Semana On

Quarta-Feira 15.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

Por um viver não fascista

Fazer de si um quilombo, uma aldeia, uma trincheira

Postado em 27 de Dezembro de 2019 - Ricardo Moebus

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Foi agora mesmo, no apagar das luzes de 2019, durante a “Semana Chico Mendes”, que se encerrou no dia 22 de dezembro, dia em que aconteceu o assassinato do líder seringueiro em 1988, em Xapuri, que realizaram a refundação da “Aliança dos Povos da Floresta”.

A “Aliança dos Povos da Floresta” foi idealizada por Chico Mendes e outras muitas lideranças seringueiras e indígenas, como Ailton Krenak, há mais de trinta anos atrás, como estratégia de fortalecimento das lutas em comum dos povos extrativistas e dos povos indígenas.

Agora, a ideia da refundação desta “Aliança” é retomar a união consagrada há trinta anos atrás e agregar os povos quilombolas e os ribeirinhos de toda Amazônia, que se encontram igualmente ameaçados diante da atual política nacional de ataque aos territórios tradicionais.

A iniciativa é uma das muitas estratégias de re-existência que aconteceram ao longo de todo este ano, buscando sempre fazer uma barreira a este projeto nacional de ataque incessante aos territórios tradicionais.

Estes territórios tradicionais, vale lembrar, são territórios físicos, mas também são territórios existenciais, são modos de vida ainda possíveis, fortemente integrados, interdependentes e coexistentes com seus territórios físicos e suas dinâmicas ecossistêmicas.

Estes modos de vida intimamente ligados a estes territórios gozam de uma possibilidade de autogestão e autonomia surpreendentes, maravilhosos para alguns, ou ameaçadores para os “máquinismos de controle”.

Em seu livro/seminário “A Hermenêutica do Sujeito”, Michel Foucault aponta a importância desta correlação de forças:

“(…) é possível suspeitar que haja uma certa impossibilidade de constituir hoje uma ética do eu, quando talvez seja esta uma tarefa urgente, fundamental, politicamente indispensável, se for verdade que, afinal, não há outro ponto, primeiro e último, de resistência ao poder politico senão na relação de si para consigo.”

Talvez esteja aí uma resposta não exclusivamente econômica, para esta perseguição implacável que tristemente acompanhamos todo este ano, aos povos originários deste país, que ainda sustentam, cotidianamente, uma relação de si para consigo fortemente fundamentada em uma ética do bem comum, do bem viver como experiência somente possível na coletividade, no compartilhamento e no respeito à vida em todas as suas formas e manifestações.

Talvez estes modos de vida ainda pulsantes, conectados mais a uma economia do desejo e da vida do que a uma economia financeira e monetária, sejam mesmo uma grande ameaça a todo e qualquer projeto neofascista necropolítico de controle e domínio sobre a vida.

Talvez o projeto neofascista tenha enxergado nos manguezais, como fonte inesgotável de vida, uma trincheira de resistência aos seus planos, escolhendo deixá-los afundar no petróleo que se derramou pelos litorais.

Talvez o projeto neofascista tenha enxergado nas florestas, como exuberância indisciplinada de produção permanente de vida em abundância, uma trincheira de resistência aos seus planos, escolhendo deixá-las queimar em chamas.

Talvez o projeto neofascista tenha enxergado em cada aldeia, com seus modos de solidariedade milenar, uma trincheira de resistência aos seus planos, escolhendo atacá-las sequestrando seus territórios tradicionais.

Talvez, diante disso, só nos restará em 2020, cada vez mais nos fazermos a nós mesmos, na relação de cada um consigo e com os outros, um quilombo, uma aldeia, uma trincheira de produção de vida Não fascista.


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