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Sábado 30.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Coluna

Guernica Indígena

Eles ainda estão aqui entre nós, estão conosco e ao nosso lado, em toda parte, mesmo nas grandes cidades, os Povos Indígenas se misturam em toda parte, burlando sentenças de morte erguidas a cada momento contra eles

Postado em 20 de Dezembro de 2019 - Ricardo Moebus

Guernica - Waimiri Atroari Guernica - Waimiri Atroari

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Guernica é um estupendo quadro pintado em 1937 por Pablo Picasso, inspirado pelo bombardeio alemão, ataque covarde à cidade basca de Guernica. Ataque articulado pelo fascista Franco e seus aliados alemães.

Sobre o mesmo disse o próprio Picasso:

"Não, a pintura não está feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo."

Guernica é considerado uma “mensagem contra o autoritarismo”, contra o militarismo, contra o fascismo, contra o horror da violência contra civis, um “memorial dos crimes cometidos contra a humanidade no século XX”, mas também uma mensagem de esperança de que o século XXI poderia ser mais humanitário, mais democrático, menos autoritário, menos violento, menos brutal.

No entanto, iniciaremos daqui poucos dias os anos vinte do século XXI, com a América Latina em franca ascensão fascista autoritária e violenta.

Evo Morales recentemente exilado político no México, após alçar a Bolívia ao patamar de uma invejável Democracia Plurinacional, inclusive com um sucesso de desenvolvimento econômico sem precedentes naquela república, afirma em recente entrevista a Gleen Greenwald, do “The Intercept”, que um de seus principais erros pelos quais foi deposto e exilado é ser indígena, um erro étnico intolerável para a minoria dominante. Além de não submeter seu programa de governo às exigências do neoliberalismo transnacional.

Hoje certamente Guernica seria pintado com figuras humanas indígenas, e os animais que ali figuram seriam animais da floresta.  

Como aquela imagem do Tamanduá cego saindo de uma queimada, foto icônica do desespero e desamparo produzido pelas queimadas da floresta amazônica brasileira, que bateram recordes neste 2019.

Ou como aquela muito recente imagem do corpo jogado no mato, do cacique Firmino Prexede Guajajara, um dos dois caciques executados este mês de dezembro na Terra Indígena Cana Brava, no Maranhão.

Assassinatos de líderes indígenas que se repetiram na sexta feira passada, quando mais dois corpos de indígenas foram encontrados, com sinais de esquartejamento, próximos à Terra Indígena Araribóia, Maranhão.

Imagens em fragmentos deste horror, genocídio cotidiano, vão compondo este mosaico “Guernica Indígena” que ora retrata o Brasil.

Vivemos assombrados este Brasil 2019, exatamente cem anos depois do que é considerado o início da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1919, quando capitaneando o temor de uma revolução socialista, amplos setores da burguesia nacional acabaram apoiando um ator secundário, baixa patente, que assume um protagonismo imprevisto.

Há várias décadas os Guajajaras da Terra Indígena Araribóia sofrem invasões e roubo de suas florestas por “madeireiros”, mas a violência, incluindo homicídio, contra eles aumentou nitidamente este ano.

A Força Nacional de Segurança Pública, após insistentes pedidos, foi enviada para a região, mas estas últimas mortes aconteceram já após esta presença.

O noticiário fala de enfrentamentos entre indígenas e “madeireiros”.

Basta conferir algum dicionário que veremos que este “eufemismo” funciona para mascarar a realidade.

Madeireiro é um “negociante de madeiras” ou “operário que trabalha com madeiras”.

O que os povos indígenas estão enfrentando dentro de seus próprios territórios é o Crime Organizado, é a Máfia da Madeira Ilegal, é a Milícia dos Traficantes Internacionais de Madeira Ilegal.

É uma guerra desigual, na qual os indígenas estão morrendo no combate ao crime organizado, estão morrendo nesta função que é do Estado, de defender a Lei e impedir a repetição constante do ato criminoso de roubar e traficar madeira ilegal das terras indígenas.

Compõe este mosaico “Guernica Indígena” as imagens de Paulo Paulino Guajajara, “Guardião da Floresta”, um dos assassinados neste fim de ano, no meio da floresta com seu colete à prova de balas, que já vinha usando por muitos meses, por ser “Cabra Marcado para Morrer”, por ser “jurado de morte” pela Milícia do Tráfico Internacional de Madeira Ilegal, incentivado este ano por um certo discurso governamental que todos conhecem.

Guernica vivo insiste em se pintar no nosso horizonte nacional.

Sua força expressiva precisa despertar, logo, o quanto antes, do torpor político, do coma informacional, da morte participativo-sócio-cultural, toda uma gente das cidades que ainda não reagiu devidamente ao que está acontecendo agora, cada dia, neste certo Brasil etnocida, fratricida, matricida, que segue alimentando uma aliança necropolítica.

Sim, cada pintura agora, cada escrita, cada palavra, cada gesto individual ou coletivo não pode ser “feito para decorar apartamentos”.

Precisa “ser uma arma” que faça parar a bala que insiste em matar.

Que faça parar a bala que insiste em calar.

Que faça ecoar a Taba que Re-existe em cantar e dançar, para fazer o dia raiar.

A situação está mais crítica do que nunca, os povos indígenas estão encurralados, sendo atacados e mortos em seus últimos refúgios, dentro de suas aldeias. As milícias armadas do crime organizado atuam na floresta com mais voracidade e desenvoltura do que nas cidades.

E estas milícias cidade-campo estão interligadas, não só pelas rotas do narcotráfico e dos garimpos que passam também por algumas florestas, mas por uma coesão de negócios, um “Truste” do crime organizado.

Nós não estamos falando de madeireiros, é outra coisa muitíssimo diferente disso.

Cada gesto de solidariedade e apoio aos povos indígenas precisa ser feito agora.

Vivemos uma crise humanitária entre os povos indígenas, que, além de tudo, foram também muito afetados no litoral pelo derrame de Petróleo que contaminou as praias, os pescados, os mariscos e até a caça que come os pescados.

Parece não adiantar todos os avisos e anúncios indígenas de que o sangue negro da Mãe Terra, por tantos anos vampirizado por uma civilização assentada na “Matriz Energia Fóssil”, vazaria manchando os litorais de muitas terras, como uma praga.

Nem as profecias, nem todo o discurso científico de centenas de cientistas renomados apontando a rota de colisão climática, são suficientes para mudar nosso rumo.

Seguimos direto rumo ao nosso próprio fim, sacrificando tudo no altar das mercadorias e do consumo, alimentando um insaciável Deus Capital.

Então é Natal. Para júbilo dos negócios.

Experimente um gesto simples, que pode parecer banal ou até muito ingênuo. Experimente neste Natal, se for dar presentes, dar apenas artesanato indígena.

Experimente em si mesmo um gostinho de sutil reprovação social ou familiar por de alguma forma estar “sujando suas mãos” com a proximidade indígena. Sinta um pouquinho deste preconceito difuso despistado por algum argumento estético.

Presenteie com artesanato indígena. Você ajuda a financiar um modo de vida, além de, muito mais que isso, você trazer para a cena uma lembrança, uma memória, uma presença, uma visibilidade.

É um gesto muito pequeno de cada um de nós, pode ser que acabe ajudando mais a si próprio que aos povos indígenas, mas mesmo assim, é um gesto que compartilha, interage, precisa ser feito.

O artesanato indígena está nas feiras, está nas ruas, ou até em alguns pontos de venda em muitas cidades, mais do que se imagina.

Eles ainda estão aqui entre nós, estão conosco e ao nosso lado, em toda parte, mesmo nas grandes cidades, os Povos Indígenas se misturam em toda parte, burlando sentenças de morte erguidas a cada momento contra eles.


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