Semana On

Sexta-Feira 14.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Poder

Bolsonaro tem aprovação menor que Lula, Dilma e FHC após 1º ano

Presidente chega ao final do seu primeiro ano de mandato como um governante inconfiável aos olhos da maioria dos governados

Postado em 13 de Dezembro de 2019 - Carta Capital, Josias de Souza (UOL), RBA – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Jair Bolsonaro pode colocar mais um troféu em sua estante. De acordo com pesquisa Datafolha divulgada no último dia 8, ele está entre os presidentes com pior avaliação para os 12 meses iniciais do primeiro mandato. São 36% de pessoas que acham o governo ruim ou péssimo.

Como base de comparação, Bolsonaro perde para Fernando Collor, que tinha 34%, e leva uma lavada de Fernando Henrique, Lula (15% cada em seus primeiros mandatos) e Dilma Rousseff, com 6%. O ex-capitão vence apenas Itamar Franco e Michel Temer – o grande campeão nacional em desaprovação, que terminou seu primeiro ano com rejeição de 61%.

Outro dado significativo para o Ano Novo da família Bolsonaro: somando-se as avaliações de um governo ruim/péssimo e regular, a fatia chega a 68% da população ouvida pelo Datafolha. Ao lado do ex-capitão de forma inconteste seguem aqueles fiéis 30% que o acompanham desde a campanha eleitoral.

Entre os otimistas com Jair Bolsonaro estão, sobretudo, homens, brancos, empresários, com ensino superior e evangélicos. Contra o governo há os jovens, as mulheres, os negros, os indígenas e moradores da região nordeste.

Ainda importante na pesquisa: a taxa dos que aprovam o trabalho do governo no combate à corrupção caiu de 34% para 29%. A reprovação neste segmento chegou a 50% – era de 44% no levantamento anterior.

Voo de galinha

A pesquisa mostra que a aprovação do governo Bolsonaro variou de 29% para 30%, em relação ao último levantamento, publicado em setembro. A “leve” melhora na popularidade do governo, com oscilações dentro da margem de erro – que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos – está associada à percepção de que a economia deu “um respiro”, diz a cientista política Roseli Coelho, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Segundo ela, a melhora “artificial” se deve não às medidas liberais, mas sim à ações emergenciais de combate à crise, como a liberação do FGTS. Ela afirma que o crescimento de 0,6% no PIB do segundo para o terceiro trimestre, divulgado pelo IBGE na semana passada, comemorado pelo governo, se trata de “voo de galinha”. “É importante que a gente entenda que esse respiro não é uma modificação estrutural, que estariam pondo ordem na casa e, por isso, começou a crescer. O governo já pensa inclusive em adotar isenções na folha de pagamento. Provavelmente vão levando assim até o final do mandato, de susto em susto. Na verdade, está piorando a situação estrutural do país”, afirmou.

O apoio ao governo é maior entre empresários (58% de aprovação), os que ganham mais de cinco salários mínimos por mês (44%), que moram na região sul (40%). Entre os evangélicos neopentecostais, o apoio chega a 39%, e entre os brancos, 37%. Em contrapartida, a desaprovação é maior entre os adeptos de religiões afrobrasileiras (55%), moradores do nordeste (50%), indígenas (50%), desempregados (48%), pretos (46%) e mais pobres (43%).

Para Roseli, esses dados demonstram que o governo mantém parte da sua aprovação a partir das disputas na esfera ideológica, ao adotar uma retórica moralista e religiosa, mas que ao mesmo tempo defende o porte de armas e o direito de matar pelas polícias. Tudo isso combinado com altas doses de “anticomunismo” e “antipetismo”.

Outra contradição apontada por ela é que Bolsonaro adota uma política externa baseada na ideologia, enquanto diz defender as relações com outros países sem “viés ideológico”. O afastamento com o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernandez, por exemplo, tem potencial para causar danos econômicos, inclusive para os próprios empresários que apoiam o presidente.

Outro dado da pesquisa destacado pela cientista política é o que aponta o aumento de 44% para 50% de reprovação popular às medidas de combate à corrupção pelo governo. Para Roseli, esse não é um tema preferencial de Bolsonaro e foi adotado “por inércia”. Agora, “talvez a ficha esteja caindo”, na medida em que a opinião pública vai tomando conhecimento dos escândalos envolvendo candidaturas-laranja no PSL, e dos “pequenos escândalos intrapartidários” que ocorrem no partido que elegeu o presidente.

Dois capitães

Há dois capitães Bolsonaro na praça. O presidente acha que é uma coisa. Mas sua reputação indica que já virou outra coisa. O primeiro Bolsonaro personifica a nova política, combate as notícias falsas e cultua um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". O outro Bolsonaro, retratado na pesquisa do Datafolha, é muito parecido com o primeiro, só que mente um pouco.

A grossa maioria do eleitorado (80%) ouve Bolsonaro com a pulga atrás da orelha— 43% nunca confiam naquilo que o presidente da República declara, 37% confiam só de vez em quando. Apenas uma minoria (19%) confia 100% no que escorre dos lábios do inquilino do Planalto.

A pesquisa traz uma péssima notícia: Jair Bolsonaro chega ao final do seu primeiro ano de mandato como um governante inconfiável aos olhos da maioria dos governados. A sondagem traz também uma extraordinária novidade: o brasileiro já não se deixa enganar tão facilmente.

A plateia percebeu que Bolsonaro opera num mundo com duas verdades: a dele e a verdadeira. Ele chama a imprensa de mentirosa e, simultaneamente, acusa Leonardo DiCaprio de financiar incêndios na Amazônia. Autoriza o desmonte do aparato de fiscalização ambiental enquanto se confraterniza com grileiros e desmatadores. Renega dados científicos sobre queimadas e, na sequência, acusa ONGs de riscar o fósforo.

Bolsonaro declara que o envolvimento com candidaturas laranja deixou o dono do PSL, Luciano Bivar, "queimado pra caramba". Mas não se constrange de manter no comando do Ministério do Turismo o deputado licenciado Marcelo Álvaro Antônio, indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público por plantar um laranjal na escrituração eleitoral do PSL de Minas Gerais.

Nesse confronto entre as duas verdades —a de Bolsonaro versus a verdadeira— produziu-se uma distorção insuportável. Todas as manhãs, ao escovar os dentes, Bolsonaro enxerga no reflexo do espelho um político antissistema, avesso à corrupção e adepto da transparência. O desapreço pelos fatos e suas relações com Fabrício Queiroz, o faz-tudo que enfiou dentro da biografia do primogênito Flávio, grudam na face de Bolsonaro a imagem do atraso.

Bolsonaro revelou-se um presidente sui generis. Fala dez vezes antes de pensar. Pronuncia o que imagina ser conveniente, sem esboçar preocupação com o desmentido dos fatos. Em plena era da fake news, o capitão vai se consolidando como uma espécie de fake presidente, eis a verdade que salta dos dados colecionados pelo Datafolha.

Futuro reeleitoral de Jair Bolsonaro está no bolso

Candidato declarado à reeleição, Bolsonaro encontra na mais recente pesquisa do Datafolha uma fórmula para o sucesso. A coisa passa pelo bolso do brasileiro. Num instante em que a economia exala um leve aroma de crescimento, a popularidade do presidente parou de cair.

Num movimento, Bolsonaro precisa trazer a língua na coleira. Noutro, tem de abandonar a condição de estorvo de sua equipe econômica. Entre todos os setores do governo, o econômico é o mais popular. Em três meses, cresceu cinco pontos percentuais o índice dos que aprovam a atuação do governo nessa área.

Em trajetória inversamente proporcional, caiu a taxa de aprovação do modo como o governo lida com a corrupção. Quer dizer: embora considere que a gestão de Bolsonaro tornou-se mais complacente com os maus costumes, um pedaço da plateia emite sinais de que pode fechar os olhos se a economia der um salto.

Mal comparando, Bolsonaro vive situação análoga à de Michel Temer antes do grampo do Jaburu. Temer dispunha de uma equipe econômica com boa reputação. Alguns foram aproveitados na equipe de Paulo Guedes. O resultado não tardou a aparecer no painel de indicadores.

Quando Temer assumiu, nas pegadas do impeachment de Dilma Rousseff, o PIB estava numa lona histórica. No segundo trimestre de 2016, a recessão ardia a pino: em quatro trimestres, acumulou-se uma contração de notáveis 4,8%. A inflação bateu em 9,5%.

Com método e paciência, a equipe de Temer retirou o país da recessão, iniciando uma trajetória de taxas mixurucas de crescimento. A inflação foi contida, os juros começaram a cair.

A coisa não deslanchou basicamente por duas razões: Temer fez concessões à irresponsabilidade fiscal. Concedeu reajustes a servidores. Fez favores a ruralistas. De resto, foi pilhado na conversa vadia com Joesley Batista.

Sob Bolsonaro, aprovou-se a reforma da Previdência que Temer não conseguiu retirar do papel, reforçou-se o torniquete fiscal e reduziram-se ainda mais os juros. O resultado está longe de ser exuberante, mas ele existe.

O desemprego cai. Entretanto, o ritmo é lento, a remuneração é menor, a informalidade supera os 40% e o trabalho é mais precário. O consumo neste final de ano foi anabolizado pela liberação de parte do FGTS.

O brasileiro não ignora o tamanho do desafio. De acordo com o Datafolha, a maioria (55%) considera que a crise deve demorar para acabar, e o país não voltará a crescer vigorosamente a curto prazo.

A despeito de tudo, os entrevistados resolveram estancar a sangria da popularidade de Bolsonaro. Se tivesse juízo. O presidente destituiria sua língua do posto de líder da oposição e tocaria as reformas pós-Previdência em vez de pisar no freio. Mas juízo é material escasso no Planalto.

De resto, convém não esquecer que há na praça um fio desencapado. Chama-se Fabrício Queiroz. Tem potencial para produzir um curto-circuito tão desestabilizador quanto o grampo produzido na noite alta do Alvorada por Joesley Batista.

Capitão e Guedes têm prestígio de sub-Damares

A pesquisa Datafolha expõe alguns paradoxos. Na percepção dos brasileiros, o governo de Jair Bolsonaro piorou no quesito combate à corrupção. Mas Sergio Moro continua sendo o ministro mais bem avaliado do governo. O brasileiro enxerga avanços na gestão da ecomomia. Mas Paulo Guedes ocupa apenas a terceira colocação no ranking de avaliação dos ministros. É superado por Damares Alves, a segunda colocada.

Na comparação com pesquisa realizada em agosto, caiu cinco pontos —de 34% para 29%— o índice de aprovação da forma como o governo lida com a corrupção. Mas a gestão de Sergio Moro é aprovada por 53% dos brasileiros. Isso ocorre porque a sujeira ao redor —do rolo do primogênito Flávio Bolsonaro ao laranjal do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio— essa sujeira não grudou na imagem que Moro construiu como juiz da Lava Jato.

Em movimento inverso, subiu cinco pontos —de 20% para 25%— a taxa de aprovação do modo como o governo gerencia a economia. A despeito disso, a aprovação de Paulo Guedes, de 39%, é inferior à de Damares Alves, aprovada por 43% dos brasileiros. É preciso levar em conta, porém, que o índice de Damares é anabolizado pela religião, pois a pesquisa revela que o grosso de sua popularidade vem dos evangélicos pentecostais.

De resto, 39% de aprovação para um ministro da Economia, associado a cortes e arrochos, não chega a ser uma má avaliação. Atribui-se ao aroma de crescimento que começou a exalar do PIB o estancamento da sangria na aprovação de Bolsonaro. Parou de cair. E ainda subiu um ponto percentual: de 29% para 30%.

Se a pesquisa serve para alguma coisa é para mostrar a Bolsonaro que ele deveria administrar melhor a língua, colocar as encrencas em pratos limpos e se concentrar na economia. A prosperidade do país depende da economia. A popularidade do presidente também. Não fica bem a um candidato à reeleição ostentar uma aprovação de sub-Damares.


Voltar


Comente sobre essa publicação...