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Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Entrevista

“Os sinais mostram que um regime de exceção cresce no Brasil”

Filha de Luiz Carlos Prestes analisa seu livro de memórias, o capitalismo e o Brasil atual

Postado em 17 de Dezembro de 2019 - René Ruschel - Carta Capital

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Aos 83 anos, a historiadora Anita Leocadia Prestes mantém a vitalidade e a garra de quem sempre lutou pela liberdade. Filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, “comunista desde a adolescência”, ela acaba de lançar pela Boitempo um livro de memórias, Viver É Tomar Partido. Um trecho da obra será publicado na edição especial de fim de ano desta revista. Em Curitiba, antes da sessão de autógrafos, a autora concedeu a seguinte entrevista.

 

O livro Viver É Tomar Partido não é propriamente uma autobiografia, mas um relato de fatos acontecidos em sua vida, seu ativismo político. O que a senhora pretendeu registrar?

Nunca pretendi escrever memórias, mas nos últimos anos alguns amigos e companheiros me incentivaram a relatar aspectos da minha caminhada. Além de contar sobre o relacionamento político com meu pai, falo a respeito da história das mulheres da família que exerceram uma enorme influência na minha vida. Minha mãe, Olga, minha avó paterna, Leocadia, minhas tias, principalmente a Lygia, que me criou. Aliás, ela praticamente foi a minha mãe. Falo dos vários exílios, perseguições, ameaças, além das atividades políticas no Partido Comunista. Pretendo recuperar parte dessa história para que os jovens de hoje e de amanhã conheçam um pouco da minha vida.

A palavra “partido” no título do livro é no sentido político-partidário ou em seu espectro mais amplo?

É no sentido amplo. O título é uma expressão do poeta e dramaturgo alemão Christian Friedrich Hebbel, popularizada por Antonio Gramsci em um artigo, onde ele acrescenta a expressão “odeio os indiferentes”. Eu fui educada pelo meu pai, pela minha avó e tias sempre nesse sentido, para me posicionar e nunca ficar indiferente.   

Com o fim da Guerra Fria, da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, o comunismo perdeu força em todo o mundo. A senhora acredita haver espaço para o seu fortalecimento?

Derrocada não foi a ideia do socialismo e do comunismo, mas o socialismo real que existia na União Sovié-tica e nos países da Europa oriental. Cometeu-se uma série de erros, que precisam ser analisados num contexto histórico. Persiste, no entanto, a ideia do fim do capitalismo, da necessidade da revolução socialista, onde não haja a exploração do homem pelo homem. É preciso lembrar que Marx provou, cientificamente, que o capitalismo se desenvolve por contradições, com consequências cada vez mais graves à sociedade, como desemprego, crises, concentração de renda. Exatamente o que vemos hoje. O capitalismo não tem saída como sistema econômico e social. Daí a necessidade dessa mudança, e a única possiblidade é o socialismo. 

No Brasil, os partidos políticos se transformaram em balcões de negócios…

Aqui, todos os partidos políticos são burgueses. Inclusive o Partido Comunista Brasileiro, que pretendia ser revolucionário, não conseguiu. No início dos anos 1980, Prestes disse que, no Brasil, existia gente de esquerda, não partidos de esquerda. A frase continua válida. Ele nunca considerou o Partido dos Trabalhadores como de esquerda. Aliás, o próprio Lula disse várias vezes não ser de esquerda. Prestes dizia ainda que um partido revolucionário nasce da organização e da pressão popular das bases. Aqui ainda estamos longe disso.

Na América do Sul, inclusive no Brasil, o que se viu foi o avanço de uma enorme onda conservadora. Onde as chamadas forças progressistas erraram? O que aconteceu?

Não só no Brasil ou na América do Sul, mas em todo o mundo, o que domina as esquerdas é o reformismo. E o que é o reformismo? É justamente o abandono da perspectiva revolucionária. Isso vem da social-democracia alemã na virada do século XIX para o século XX. Foi o que aconteceu no Brasil com o PT. Sem perspectiva de derrotar o capitalismo, tentou-se simplesmente reformá-lo. Mas isso não resolve os nossos problemas, pois não são atacadas as questões básicas, entre elas a especulação do capital financeiro. Basta ver os lucros dos bancos nos governos petistas. Todo esse processo gera, além de uma enorme crise econômica, a insatisfação popular. E o somatório dessa equação, crise mais insatisfação coletiva, resulta num trampolim para os governos populistas e de direita ascenderem ao poder. O Brasil é a prova maior.

Como a senhora analisa o Brasil de Bolsonaro. Corremos o risco de um novo retrocesso democrático?

Caminhamos para isso. Os sinais mostram que um regime de exceção cresce no Brasil. A última prova é o Congresso ter votado o projeto anticrime idealizado por Sérgio Moro, que contribui para mais repressão contra o povo. O que ele propõe é enfrentar a violência, fruto de toda a crise do capitalismo e do próprio comportamento deste governo, com mais violência. 

A senhora é favorável a uma frente ampla do campo progressista?

No caso do Brasil atual, acho muito difícil a formação de uma frente ampla. Os partidos políticos, como disse, são burgueses e não têm interesse em mudar esse panorama. E os movimentos populares estão fragilizados, não têm força suficiente para exigir dos parlamentares uma tomada de posição.

 O PCB, em determinado momento de sua história, fez uma autocrítica. Admitiu erros e fracassos. Neste momento, o PT vive esse dilema. Fazer autocrítica não seria um exercício democrático?

O PCB nunca fez autocrítica. Quem fez foi o Prestes, e seus seguidores, por meio da Carta aos Comunistas, em 1980. O PCB recusou-se a fazer, razão pela qual Prestes rompeu com o partido. No movimento comunista, a autocrítica é uma tradição. Lenin dizia que a autocrítica é fundamental para definir a seriedade e o caráter de um partido. Gleisi Hoffmann e Lula disseram que o PT não vai fazer. Se o PT fosse um partido realmente comprometido com os interesses populares, acho que deveria fazer. Se você não reconhece seus próprios erros, não pode avançar. É lamentável, mas essa é a realidade.


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