, que oferecem melhores escolas para alunos de baixa renda, e oferecem melhores salários para que professores lecionem em escolas de baixa renda", ressaltou ele.

Repetência

O estudo do Mapa da Aprendizagem também comparou o índice de repetência, que avalia quantos alunos nunca repetiram no ensino fundamental. O Brasil, neste quesito, ficou em 11º lugar na desigualdade: 91% dos alunos com família de alta renda nunca repetiram de ano, contra 75% dos alunos de baixa renda. A diferença entre os dois grupos foi de 16 pontos percentuais (p.p.).

O Marrocos foi o país com a maior diferença neste quesito, com 34,5 pontos percentuais separando os alunos ricos e pobres.

Os demais países com desigualdade maior que o Brasil foram Espanha (31.2 p.p.), Bélgica (30,8 p.p.), Luxemburgo (27,5 p.p.), Uruguai (25 p.p.), Argentina (23 p.p.), Portugal (21 p.p.), Líbano (20,6 p.p.), França (18,8 p.p.) e Macau (18,6 p.p.).

Escolaridade das mães

Outro índice importante para avaliar a desigualdade entre os alunos de baixa e alta renda é o nível de escolaridade das mães. Esse é um dos principais fatores do cálculo do nível socioeconômico. Segundo especialistas, há uma forte relação indicando que, quanto maior é a escolaridade da mãe, melhor é o desempenho escolar do filho ou filha.

Nesse quesito, o estudo mostra que o Brasil está na 28ª posição entre os 80 países do Pisa 2018. Apenas 38% dos alunos de baixa renda têm mães que concluíram o ensino médio, enquanto 91,19% dos alunos de famílias com rendas mais altas têm mães com o diploma. A diferença, nesse caso, é de 52,6 pontos percentuais.

Portugal foi o país que teve a maior diferença neste índice: 16,32% dos alunos de baixa renda têm mães com diploma do ensino médio, contra 92,29% dos alunos da elite do país.

Como é feito o Pisa?

O Pisa é uma avaliação mundial feita em dezenas de países, com provas de leitura, matemática e ciência, além de educação financeira e um questionário com estudantes, professores, diretores e escolas e pais;

O resultado é divulgado a cada três anos – a edição mais recente foi aplicada em 2018 com uma amostra de 600 mil estudantes de 15 anos de 80 países diferentes. Juntos, eles representam cerca de 32 milhões de pessoas nessa idade;

No Brasil, 10.691 alunos de 638 escolas fizeram a prova em 2018. São 2.036.861 de estudantes, o que representa 65% da população brasileira que tinha 15 anos na data do exame;

O mínimo de escolas exigidas pela OCDE é 150

A prova é aplicada em um único dia, feita em computadores e tem duas horas de duração. As questões são objetivas e discursivas;

A cada edição, uma das três disciplinas principais é o foco da avaliação – na edição de 2018, o foco é na leitura;

O Brasil participou de todas as edições do Pisa desde sua criação, em 2000, mas continua muito abaixo da pontuação de países desenvolvidos e da média de países da OCDE, considerada uma referência na qualidade de educação.


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