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Quinta-Feira 23.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Mundo

Um tapa na cara do anticientificismo bolsonarista

Ex-chefe do Inpe, que defendeu trabalho do instituto, e jovem ativista sueca aparecem em lista de dez pessoas que tiveram impacto na ciência em 2019. Os dois foram alvos de ataques de Jair Bolsonaro ao longo do ano

Postado em 18 de Dezembro de 2019 - DW

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 O ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Ricardo Galvão e a jovem ativista ambiental Greta Thunberg figuram na edição 2019 da revista Nature que elenca anualmente dez personalidades que se destacaram no campo da ciência. A relação completa foi divulgada no último fia 19 pela publicação científica mais tradicional do mundo. 

A escolha de Galvão, de 71 anos, já havia sido divulgada, mas agora a revista deixou claro que o brasileiro foi escolhido em razão da sua defesa do trabalho do Inpe frente aos ataques do presidente Jair Bolsonaro. Galvão foi exonerado do comando do instituto em agosto, depois de rebater críticas de Bolsonaro sobre a veracidade de dados que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia.

"Ele falou em defesa dos cientistas do Inpe. Também acusou o presidente da covardia e o convocou a uma reunião frente a frente – atos que sabia que lhe custariam o emprego. O que Galvão não sabia é que se tornaria uma espécie de herói, aclamado por seus colegas científicos e por estranhos nas ruas. Uma mulher até o parou no metrô de São Paulo para agradecer-lhe por enfrentar Bolsonaro e ajudá-la a entender por que a preservação da Amazônia é importante", diz o texto da Nature explicando a escolha do cientista.

A revista chamou ainda a atenção para os desafios ambientais do Brasil na era Bolsonaro: "A reputação do Brasil como líder ambiental vem se deteriorando nos últimos anos. O país conseguiu conter o desmatamento em mais de 80% entre 2004 e 2012, mas a política de proteção agressiva acabou provocando uma reação política e um aumento no desmatamento."

O alerta de Greta

Outro alvo de ataques do presidente Jair Bolsonaro também figura na lista da Nature: a ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos. Na semana anterior, a ambientalista já fora eleita a Pessoa do Ano de 2019 pela revista Time, por seus esforços pela proteção climática e por ter lançado o movimento Greve pelo Futuro (Fridays for Future, no original). Dias antes da escolha, Greta foi chamada de "pirralha" por Bolsonaro e respondeu ao brasileiro de forma irônica no Twitter.

Ao justificar a escolha, a revista Nature destacou a forma como Greta chamou a atenção para a mudança climática e o futuro do planeta: "Os cientistas passaram décadas alertando sobre as mudanças climáticas, mas não conseguiram galvanizar a atenção global da maneira que Thunberg fez neste ano. A sueca de 16 anos os superou – e muitos a estão saudando por isso."

O que ela conseguiu, deve motivar os pesquisadores do clima a continuar com sua ciência, apesar da lenta ação política, disse a cientista climática Sonia Seneviratne, do Instituto Federal Suíço de Tecnologia.

"Alguns podem se perguntar por que uma adolescente deveria receber mais crédito e atenção, por lamentar publicamente um dilema bem conhecido, do que a maioria dos climatologistas recebe por anos de esforço e trabalho duro", disse Seneviratne. No entanto, Greta tem uma sinceridade e uma fúria poderosas, que não costumam estar no arsenal dos pesquisadores: "Como cientistas, normalmente não ousamos expressar a verdade com toda essa simplicidade emotiva."

Luta contra ebola, computador quântico

A revista deixa claro que a listagem de dez nomes não é um ranking ou destaca necessariamente pessoas responsáveis por descobertas científicas. Segundo a publicação, a relação destaca indivíduos que tiveram um papel nos momentos mais significativos da ciência ao longo do ano.

Ainda no campo ambiental, a revista destacou a ecóloga argentina Sandra Díaz, que coordenou uma equipe de 144 pesquisadores responsável pelo mais amplo estudo da biodiversidade global. E a conclusão não foi animadora: eles mostraram que cerca de 1 milhão de espécies estão na rota da extinção devido às ações humanas.

A lista ainda destacou a astrofísica americano-canadense Victoria Kaspi, que conduziu uma iniciativa de adaptar um telescópio no Canadá para torná-lo capaz de coletar dados mais precisos sobre misteriosos disparos rápidos de rádio, eventos cósmicos descobertos em 2007 e cuja origem segue incerta.

Também figura o microbiologista Jean-Jacques Muyembe Tamfum, da República Democrática do Congo, que há mais de 40 anos vem participando dos esforços para combater repetidas epidemias de ebola na África. Em 2019, ele demonstrou uma taxa de sobrevivência de 90% para pacientes que recebem tratamento pouco tempo depois da infecção.

A lista é ainda formada pelo paleontologista etíope Yohannes Haile-Selassie, que se destacou pela descoberta do crânio de 3,8 milhões de anos do Australopithecus anamensis. Por Nenad Sestan, neurocientista da Universidade de Yale (EUA) que conseguiu "ressuscitar" parcialmente o cérebro de porcos depois de eles terem sido extraídos das carcaças dos animais, um experimento que pode modificar a forma como se distingue a vida e morte. E o biólogo chinês Hongkui Deng, que usou a uma técnica de edição genética para introduzir, num paciente adulto, células modificadas para serem resistentes ao HIV.

Por fim, a lista cita o físico John Martinis, pelo anúncio de que o computador quântico de sua equipe poderia realizar cálculos mais rápidos do que um computador normal. E a professora de bioética australiana Wendy Rogers, por revelar ao mundo um escândalo envolvendo a retirada de órgãos na China sem o consentimento dos mortos doadores.


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