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Sexta-Feira 25.set.2020

Ano IX - Nº 411

Especial

Mitomania

A mentira foi o grande destaque do primeiro ano do governo Bolsonaro

Postado em 10 de Janeiro de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), Bruno Boghossian (Folha de SP), Aos Fatos

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O primeiro ano de Jair Bolsonaro demonstrou que tanto o presidente da República quanto parte de sua equipe usaram a mentira e a falácia como instrumentos cotidianos de governo. Todo mandatário mente. A questão é quando isso se torna parte estrutural de uma gestão, estando presente em discursos, entrevistas, reuniões, para refutar quaisquer fatos e dados comprovados que estejam na contramão dos desejos do presidente.

Quando pego no pulo, Bolsonaro adotou a tática Donald Trump, afirmando que nunca disse o que efetivamente disse e chamando a imprensa de "fake news". Como muitos de seus seguidores não se deram ao trabalho de checar em fontes confiáveis, a culpa passou a ser dos "jornalistas que querem derrubar o presidente".

Bolsonaro culpou indígenas, ONGs e até o ator Leonardo DiCaprio pelas queimadas na Amazônia. Disse que tinha a "convicção" de que os dados de desmatamento (que saltou este ano) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram mentirosos e acusou o cientista Ricardo Galvão de estar "a serviço de alguma ONG". Ignorando a realidade, cravou que não existe fome no Brasil.

Chamou o vazamento de óleo que atingiu as praias do Nordeste e do Sudeste de criminoso, chegando a dizer que poderia ser uma ação para prejudicar o leilão da cessão onerosa do Pré-sal - mas até hoje seu governo não descobriu o que de fato aconteceu. Bradou que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE, que segue padrões internacionais, é errada simplesmente porque ela não o ajudava. Disse que a Petrobras não aumentaria o preço da gasolina e do diesel, para depois vermos reajustes em série.

Disse que a tortura pela qual a jornalista Miriam Leitão sofreu era mentira, que o jornalista Glenn Greenwald se casou e adotou crianças para evitar ser deportado, que a jornalista Constança Rezende conspirava contra seu filho. Afirmou que trabalho escravo é um exagero e que fiscais libertam pessoas pela pouca espessura de colchões ou pela falta de copos decentes.

Após visitar o Memorial do Holocausto, em Israel, afirmou que o nazismo foi um movimento de esquerda - para espanto de judeus e alemães. Revelou saber o paradeiro do corpo de Fernando Santa Cruz, que morreu lutando contra a ditadura, apenas para espezinhar seu filho, Felipe, presidente da OAB. Aliás, repetiu exaustivamente que não houve ditadura no Brasil.

Afirmou que "estamos terminando 2019 sem qualquer denúncia de corrupção", escondendo o laranjal do seu ministro do Turismo e do partido que o levou à Presidência, isso sem contar das lambanças de seu chapa, Queiroz. Atestou que o viés ideológico deixou de existir em nossas relações comerciais, o que não condiz com a verdade - basta ver o comportamento de vassalagem diante dos Estados Unidos e o excesso de ideologia que colocou em risco exportações à Europa e a países islâmicos. Disse que seu ministério é técnico, apesar das ações de Abraham Weintraub terem apontado o contrário.

Enquanto isso, o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, disse que as taxas de desmatamento eram manipuladas e infladas. Osmar Terra, do Ministério da Cidadania, disse não confiar em pesquisas da Fiocruz, instituição de renome internacional, ignorando os resultados porque não o apetecia. O chanceler Ernesto Araújo disse que as mudanças climáticas são uma farsa e afirmou que o aumento da média da temperatura global ocorreu porque estações de medição de temperatura que estavam no "mato" hoje estariam no "asfalto".

Tudo isso foi apenas um aperitivo. Teve muito, mas muito mais. Cotidianamente.

Tanto que, de acordo com o Datafolha, 43% dos entrevistados disseram que nunca confiam em afirmações do presidente, e 37% declararam confiar às vezes. O país se acostumou a um presidente que mente.

Bolsonaro acredita que foi eleito para empreender uma Cruzada, no significado medieval da palavra. Quer libertar o país tanto de um comunismo inexistente quanto de comportamentos e costumes progressistas - que, em sua opinião, são a origem do mal. Mas também tenta reescrever a História sob seu ponto de vista.

Isso não é só cortina de fumaça com objetivos políticos ou exagero para manter seguidores excitados e prontos para a batalha virtual. Ele realmente acredita nisso, por mais ridículo que pareça. Alimentado por paranoias e teorias da conspiração, muitas de suas ações seguem pelo caminho iluminado pela filosofia superficial do polemista Olavo de Carvalho.

Bolsonaro não age como presidente, mas como se comandasse o "Ministério da Verdade" - apresentado no romance "1984", de George Orwell, com a função de ressignificar os registros históricos e qualquer notícia que seja contrária ao próprio governo. Para tanto, sua máquina de guerra nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, fundamental para sua eleição, continua ligada e é usada para atacar violentamente a imprensa, cientistas, professores, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e qualquer um que o critique ao invés de dizer amém.

Bolsonaro tem demonstrado acreditar que sua palavra é o que dá significado ao mundo e as coisas são o que ele diz que são, características de governantes autoritários. Para ele, "verdade" é tudo aquilo que sai de sua boca. E "mentira" é tudo aquilo que o contradiz.

O presidente afirma gostar da passagem bíblica do "Conhecereis a verdade e ela vos libertará" (João 8:32), mas parece, de fato, se identificar com "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6).

Foi um. Faltam três. Ou sete. Ou mais anos, se as instituições não forem firmes o bastante.

Presidente se especializou em divulgar informações falsas para justificar absurdos

Em maio, Jair Bolsonaro ultrapassou mais um limite da realidade. Ao insistir na retirada de radares das estradas, ele disse que o controle de velocidade era uma das causas da violência no trânsito. “Prejudica. Causa mais acidente, até”, declarou.

Não era lapso ou distorção. Era mentira. O governo surfou nessa lorota e removeu os equipamentos móveis. Os acidentes não diminuíram, é claro. Ao contrário, houve aumento no número de mortos e feridos nos meses seguintes, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal.

O presidente se especializou em divulgar informações nitidamente falsas para embasar decisões disparatadas. Esse método, como se vê, tem consequências práticas sobre as políticas públicas e a sociedade.

Bolsonaro bateu recordes nesse quesito na área ambiental. Afirmou que o aumento da devastação da Amazônia captado pelo Inpe era falso (embora o alerta tenha se provado correto), culpou ONGs e incluiu até o ator Leonardo DiCaprio nessa trama fantasiosa. Tudo para mascarar sua leniência com grileiros, madeireiros e mineradores.

“Quer que eu culpe os índios? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que é esse pessoal de ONG que perdeu a teta deles, é simples”, afirmou o presidente, em agosto. Mentira.
Para continuar erguendo sua bandeira de ataques ao ensino público superior, Bolsonaro declarou, em abril, que “poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada”.

A fraude não foi pequena: das 20 melhores instituições do Ranking Universitário Folha na área de pesquisa, só uma escola era particular.

O presidente também disse que não havia fome no Brasil, repetiu que o nazismo era um movimento de esquerda e espalhou teorias da conspiração sobre médicos cubanos. Foi assim o primeiro ano de governo.

Checagem mostra Bolsonaro como fonte soberana de mentiras

O presidente foi o mais citado nas 348 checagens de desinformação publicadas em 2019 por “Aos Fatos” dentro da parceria firmada com o Facebook. O capitão reformado do Exército recebeu menções em 55 conteúdos desmentidos no ano passado; na metade deles (27), as informações falsas favoreciam sua imagem ou a de seu governo. A publicação mais compartilhada (81 mil vezes), por exemplo, afirmava que o presidente havia cortado verbas destinadas ao Carnaval e a paradas LGBTI.

Como reflexo da polarização política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o segundo mais citado nas peças de desinformação checadas: 26 delas o envolviam. Diferentemente do atual mandatário, a maior parte dos conteúdos sobre o petista (21) tiveram o intuito de atacar a sua imagem.

Ainda que tenha sido assunto de quase o dobro de peças de desinformação veiculadas, o conteúdo sobre Bolsonaro engajou menos o público do que as postagens enganosas a respeito de Lula. Enquanto as 55 notícias falsas que envolviam o presidente acumularam ao menos 582 mil compartilhamentos, as 26 que traziam o nome do petista somaram 639 mil.

É possível perceber outra diferença ao analisar o posicionamento das postagens com Lula ou Bolsonaro. No caso do atual presidente, as três peças de desinformação mais compartilhadas apelavam para o gosto do seu eleitorado: a primeira anunciava que o presidente teria cortado verbas do Carnaval via decreto (80 mil compartilhamentos); a segunda trazia fotos descontextualizadas para inflar manifestações pró-governo (41 mil compartilhamentos); e a terceira propagava que o orçamento do governo para a Educação seria o maior da história (40 mil compartilhamentos).

No caso de Lula, ocorreu o contrário. As três notícias falsas com mais compartilhamentos no momento em que foram checadas depreciavam a imagem do petista. A mais republicada (133 mil compartilhamentos) foi um vídeo em que um suposto irmão de Lula afirmava que o político “não teria caráter”. Em seguida, vieram um áudio falso em que Lula pedia o assassinato de Antonio Palocci (75 mil compartilhamentos) e uma gravação em que a CUT, central sindical historicamente ligado ao PT, estaria pedindo a prisão do ex-presidente (70 mil compartilhamentos).

Aparecem ainda entre os mais citados o PT, com 12 checagens; Sergio Moro, com 11; Dilma Rousseff, com nove; veículos de imprensa e jornalistas, com oito; o STF (Supremo Tribunal Federal), com sete; e as ONGs, com seis. Com exceção do ministro Sergio Moro, que teve três peças de desinformação que exaltavam sua imagem, todos os outros citados só foram desfavorecidos pelas publicações enganosas.

O levantamento completo das peças de desinformação pode ser conferido aqui. Em nossa análise, separamos as publicações por citações (as que mencionavam “Lula” ou “Lula livre”, por exemplo, ficaram na aba do ex-presidente). Vale ressaltar também que o número de compartilhamentos que aparece na tabela representa apenas o alcance das peças de desinformação no momento em que Aos Fatos realizou a marcação na ferramenta do Facebook. Os números, portanto, podem ser maiores hoje.

O Aos Fatos tem por princípio tratar todos os espectros políticos de forma equilibrada nas suas publicações. No entanto, não ignoramos a força dos principais difusores de desinformação, porque isso resultaria em um tratamento assimétrico do fluxo de informações falsas. Ou seja, o volume de checagens acompanha de forma proporcional o número de peças de desinformação que é difundido por cada um dos lados.

A escolha do que será checado dentro do universo de desinformação fornecido pelo Facebook segue critérios objetivos. Aos Fatos preza pela checagem de conteúdos de acordo com o alcance (número de visualizações e compartilhamentos) e com o dano potencial que a informação falsa pode causar. Assim, é normal que políticos com mandato recebam atenção especial pela influência que têm na formulação e execução de políticas públicas.

O que é? A parceria do Aos Fatos com o Facebook para verificar conteúdo distribuído na rede social começou em maio de 2018, antes das eleições presidenciais. O projeto, presente hoje em mais de 50 países, faz com que, uma vez identificada e checada a desinformação, o algoritmo da plataforma reduza o alcance da postagem e notifique usuários que viram ou interagiram com ela. A parceria foi estendida em dezembro para o Instagram e prevê sanções similares aos disseminadores de conteúdo falso na plataforma.

O conteúdo fornecido pelo Facebook aos checadores é selecionado primariamente a partir da denúncia de usuários. No canto superior direito das publicações, é possível encontrar a opção “Obter apoio ou fazer denúncia”. Ali, pode-se classificar algo como “Notícia falsa”.

Há ainda machine learning: ao passo que as checagens são publicadas, o algoritmo do Facebook começa a fazer suas próprias sugestões de conteúdos potencialmente falsos ou distorcidos.

Quem faz? A escolha dos parceiros pelo Facebook não foi aleatória. Assim como o Aos Fatos, todos os veículos integrantes do projeto são membros da IFCN (International Fact-Checking Networking). Isso significa que os parceiros seguem o Código de Princípios definido pela organização, que prevê imparcialidade, transparência e política de correção.

Sobre esse último quesito, o Facebook permite que usuários e administradores marcados por disseminar conteúdo enganoso possam contestar as checagens na plataforma. No caso do Aos Fatos pedidos de correção podem ser enviados pelo e-mail ouvidoria@aosfatos.org em um período de sete dias após a marcação do post na rede social. Caso os verificadores atestem que o erro foi corrigido, a penalidade é retirada da publicação.

Mais lidas

Além de política, desinformações sobre saúde e questões socioambientais também deram o tom das checagens em 2019. O desastre de Brumadinho, as obras na BR-163 (que liga o Rio Grande do Sul ao Pará) e a ativista Greta Thunberg estão entre as checagens feitas dentro da parceria com o Facebook mais lidas pela audiência este ano.

Conteúdos enganosos que envolviam temas de saúde se sobressaíram em relação ao número de compartilhamentos na época em que foram checados. Um vídeo que sugeria que perfurar dedos e orelhas auxiliaria vítimas de AVC tinha sido compartilhado ao menos 720 mil vezes antes de ser checado como falso. E pelo menos 700 mil pessoas haviam divulgado as imagens que mostravam um suposto verme mortal em pimentões.

Bolsonaro mira a imprensa e acerta a sociedade

Jair Bolsonaro voltou a exercitar no último dia 6 seu esporte predileto: tiro à mídia. Comparou jornalistas a animais como o mico-leão dourado. "Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção", declarou.

Pesquisa Datafolha divulgada no mês passado revelou que a grossa maioria dos brasileiros (80%) desconfia de Bolsonaro — 43% nunca confiam naquilo que o presidente da República declara, 37% confiam só de vez em quando. Apenas uma minoria (19%) confia 100% no que escorre dos lábios do inquilino do Planalto.

Quer dizer: Bolsonaro acha que é uma coisa. Mas sua reputação indica que já virou outra coisa. Considera-se um espécime da "nova política". Alardeia um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". É visto, porém, como uma espécie de fake presidente.

Irritado com notícia veiculada pelo UOL, o capitão disparou: "Quem não lê jornal não está informado. E quem lê está desinformado". Bobagem. A imprensa não ficou pior. O eleitorado é que vai descobrindo que a hipotética avis rara do Planalto é o que sempre foi: um político com 30 anos de mandatos e vícios.

Ao atacar a mídia, Jair Bolsonaro revela-se não apenas um político convencional —grosso modo falando. Demonstra ter uma pontaria precária para um capitão. Aponta para os repórteres e acerta pelas costas o pedaço da sociedade que desconfia do presidente. Faria um favor a si mesmo se trocasse a crítica pela autocrítica.


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